ESPECIAL
Em entrevista exclusiva, NIlofar
Pazira
revela fatos que a mídia não mostra
Andhye
Iore - As mulheres tem
muitos problemas no Afeganistão.
Qual é a importância do cinema em
mostrar estas situações para
o mundo e ajudar a formar uma sociedade
melhor para estas mulheres?Nilofar Pazira
- As imagens são muito importantes
porque elas dão uma idéia de quem você
é e também te dá uma idéia do que o
mundo pensa de você. Se você não tem
cinema, não tem televisão, não tem
fotografias esta possibilidade é
totalmente tirada de você.
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Apesar de ter
recebido autorização para permanecer
apenas 24 horas no Brasil, Pazira foi
atenciosa com o SUPERS
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O que acontece é
que você acaba perdendo o ideal de você mesmo.
Por isso, o cinema é muito importante permite
que o mundo conheça a cultura de uma sociedade,
como também permite que a sociedade veja a si
mesma. Por exemplo, no Irã as pessoas fazem
filmes para mostrar os problemas da sociedade
iraniana à sociedade iraniana. E, através
disso, as pessoas podem ver e fixar estas coisas.
Mas, em um país como o Afeganistão que tinha
apenas 14 cinemas e agora não há nenhum, é
muito difícil para as pessoas verem sua própria
imagem na sociedade. Por isso, você tem pequenas
possibilidades de solucionar alguns problemas
sociais. Por isso, o cinema é essencial. É como
um espelho onde você põe na frente das pessoas
para verem as falhas. Mas, se você não tem essa
possibilidade, como pode consertar as coisas
erradas?
Vocês filmaram "Caminho
Para Kandahar" antes
dos atos de terrorismo nos Estados Unidos. O que
você acha das pessoas que vão assistir ao filme
só porque está acontecendo uma guerra agora e
não pela importância social e cultural do
filme?
Não acho que as
pessoas vão ver o filme só porque ouviram sobre
o Afeganistão agora. As pessoas tem razões
diferentes para irem ao cinema. Não acho que
vendo o filme, as pessoas pensarão sobre a
guerra e não pensarão sobre os aspectos sociais
e culturais. Você não pode esperar que todos
tenham o mesmo motivo para ver o filme. Isto não
é o mais importante. O mais importante é que as
pessoas vão ver o filme e aprendam algo. Algo
que não é mostrado pela mídia sobre a vida dos
afegãos, sobre o que é esta guerra.
Eu perguntei isto porque ouvi
várias pessoas nas filas
dizendo que iriam assistir "Caminho Para
Kandahar" porque
imaginavam que veriam a guerra ou, até mesmo o
Bin Laden...
É, é engraçado.
Mas, o ponto é que as pessoas vão ver o filme.
Os filmes iranianos tem um bom
público no Brasil.
Porque você acha que isto acontece, uma vez que
há
uma grande diferença entre a cultura brasileira
e a iraniana?
O cinema iraniano
fez muito bem porque eles escolheram uma
alternativa. Se eles criassem uma outra
Hollywood, com uma grande indústria de
produção de filmes com tudo superficial e
comercial, eles poderiam estar bem no mundo dos
negócios, mas não estariam bem com as pessoas
em muitos lugares do mundo. Eles provaram uma
alternativa em relação às instituições como
Hollywood e, devido ao seu estilo e dessa
diferença é que as pessoas gostam de seus
filmes. Se fosse o estilo de filmes como de
Hollywood, as pessoas iriam assistir aos filmes
de Hollywwod e não aos iranianos que estariam
copiando.
Você recebeu uma carta de uma
amiga e agora está no Brasil.
Qual o seu conceito de tudo isso que aconteceu na
sua vida?
Não sei... às
vezes, algumas coisas inesperadas acontecem na
vida. Recebi uma carta de uma amiga e tentei
ajudá-la. Nunca me passou pela cabeça que
estaria aqui sentada e falando sobre o filme com
você. Nunca imaginaria isso. Eu penso
"Então é isso! Depois, eu volto à minha
vida normal." Mas, é incrível como as
coisas mudam na vida. O que tem mais relevância
é que recebi a carta de uma mulher que iria se
suicidar. Algo comum, como as dez milhões de
mulheres que sofrem no Afeganistão. E estou aqui
sentada e falando sobre este problema. Sei que
muitas destas mulheres gostariam de dizer algo,
mas não tem meios. E, se tivessem acesso, não
saberiam como se expressar. Por isso, acho que
há uma estreita ligação entre o que estou
fazendo agora e aquela carta. Eu estar tentando
falar por um grupo de pessoas que sempre foi
privado. Muito mais agora que antes.
Durante as filmagens você chegou
a se emocionar em algum momento?
Foi muito difícil
emocionalmente fazer este filme porque eu tinha
que estar constantemente pensando em algo que
não queria pensar. Quando você tem que fazer
algo em sua vida e falha, é uma lembrança ruim.
Especialmente se envolve uma história triste e
um amigo próximo. Eu tentei não pensar nisso,
mas pelo filme eu tinha que pensar nisto
constantemente para converter em emoções nas
cenas. Não era simplesmente sentar e dizer
"Ok, agora estou em frente à câmera".
Não é tão simples assim.
Antes de "Caminho Para
Kandahar" você teve algum experiência em
cinema?
O meu interesse em
cinema era fazer documentários, o que ainda
faço e adoraria continuar. Cresci assistindo
filmes russos na televisão afegã durante o
regime comunista. Como a maioria das pessoas no
mundo, eu gosto de filmes também. Mas, nunca
quis atuar num. Dois anos antes, conheci um
diretor francês em Paris que tinha um roteiro e
queria fazer um filme com um cineasta afegão
sobre uma mulher que se casa, vai viver na
França e como sua vida muda. Ele me perguntou se
eu queria viver esta mulher e disse não. Nunca
me vi como uma atriz. E, até hoje em dia, falo
com as pessoas como jornalista. Em "Caminho
Para Kandahar", apesar de ser minha
personagem e minha história, se Makhmalbaf
tivesse escrito outro roteiro eu diria que
trabalharia neste filme porque é a minha
história e o jeito que vejo o acontecido. Eu sou
a jornalista no filme fazendo o seu trabalho. E o
meu trabalho e minha responsabilidade como
jornalista é levar informação às pessoas,
educar as pessoas ou mostrar a realidade sobre a
vida de outras pessoas. E estou aqui fazendo
exatamente o mesmo na forma de filme, com minha
própria história. No jornalismo para mim, as
pessoas são a coisa mais importante, suas
histórias são importantes. Isto é que é
jornalismo para mim. E é isso que quero fazer.
Fazer documentários sobre as pessoas e suas
histórias. Gosto de cinema e aprecio o fato de
que muito trabalho árduo é feito, mas prefiro
estar do outro lado da câmera.
Mas, você não acha que daqui
pra frente você poderá
receber bons convites para atuar em outros
filmes?
Não faz muita
diferença. O mais importante é o que eu quero
fazer. Infelizmente, pode ser um pouco egoísta.
Mas, é o que penso. Foi uma grande experiência
e aprendi muito trabalhando com Makhmalbaf. Para
mim, não é criar uma carreira cinematográfica.
Eu não mudei a minha carreira, não foi pelo
dinheiro. A vida não é assim. Nem o jornalismo
para mim é ganhar dinheiro, é educação. Fui
estudar jornalismo depois da experiência da
guerra no Afeganistão e cheguei à conclusão
que a ignorância e o abuso de poder que leva o
mundo às crises. Eu concordei em lutar contra a
ignorância e o abuso de poder. Acho que o
jornalismo e fazer documentários são os
melhores caminhos para fazer isso. Tenho a
intenção de fazer isto, mas sem o propósito de
ficar famosa, de ter uma vida glamurosa ou de
ganhar mais dinheiro.
Trabalhar com Mohsen Makmalbaf
torna as coisas
mais fáceis uma vez que ele faz arte no cinema?
Não é mais
fácil. Mas, Makmalbaf é um grande professor.
Não é só um grande diretor, artista ou uma boa
pessoa. Ele ensina todos à sua volta o tempo
todo. Eu aprendi muito mais com ele que aprendi
estudando.
Qual a sua opinião sobre a
internet como instrumento para o cinema?
Não acho que os
cineastas sobreviveram usando a internet. Como
você disse, a internet é um instrumento. É uma
ferramenta de acesso à informação. Acho que
há aspectos positivos e negativos. O lado
positivo é que as pessoas completamente
desconectadas com o mundo no passado, agora tem
acesso à informação e com outras pessoas.
Outra coisa também é que se você quiser uma
alternativa à informação, você entra na
internet. O negativo é que há pessoas que usam
a internet com propósitos ilegais. No cinema,
acho que será um instrumento de informação e
não de sobrevivência no meio.
Tivemos vários filmes iranianos
usando crianças com histórias de um contexto de
relações humana. Agora, há vários filmes com
um contexto social e político. O que motivou
esta mudança de temas?
Não tenho certeza
se foi uma mudança de temas. O Irã produz cerca
de 70 filmes ao ano. Cinco ou seis desses filmes
são artísticos. O resto é comercial. Às
vezes, pode ser o fato de que um dois diretores
mais conhecidos façam filmes com crianças e
todos farão o mesmo. Não é surpreendente. Não
é apenas pelo problema das crianças...
...alguns críticos dizem que é
porque é mais fácil emocionar as pessoas...
Não sei se eles
sensacionalizam. Às vezes, os diretores mostram
a consciência da sociedade e alertam para a
realidade da sociedade. Assim, eles tentam trazer
à tona o assunto para que a sociedade veja. Foi
como eu disse sobre um espelho para as pessoas
olharem. Os artistas são como o nervo da
sociedade.
Pra você, qual será o futuro do
cinema comercial, uma vez que a cada ano as
produções estão cada vez mais milionárias?
Acho que isso
sempre continuará. Seria fantástico se outros
países do mundo pudessem ser igual ao Irã e ter
uma produção alternativa de cinema. Mas, não
é só no cinema. Tudo está ficando cada vez
mais caro com o consumismo, com a cultura global.
Eu penso que quanto mais uma geração assiste a
filmes comerciais, mais vazio ela se sente. E há
mais chances dessa geração querer alternativas.
Mas, para uma geração chegar a este ponto,
demora um pouco.
De alguma maneira, isto pode ser
bom para o cinema independente?
Bom, acho que o
cinema independente tem uma dura sobrevivência
devido à globalização e o acesso ao material.
Mas, ao mesmo tempo há o desejo e a necessidade
de um cinema alternativo. E, por isso ele
sobrevive. Talvez, se torne mais caro para
produzir, mas continua existindo.
Qual deveria ser o posicionamento
da mídia em relação ao que está acontecendo
no Afeganistão?
A mídia depende
de lugar para lugar. Em alguns lugares, a mídia
é mais vibrante. Acho que na Europa as pessoas
tem mais acesso a diferentes tipos de
informação. A mídia, por natureza, é
superficial porque tem que ser imediata. Tudo tem
que estar conforme a mudança do relógio. Logo,
você não consegue ir fundo nas coisas, não
consegue explorar porque tudo tem que ter apenas
alguns segundos. E, não é porque os produtores
não querem. Há alguns produtores que gostariam
que as coisas fossem diferentes, mas o jeito que
a mídia trabalha não significa que se uma
pessoa ou uma estação faça algo diferente,
todos os outros vão seguir. De outro lado, há o
controle da informação. Penso que a CNN é a
maior máquina de controle de informação. Muito
do que sai de lá é propaganda. Você põe uma
única câmera para olhar o mundo todo. Não é
assim que funciona. Você tem ver as coisas por
perspectivas diferentes. Quando você tem um
controle de informação como este, é
impossível não ter problemas com a mídia. É
um tipo errado de informação que as pessoas
recebem. E é aí que os filmes são importantes,
porque exploram coisas importantes por trás
disso e te dão pontos de vista diferentes. Acho
que a mídia sempre foca no sensacionalismo,
especialmente a televisão. É muito
interessante, se você olhar atentamente vê dois
mundos. Um mundo, que é a realidade, que é
complexo e é onde vivemos. E há outro mundo
criado pela mídia. Neste mundo, a mídia escolhe
o tempo e o que irá mostrar. Hoje é o
Afeganistão, ontem foi Kosovo, amanhã será
outro lugar. Eles tem a escolha de mostrar um
mundo para nós e, depois, tirá-lo. O sentimento
que eles passam às pessoas é falso. Amanhã,
eles param de falar no Afeganistão e o problema
está resolvido. O que não é o caso. Nós
paramos de falar na Bósnia e o problema não foi
resolvido. Paramos de falar da Somália e o
problema não foi resolvido lá. E é aí que
acho que os filmes são importantes porque eles
nos mostram e você tem a opção, não é uma
coisa imediata, pode voltar depois. Em dez anos,
as pessoas poderão assistir "Caminho Para
Kandahar" e entender um pouco daquela
cultura e da sociedade. Com a mídia, hoje é a
imagem imediata e a amanhã é algo totalmente
diferente. Não ficaria surpresa se em algumas
semanas o Afeganistão fosse totalmente esquecido
e as pessoas não ouvissem mais sobre o país.
Entrevista
e fotos: Andhye Iore, 2001
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