Filme francês denuncia códigos sociais
Em "Código Desconhecido", Juliette Binoche é parte de várias situações
onde pessoas tem dificuldades de se encaixarem na sociedade

O diretor Michael Haneke é um privilegiado pela mostra. Nascido em 1942, em Munique, na Alemanha, com nacionalidade austríaca e, atualmente, filmando na França, mostra os conflitos humanos no dia-a-dia, sejam influenciados pela televisão ou pelos códigos sociais que regem as pessoas.

Estreando como diretor em 1970, Haneke se dedica ao cinema independente e ao teatro. Seus principais filmes foram revelados pelo festival. "Violência Gratuita", de 1997, foi exibido na 21º Mostra e apresenta como a banalização da violência nos meios de comunicação pode causar sérios danos na vida real. Antes desse filme, "O Sétimo Continente", "O Vídeo de Benny", "71 Cronologias do Acaso" e "Cabeça de Touro" também foram exibidos em mostras anteriores.

Em seu novo filme, "Código Desconhecido", o diretor usa da linguagem não verbal para estabelecer limites e fazer denúncias no convívio social. Se em "Violência Gratuita" ele usou a violência para incomodar o público, em "Código Desconhecido" fez uso de técnicas de edição para crair um desconforto na platéia.

Várias personagens enfrentam problemas em seu cotidiano e, aos poucos, vão se cruzando em algum ponto de Paris. Uma mendiga romena é humilhada na rua por um rapaz, Jean, que tem problemas de relacionamento com seu pai, que vive sozinho e se dedica à uma fazenda. Anne é uma atriz, irmã de Jean, e está prestes a fazer sua estréia no cinema. Ela é casada com um fotógrafo que quase não pára em casa. Ao humilhar a mendinga, jogando um pedaço de papel em cima dela, Jean é abordado pelo bondoso e politicamente correto Amadou que exige que ele se desculpe com a mendinga. Uma confusão se forma na rua e, como Amadou é negro, vai preso no lugar de Jean.

A partir daí, os tais códigos desconhecidos do filme passam a narrar a vida das personagens. Anne sofre com vários problemas de relacionamentos com as pessoas próximas (o irmão rebelde, o pai frustrado e o marido ausente), sem contar que ela troca o código da fechadura de sua casa com freqüência devido à insegurança. A família de Amadou luta contra o preconceito racial, além de educar uma filha com deficiência auditiva que se comunica através de gestos. E a romena Maria se tornou mendiga depois de não conseguir emprego em Paris para mandar dinheiro para a família. Maria é deportada para a Romênia e volta, em seguida, com a família sem muito sucesso nas ruas francesas passando fome, necessidade e vergonha que os imigrantes clandestinos sentem.

Entre uma cena e outra, o diretor Michael Haneke dá cortes abruptos nas seqüências, passando de uma persoangem para outra, como que denunciando a injustiça social e a dificuldade que as pessoas tem em realizar seus sonhos devido às barreiras do destino.

"Código Desconhecido" tem no elenco a bela e talentosa Juliette Binoche ("A Liberdade é Azul") no papel de Anne. É incrível como, mesmo sem maquiagem e em um papel sem muito destaque, ela faz qualquer filme valer a pena só pela sua presença.

Filme: Código Desconhecido ("Code Inconnu")
França, 2000
Direção e roteiro: Michael Haneke
Elenco: Juliette Binoche, Thierry Neuvic, Sepp Bierbichler, Ona Lu Yenke
Duração: 1h53
Produção: MK2 Diffusion

Andhye Iore