JORGE PEDRO

Artista inaugura instalações inspiradas em massacre
Em exposição no Teatro Calil Haddad, as novas obras de Jorge Pedro homenageiam trabalhadores rurais locais e os assassinados em Eldorado dos Carajás em 1996

O mais conceituado e ativo artista plástico maringaense, Jorge Pedro Barbosa Lemes, abriu a exposição "Nossas Raízes" na manhã desta sexta (23) no Teatro Calil Haddad. O novo trabalho apresenta duas instalações colocadas nas laterais da calçada que dá acesso à entrada do teatro.

Mais uma vez, Jorge criou uma obra que atrai a curiosidade do olhar. Parado frente aos totens de "Massacre no Campo" ou dos painéis com as flores de aço de "O Homem e a Terra", pode-se divagar sobre o processo de produção ou quanto ao significado. As novas obras, que foram encomendadas pela prefeitura em conjunto com a UEM – Universidade Estadual de Maringá – visam criar uma afinidade com o trabalho rural.


Jorge Pedro ao lado da instalção: totens,
enxadas e foices metafóricas

MASSACRE

Inspirado pela massacre de Eldorado dos Carajás, no sul do Pará, que resultou na morte de 19 trabalhadores rurais pela Polícia Militar em 17 de abril de 1996, Jorge criou 19 totens ornados com correntes, pás, máscaras e foices para simbolizar os mortos. Para chegar à essa concepção, o artista precisou de algumas referências. "Fiz uma pesquisa onde encontrei cemitérios aborígenes da Austrália onde, em vez de cruzes, os indígenas usam totens para marcar os túmulos dos guerreiros. Eu fiz um paralelo, uma analogia, com a morte dos sem-terra como se fossem guerreiros mortos de uma causa.", revela o artista que colocou o nome dos assassinados, cuja idade vai de 18 a 60 anos, nas peças.

Já "O Homem e a Terra", composta por 24 flores dispostas em painéis mais um poema do bispo D. Pedro Casaldáliga, mostra o ponto forte no múltiplo estilo do artista. Explorando a metáfora, Jorge usou enxadas para criar flores que brotam de pedras, representando a agricultura que é tirada da terra com muito suor. Além das enxadas, também foram utilizadas outras ferramentas comuns no trabalho rural. O poema do bispo engrandece ainda mais a obra. Com 90 anos de idade, o religioso é um militante do MST em São Felix do Araguaia, em Mato Grosso.

Quem observa as curiosas peças, não imagina a complexidade de transpor da imaginação para o papel e, enfim, conceber fisicamente. Por mais experiente que seja, o artista tem algumas surpresas. Neste caso, Jorge comenta com bom humor que seu trabalho foi como um parto. "A princípio, quando se fez o projeto, deu a impressão que as ferramentas seriam encontradas com muita facilidade. E, depois, tivemos que viajar de Londrina a Paranavaí para juntar as 300 ferramentas necessárias ao projeto.", lembra.

FASES

A idéia de usar enxadas como flores já rendeu outra obra. Em 1996, uma peça foi produzida para uma exposição na UEM. A idéia original também surgiu com o massacre de Eldorado dos Carajás. A peça, hoje, faz parte do acervo da universidade e se encontra na Biblioteca Central da instituição. E foi o mesmo massacre que motivou algo mais elaborado dessa vez, partindo do cotidiano para uma arte com linguagem própria. "Acreditava que eles tinham que ter um monumento fazendo uma homenagem sazonal a um grupo de trabalhadores específicos. Era estabelecer uma linha de arte que tivesse uma linguagem do povo.", conceitua seu trabalho.

A exposição "Nossas Raízes" é dividida em três fases. As duas primeiras foram apresentadas esta semana e a terceira, "Pioneiros de Maringá", é composta de 20 quadros homenageando trabalhadores rurais da região e será levada a público em maio do ano que vem, no aniversário de Maringá.

As instalações também serão levadas para outros locais relacionados à prefeitura e universidade., como os campos avançados da UEM, algumas cidades da região e até para os assentamentos nas fazendas coletivas dos trabalhadores dos sem-terra. Como resultado, Jorge Pedro acha que teve uma feliz idéia de juntar duas coisas tão diferentes, que é a vida urbana e a vida rural. "Pra mim foi gratificante notar que agradou tanto as pessoas que apreciam a arte de elite, quanto o trabalhador, aquele que faz uso de sua enxada para capinar sua roça.", conclui.

Texto e foto: Andhye Iore

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