A FESTA NUNCA TERMINA
Musical diverte contando a
história cultural de Manchester
Andye Iore
Como
sempre, a Mostra reúne os modernos de plantão
em sessões disputadíssimas, que deixam muita
gente de fora. Esse ano, o filme que cumpriu esse
papel foi "A Festa Nunca Termina", do
britânico Michael Winterbottom (de
"Bem-vindo a Saravejo").
O
filme mostra o surgimento, a glória e a
decadência da cena musical de Manchester, na
Inglaterra, responsável por grandes nomes da
história da música pop mundial. Bem como pelo
surgimento da cultura rave.
Tudo
começou em 1976, quando um show dos iniciantes
Sex Pistols reuniu 42 pessoas. Nesse pequeno
público, estavam jovens que formariam muitas das
bandas mais importantes do punk e indie rock anos
mais tarde, como Joy Division e Buzzcocks, só
para citar duas.
"A
Festa Nunca Termina" foi feito com atores
fielmente caracterizados como os consagrados
músicos. Até os instrumentos originais foram
comprados pela produção do filme para que todo
o clima fosse resgatado.
Winterbottom
partiu da figura folclórica Tony Wilson, um
jornalista que encarava qualquer pauta e vivia
declamando frases famosas para justificar suas
atitudes. Wilson era uma das 42 pessoas na
platéia do Sex Pistols. Frente à energia
mágica, o jornalista teve a idéia de colocar
bandas tocando ao vivo em seu programa de tv, bem
como de produzir shows para estas bandas. Nascia
aí a Factory, uma cooperativa de rock.
TRÊS
DÉCADAS
O filme é repleto de humor
britânico, com muita sutileza e ironia. O
personagem de Tony Wilson narra os acontecimentos
históricos que vão da década de 70 ao final
dos anos 90. Como ele próprio anuncia, o filme
é sobre três pessoas que fizeram música na
cidade: Ian Curtis, vocalista do Joy Divison;
Shaw Ryder, vocalista do Happy Mondays e Martin
Hannet, o produtor e gênio maluco que deu vida
às bandas no estúdio.
É
claro que é pouco para uma cena tão rica. Mas,
não dá pra reclamar. Apesar de estar centrado
nos quatro personagens citados, o filme apresenta
rapidamente vários alguns até que não
são de Manchester - outros nomes como The Fall,
Stone Roses, New Order, Viny Reilly, Stranglers,
A Certain Ratio, The Jam, The Clash, Iggy Pop,
Siouxsie and the Banshees, The Smiths, etc.
Enquanto
a Inglaterra era sacudida por greves, crise do
petróleo e manifestações nazistas, o rock
alimentava lendas que iluminariam jovens no mundo
todo.
O
grande "achado" de "A Festa Nunca
Termina" é, sem dúvida, apresentar fatos
sobre o mito Ian Curtis, que nem os mais
ardorosos fãs sabiam. Para os brasileiros, essa
parte é importante porque revela de onde Renato
Russo copiou muitas de suas
"qualidades".
O
Joy Division é mostrado em ação no estúdio
gravando, fazendo shows memoráveis e, é claro,
convivendo fora do show business. Numa grande
sacada, Curtis é apresentado, na maior parte do
tempo, em preto & branco, numa espécie de
homenagem ao estilo de sua banda.
O
momento mais emocionante, é quando Wilson se
despede de Ian no caixão e toca
"Atmosphere". Um papel importante do
filme é, apesar das músicas do Joy Division
terem um clima "down" e do suicídio de
Ian Curtis, o vocalista é apresentado como uma
pessoa positiva, que passou e deu momentos aos
amigos.
DROGAS
Após os fatos do suicídio do músico, o filme
apresenta a origem da cena eletrônica com o
culto aos djs e "A Festa Nunca Termina"
ganha um colorido. O clube Hacienda era o templo
da juventude e Manchester o centro do Universo.
Na cidade, ser jovem era o paraíso.
Curiosamente,
a febre eletrônica não deu dinheiro a Wilson e
cia. Apesar do sucesso milionário do hit
"Blue Monday", do New Order, o Hacienda
se afundou em dívidas. Este é outro ponto
positivo do filme, pois mostra como agem os
traficantes.
O
Hacienda reunia milhares de pessoas que não
consumiam bebida e se "motivavam" com
drogas. Com isso, o clube não arrecadava e os
traficantes enriqueciam, chegando ao absurdo de
se tornarem seguranças oficiais do local. Num
paradoxo, o ecstasy faliu o Hacienda.
Mesmo
através da tela e de uma história fictícia, o
fim com o Hacienda sendo fechado deixa uma
sensação de perda, um vazio. Mas, antes de
qualquer tristeza nostálgica, "A Festa
Nunca Termina" é uma celebração que
encontra eco no mundo todo, pois é impossível
haver um lugar no mundo, cuja juventude não
tenha sido influenciada por algumas das bandas de
Manchester nas últimas três décadas.
Como
não poderia ser diferente, "A Festa Nunca
Termina" acaba com "Love Will Tears Us
Apart", o hino arrepiante do Joy Division.
SERVIÇO
"A Festa Nunca Termina" ("24
Hour Party Peopleo"
Inglaterra, 2002
Duração: 1h57
Gênero: musical/comédia
Direção: Michael Winterbottom
Andhye
Iore, 2002
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