OPINIÃO
O abril despedaçou-se
Por Carolina Teodoro, estudante
de Letras
| É uma
pena que um filme tão bom fique em
cartaz por tão pouco tempo. Na verdade,
o filme permaneceu em cartaz nas telas de
Maringá durante quinze dias, mas como as
pessoas, a maior parte delas pelo menos,
ainda têm, por incrível que pareça,
preconceitos contra o cinema nacional, a
propaganda de alcance deixa de ser a do
jornal e passa a ser a que é feita de
amigo para amigo. |

O menino "Menino"
em Abril Despedaçado
|
E isso leva mais
do que duas semanas para acontecer com sucesso.
Só estou mencionando este fato porque os filmes
internacionais, a maior parte norte-americanos,
passam por, até vários, meses consecutivos. Mas
é melhor começar logo com o filme em si.
Há metáforas
brilhantes no longa-metragem de Walter Sales. O
diretor faz com que haja vida no sertão
nordestino que, no início do século XX, já era
tão seco como nós o conhecemos hoje. Muito
seco, mas nem tudo, e essa é a maravilha que nos
é apresentada neste filme. A estória muito
resumida é a seguinte: a guerra entre duas
famílias, Breves e Ferreiros, por terra,
conseqüentemente o poder, que vem se
desenrolando há muito tempo. Esta tradição
familiar é quebrada justamente no mês de abril,
daí o nome (pelo menos, uma leitura possível de
ser feita).
A narrativa da
estória não é linear, ela é contada a partir
do presente e, com um flash-back, volta ao
passado, para explicar aos espectadores o que
está acontecendo. Quem nos conta sobre a saga da
família é o menino mais novo, Pacu ou Menino.
Até nisso é possível de se fazer uma
intertextualidade com Graciliano Ramos, o seu
livro "Vidas Secas" apresenta os filhos
do personagem central, Fabiano, sem nomes, são
chamados de menino mais novo e menino mais velho.
No filme de Sales, o menino é chamado de Menino.
A impressão que temos, ao assistir ao filme, é
de que ele é apenas mais um filho. Já que a
família tem tantos fantasmas por enterrar ainda,
para que ficar inventando nomes?
Outro ponto bonito
e instigante é a metáfora que é feita com os
bois puxadores, importante lembrar que num
passado, não muito remoto, os negros ocupavam
seus lugares. Pacu faz uma colocação
interessante a Tonho, seu irmão mais velho,
vivido por Rodrigo Santoro (mais um apêndice: o
ator é ex-sonho de consumo de adolescentes que,
depois do filme "Bicho de 7 cabeças",
livrou-se dos estigmas referentes à sua beleza),
que a família deles funciona como a dos bois,
que andam, andam e não saem do lugar. Ele fala
disso porque quer ir ao circo, que acaba de
chegar à cidade, sentindo-se impossibilitado
diante da figura repressora do pai (José
Dumont).
Enfim, mais
adiante, os bois aparecem andando sozinhos em
círculos e Pacu questiona-se e, ao mesmo tempo,
a seu irmão, "olha Tonho, os bois estão
girando sozinhos" (sem que alguém
precisasse açoitá-los). Nesta hora, o brilho no
olhar de Tonho é esclarecedor, ele entende sim o
que o seu irmão mais novo quer dizer com sua
sábia observação: seremos como eles logo mais,
ficaremos andando em círculos a vida toda.
Esta constatação
leva Tonho ao circo com o irmão e faz com que
ele conheça Clara, a andarilha, que viaja com o
padrinho, Salustiano. Pacu, em sua paixão
infantil, já tinha sido conquistado pela moça,
mas o brilho no olhar de Tonho, quando a vê,
pela primeira vez, é fulminante. Faz com que ele
queira viver novamente. Pois nesta parte, ele já
tinha atirado no assassino de seu irmão mais
velho, dando continuidade à tradição familiar,
e estava jurado de morte pelo membro da família
lesada da vez, os Ferreiros.
Obviamente, Tonho
apaixona-se por Clara e, também, por sua vida e
vai em busca de sua felicidade. Viaja com eles
até a cidade mais próxima. Aqui, novamente,
teremos uma quebra da estrutura narrativa. Clara
também fica apaixonada por Tonho, o que fará
com que ela consiga se livrar das amarras que a
prendem a Salustiano. Quando Tonho volta para
casa, querendo dar continuidade à tradição
familiar, afinal de contas ele estava jurado de
morte, não podia fazer com que a família
perdesse a honra, uma vez que já não tinham
nada mais. A decepção dele, por Clara ter
escolhido Salustiano, a "estabilidade",
ao invés dele, também ajudam na sua decisão
(de voltar para casa, ou não).
A volta de Tonho
surpreende Pacu, ele esperava que o irmão
acabasse de vez com a sina da vingança. Acontece
a cena mais bem feita e perfeita de todas, Tonho
já está livre do peso que carregava em seus
ombros, Pacu insiste que ele fique no balanço
para ser empurrado e Tonho, de início receoso,
atende ao pedido do irmão. Ali, no balanço, ele
se lembra de Clara e seu corpo se enche de uma
alegria contagiante, ele está livre voando e a
câmera acompanha o movimento, filmando seu rosto
e sua expressão de amor pela vida e Clara, é
claro.
Clara vai atrás
de Tonho, para que ele faça o mesmo, uma vez que
ele a ajudou, agora é sua obrigação ajudá-lo.
Acontece a cena de amor entre Clara e Tonho e,
durante a cena, chove como nunca. Mais uma prova
de que as tradições e estigmas estão se
rompendo. A cena é linda e mágica, a chuva é
linda. Acontece aí a revelação para Pacu. Ele
está feliz, pois Tonho está feliz, admira a
chuva, que talvez nunca tivesse visto na vida. E
nesta hora, está decidido a entregar sua vida
pela de seu irmão. Não existe metáfora mais
bela do que amar alguém a tal ponto de morrer em
seu lugar.
O livro que Pacu
ganha de Clara, quando eles se conhecem, também
é um ponto muito forte. Ele diz que não sabe
ler, mas sabe "ler as figuras". O
menino passa a criar todas as estórias
possíveis e imagináveis para os desenhos que
vê e encontra, no livro, sua felicidade. Mais
uma metáfora: o mar para Pacu é onde ninguém
morre. O mar é como se fosse o paraíso, já que
está tão fora de seu alcance.
Já
assisitiu a esse filme? Quer dar sua opinião?
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