MOSTRA
Aventura num festival de
cinema
Um panorama da 25º Mostra
Internacional de Cinema
Um festival de
cinema vai muito além que exibições de filmes.
Há uma infinita troca cultural. Os diretores
rodando pelas salas e conversando em idiomas
diferentes na sala de imprensa, debates
discutindo temas atuais e convívio com pessoas
de um nível cultural acima da média. O
embasamento adquirido num evento como esse é
maior que quatro anos estudando em qualquer
universidade.
A edição deste
ano da Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo traz vários filmes sobre conflitos no
mundo. Curiosamente, os filmes já estavam
selecionados antes dos atentados terroristas nos
Estados Unidos e da possibilidade de guerra no
Afeganistão.
QUESTIONAMENTOS
Além deste, os
temas tradicionais da Mostra tem bons
representantes. A descoberta de sentimentos em
crianças e adolescentes, a incerteza de futuro
para os jovens, a solidão e melancolia frente
aos novos caminhos da sociedade, biografias de
personalidades históricas, questionamentos
políticos e religiosos e produções para o
público jovem como animações e musicais.
Em muitos dos
filmes exibidos nesta primeira semana, há
constatação de que a vida não tem um final
feliz. Tanto os cineastas como suas obras
confirmam que a vida é um ciclo e que as pessoas
recebem aquilo que fazem às outras. Os
relacionamentos desfeitos nas complicadas
relações humanas e os caminhos posteriores
atraem mais público e são as pautas preferidas
pela imprensa especializada.
Em entrevista ao
maringa.com, o americano Roger Deutsch disse que
é besteira fazer filmes como comédias
românticas, pois os relacionamentos nunca são
tão felizes como mostrados nos filmes. Seu filme
"Irmã Sorriso" apresenta Janine que
foge de casa para um convento, foge do convento
para ter um relacionamento com uma ex-freira,
termina o relacionamento para voltar para casa do
pai que prefere dar atenção para uma jovem
amante, se droga, tenta suicídio e entra num
estado de redenção. Apesar de tantos problemas,
Janine está sempre buscando novos caminhos mas,
como o próprio Roger disse, o final não é nem
um pouco feliz.
RELAÇÕES
Em "A
Professora de Piano", de Michael Haneke, uma
mulher se relaciona doentiamente com um jovem
aluno depois de desfilar suas fantasia sexuais
que enrubescem o pretendente. "Meu Doce
Lar", de Filipos Tsitos, um americano
morando em Berlin hesita em casar ou voltar para
a casa dos pais na América. Em
"Redemoinho", do canadense Denis
Villeneuve, uma jovem e bela empresária vê sua
vida fútil e luxuosa vida desmoronando.
Também é comum
produções onde amigos dividem suas crises de
identidade. Em "Compras Noturnas", do
escocês Saul Metztein, quatro jovens se reúnem
num bar à noite depois de saírem de seus
sub-empregos. Em "Bleeder", do
dinamarquês Nicolas Refn, quatro amigos entram
em conflitos internos frente à falta de um
futuro melhor em meio ao submundo da cidade.
CONFLITOS
Os conflitos
étnicos e religiosos influenciam o comportamento
da sociedade. Para melhor ou pior. Nos
documentários "Que Vivam as Mulheres"
e "Promessas", o resultado e a
conseqüência, respectivamente, são mostradas
de maneira emocionante. Os filmes com estes temas
tem as sessões lotadas devido ao interesse das
pessoas estarem melhor informadas sobre os
problemas do mundo.
Em "Que Vivam
as Mulheres", dirigido pelo francês Laurent
Bécue-Renard, um grupo de viúvas da Bósnia
passa por uma terapia em grupo tentando superar a
perda dos maridos nos conflitos. Já em
"Promessas", sete crianças são
entrevistadas e acompanhadas em suas rotinas
mostradas como a promessa do fim do conflito em
Jerusalém. No longa alemão "O
Túnel", a construção do muro de Berlin é
motivo de determinação para pessoas resgatarem
parentes que estão do outro lado. Mas, o mais
comentado é "O Caminho Para Kandahar",
do iraniano Mohsen Makhmalbaf, que tem como palco
justamente o Afeganistão.
JUVENTUDE PERDIDA
Os jovens, além
de suas incertezas de futuro, tem momentos
descontraídos e criativos. A maior atração e
que tem sessões lotadas é "Hedwig, Rock,
Amor e Traição", do americano John Cameron
Mitchell. Adaptado de uma peça teatral, o filme
é a sofrida história de um transexual que tem
uma banda de glam rock e conta suas frustrações
nas letras das canções. "Hedwig" foi
um dos primeiros filmes da Mostra confirmados
para entrar em cartaz em circuito comercial no
Brasil.
Outro destaque é
a animação "Metropolis", com roteiro
do japonês Katsuhiro Otomo, o gênio criador de
"Akira". Outros dois belos filmes com
personagens adolescentes são "Doces
Sonhos" e "Disco Pig". O primeiro
é a inocência de um menino da Eslovênia que
sonha em ganhar uma vitrola. O segundo, é uma
fábula de sonhos e violência de um casal de
amigos que nasceu no mesmo dia e tem uma estranha
e doce ligação.
IMPORTÂNCIA
As biografias que
mais chamam a atenção do público são "Um
Amor de Borges", contando a história do
escritor argentino; "Dois Amores",
sobre Lord Alfred Douglas e seu relacionamento
com Oscar Wilde; "Dias de Nietzsche em
Turim", do brasileiro Julio Bressane sobre o
filósofo alemão e "Kurt Weill", sobre
o compositor alemão.
Com cerca de 300
filmes, entre longas, curtas, documentários e
animações, a Mostra Internacional de Cinema de
São Paulo é de uma importância cultural
indefinível. Mesmo com a concorrência do
festival carioca Rio Br que está em sua segunda
edição e é mais voltado para o glamour
aparente, o festival paulistano tem na
tradição, no espaço para produções
independentes em sintonia com as mais novas
tecnologias de comunicação e cineastas
inovadores os grandes motivos que sustentam o
sucesso de 25 edições.
Andhye
Iore / 2001
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