
Filme russo emociona até a alma
Com depoimento
de viúva de escritor japonês,
"Dolce" é uma bela declaração de
amor e saudade
Pouco se sabe
sobre o cinema russo, mas não é difícil sermos
surpreendidos por algum filme da ex-cortina de
ferro em festivais como a mostra. Apadrinhado
pelo diretor Andrej Tarkowski ("O
Sacrfício"), o diretor russo Alexander
Sokurov foi muito censurado pelo governo
russo.
Nascido em 1951,
em Irkutsk, se formou em história pela
universidade de Gorki e fez seu primeiro filme,
"A Voz Solitária do Homem", em 1978
sendo recusado pela escola de cinema onde
estudava. Somente a partir de 1986, com a ajuda
de Tarkovski, teve seus filmes exibidos na
Rússia. Hoje em dia é considerado um dos mais
importantes cineastas do país com mais de 30
filmes no currículo.
Seu novo filme,
exibido na 24º mostra, é "Dolce".
Todo narrado por Miho Shimao, viúva do
popular escritor japonês Toshio Shimao, que
apresenta a vida, o trabalho e a dor de não ter
mais o amado marido ao seu lado, morto em 1986.
Vivendo na ilha Kageroma somente com a filha
deficiente, Miho dá um depoimento emocionante,
segundo Sokurov "atuação conseguida
através de esforços de sua alma...".
E, é justamente a
alma que dói quando ela se lembra do marido, diz
quase chorando. Em movimentos lentos, closes nos
passos e nas mãos de Miho, o diretor fez o filme
desprovido de qualquer ação, sem movimentos
bruscos. Com um singelo som de chuva, do mar e do
vento ao fundo de suas palavras, a viúva diz que
devemos combater o desespero para que ele não
tome conta de nossa vida.
Com a imagem em
tom sépia e em horizontal na tela, como um
quadro nostálgico, os depoimentos de Miho são
alternados com fotos do álbum da família,
apresentando os alegres momentos ao lado falecido
marido, só para reforçar o nó na garganta do
público.
Ao mostrar tais
depoimentos de Miho, o diretor Sokurov quis, ao
mesmo tempo, revelar um sentimento delicado e uma
dor insuperável. Uma afeição doce, como em uma
ópera. Sobre a atuação de Miho Shimao como
atriz de seu novo filme, Alexander Sokurov disse:
"... ela fez algo impossível para um
ator profissional, já que não se pode ser
sujeito e obejto de uma obra de arte ao mesmo
tempo!"
O filme termina
com o silêncio de Miho, com o rosto em close na
tela numa expressão de saudade e dor, com pingos
cristalinos de chuva caindo frente ao seu rosto.
Belíssimo. Na saída, uma senhora, comentava:
"Nunca vi, no cinema, um rosto tão
expressivo!"
Filme: Dolce
("Dolce")
Rússia, 1999
Direção e roteiro: Alexandre Sokurov
Fotografia: Koshiro Otsu
Duração: 1h01
Produção: Bereg Productions
Andhye
Iore
|
|
|