26ª MOSTRA BR DE CINEMA - Mostra
Internacional de Cinema de São Paulo
CINEMA
Iraniano é premiado pela segunda
vez
Mostra chega ao fim
celebrando o humanismo do cinema
iraniano com "Exílio no Iraque", de
Bahman Ghobadi
Andye
Iore
A
26A. Mostra BR de Cinema chegou ao seu
final na última quinta-feira, depois de duas
semanas e cerca de 300 filmes apresentados. Em
uma solenidade informal, o organizador Leon
Cakoff e sua equipe apresentaram os filmes,
cineastas e atores premiados nesta edição.
O
evento, mais uma vez, privilegiou a diversidade
no cinema, apresentando produções que fogem dos
padrões comerciais, bem como filmes
independentes com grandes chances de atingirem um
bom público em todo o mundo.
ESTRELA
A
grande atração deste ano foi a presença do
cineasta russo Aleksander Sokurov e uma
retrospectiva sobre sua filmografia. O diretor
interrompeu as filmagens de sua nova produção,
"Pai e Filho", que está sendo rodado
em Portugal, só para vir ao Brasil. Como não
poderia ser diferente, Sokurov foi paparicado e
ovacionado por onde passou.
Pouco
acessível, o cineasta concedeu apenas uma
entrevista coletiva para a imprensa e participou
de um debate com o público após a exibição de
seu primeiro longa, "A Voz Solitária do
Homem", na quarta-feira (30). Muito
articulado, o cineasta revelou um grande amor
pela natureza e pela arte. O que também é
explicitado em seus filmes.
A
presença de Sokurov no Brasil é uma daquelas
oportunidades raras na vida, quando há a
possibilidade de ver e ouvir um gênio ainda
vivo. Não há dúvidas que sua filmografia será
admirada no futuro como é hoje a de Fellini ou
Kurosawa, por exemplo.
Ver
um filme de Sokurov é uma experiência
interessante. O cineasta sobrepõe imagens;
explora diferentes formatos na tela, fugindo do
convencional retangular; deixa a câmera imóvel
por alguns minutos num silêncio total e instiga
a espiritualidade usando o ar, o mar, a terra, a
chuva e árvores como personagens.
Isto
sem contar na proeza de fazer um filme em uma
seqüência única, sem cortes. Sua obra mais
recente, "Arca Russa", é um primor no
conceito de "fazer cinema de arte".
Como se não fosse suficiente o espetáculo de
imagens que "Arca Russa" proporciona,
Sokurov deu vida a um museu, fazendo dele o
personagem que recebe nomes históricos da
Rússia. Resta esperar que alguns filmes do
mestre russo sejam lançados em circuito
comercial e em vídeo no Brasil. O que,
felizmente, é muito provável de acontecer.
PREMIADOS
A
sessão de encerramento da 26A. Mostra
BR de Cinema aconteceu num clima de festa. Como
se não bastassem todos os ilustres convidados
estrangeiros presentes, compareceram e
participaram da cerimônia Hector Babenco
que terminou recentemente o filme
"Carandiru" e a cineasta
Daniella Thomas.
Entre
as dez produções que concorriam a melhor filme
pelo júri, estavam três brasileiros. Mas
somente "Madame Satã" ganhou um
prêmio especial dado ao ator Lázaro Ramos, por
sua intensa atuação.
Porém,
em outras categorias, o cinema brasileiro se
destacou. "Ônibus 174", de José
Padilha, venceu como melhor documentário eleito
pelo júri; o público escolheu como melhor longa
brasileiro "Cama de Gato", de Alexandre
Stockler e "Edifício Master", de
Eduardo Coutinho, também foi premiado pelo
público como melhor documentário.
Também
recebeu um prêmio especial o cineasta russo
Aleksander Sokurov, pelo conjunto de sua obra.
HUMANISMO
O
melhor filme da 26A. Mostra foi o
iraniano "Exílio no Iraque", de Bahman
Ghobadi. O cineasta também foi premiado há dois
anos atrás, quando "Tempo de Embebedar
Cavalos" foi eleito o melhor filme da 24A.
Mostra.
Ghobadi
esteve presente durante a primeira semana do
evento e retornou para o Irã. Ao saber que havia
sido premiado novamente no Brasil, enviou um
e-mail que foi lido na cerimônia -
demonstrando sua gratidão ao festival e ao
público brasileiro.
O
filme iraniano é uma demonstração extrema de
humanismo. Um idoso e seus dois filhos músicos,
seguem numa missão de encontrar uma mulher que
partiu deixando o pai com o coração partido.
No
caminho, o trio passa por provações e diverte
com sua música as pessoas por onde passam.
"Exílio no Iraque" não é tão
dramático quanto "Tempo de Embebedar
Cavalos", mas apresenta algumas situações
semelhantes de determinação, de opressão ao
povo curdo e de conflitos na fronteira do Irã em
meio à neve.
DIVERSIDADE
Nunca
como na edição deste ano, a Mostra apresentou
filmes tão diferentes. Mesmo com o discurso já
tradicional de valorização da diversidade no
cinema, a 26A. Mostra foi além.
Desde
um filme feito todo dentro de um carro, passando
por outro contado em quadros de trás para frente
até um em seqüência única, a Mostra fez com
que o público pudesse ter contato e refletir
sobre os novos caminhos do cinema mundial.
Além
dos documentários, curtas, biografias,
animações, produções comerciais e
independentes, a Mostra também aposta no novo,
na criatividade.
Entre
os filmes que mais instigaram o público este ano
estão o russo "Arca Russa", de
Aleksander Sokurov; o francês
"Irreversível", de Gaspar Noé e o
iraniano "Dez", de Abbas Kiarostami.
GÊNIOS
"Arca
Russa" é um marco na história do cinema.
Pela primeira vez, um filme inteiro foi rodado
numa seqüência só, sem edição. O mestre
Sokurov provou que é possível fazer um bom
filme fugindo dos padrões convencionais.
Contrastando
com a beleza de "Arca Russa", o filme
"Irreversível" abusa da violência. A
história é contada do fim para o começo em
vários quadros. Na passagem de um quadro para
outro, a câmera passeia nervosamente pelo
cenário e, ao chegar a um ponto neutro, dá-se o
início de outro quadro.
A
história apresenta dois amigos que partem em
busca de vingança no submundo de uma grande
cidade francesa, após a namorada de um deles ter
sido estuprada. Só esta cena de estupro dura
mais de 10 minutos e faz com que mulheres
presentes na sala desviem o olhar da tela.
Já
outro mestre, o iraniano e figurinha carimbada na
Mostra, Abbas Kiarostami reforçou seu
encantamento pelo cinema digital. Depois de
"ABC África", no ano passado,
Kiarostami usou o recurso novamente para mostrar
a história de uma taxista.
Com
duas câmeras instaladas dentro do carro, uma
focando a motorista e outra os passageiros que
viajam, "Dez" mostra uma senhora
religiosa que vive em peregrinação, uma mulher
abandonada pelo noivo, o filho rebelde da
motorista do táxi e até uma prostituta que
divagam sobre suas vidas.
Cobrindo
a mostra pela terceira vez consecutiva, o site
SUPERS assistiu a mais de 70 filmes e realizou
várias entrevistas com cineastas presentes no
festival. Inclusive uma com o premiado iraniano
Bahman Ghobadi.
A
partir desta semana, o material produzido no
festival já pode ser conferido no site cultural
maringaense. Confira todos os premiados deste ano
na 26A. Mostra BR de Cinema:
PÚBLICO
Melhor ficção:
"Kedma", Israel, 2002, de Amos Gitaï,
1h40;
Melhor documentário
internacional: "Jogando Boliche Por
Columbine", EUA, 2002, de Michael Moore,
2h03;
Melhor documentário brasileiro: "Edifício
Máster", Brasil, 2001, de Eduardo Coutinho,
1h50;
Melhor longa internacional: "O
Filho da Noiva", Espanha/Argentina, 2001, de
Juan José Campanella, 2h03;
Melhor longa brasileiro: "Cama
de Gato", Brasil, 2002, de Alexandre
Stockler, 1h32;
Melhor curta:
"Esperando o Próximo", França, 2002,
de Philippe Orreindy, 4m;
Melhor documentário:
"Ônibus 174", Brasil, 2002, de
José Padilha, 2h13;
Melhor filme: "Exílio
no Iraque", Irã, 2001, de Bahman
Ghobadi, 1h37;
Melhor ator: Lázaro
Ramos, de "Madame Satã",
Brasil, 2002, de Karim Ainouz, 1h45;
Prêmio surpresa:
à equipe da Mostra pela dedicação e
organização. |

Melhor filme - Exílio no Iraque
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MENÇÃO HONROSA
Conjunto da obra:
Aleksander Sokurov
Andhye
Iore, 2002
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