ESPECIAL
Filme "Caminho Para
Kandahar" leva à reflexão
| "Caminho
Para Kandahar" foi filmado entre
novembro de 2000 a fevereiro de 2001. O
filme tem origem numa carta que Pazira
recebeu em 1998 de uma amiga de infância
dizendo que iria se suicidar por não
agüentar mais a opressão do Taleban
contra as mulheres no Afeganistão. Decidida a livrar a
amiga do sofrimento, a jornalista partiu
para Kabul, mas não passou da fronteira
porque corria risco de vida. Logo em
seguida, Nilofar conheceu o cineasta
iraniano Mohsen Makhmalbaf e contou sua
história.
Disposta a
voltar de qualquer jeito para salvar a
amiga que não tinha mais razão de
viver, Pazira sugeriu que Makhmalbaf
fosse junto para fazer um documentário.
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"Caminho
Para Kandahar" tem cenas
impressionantes que servem como denúncia
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PARCERIA
O diretor aceitou,
mas desde que ela aceitasse fazer o papel
principal no filme. "O meu trabalho e minha
responsabilidade como jornalista é levar
informação às pessoas, educar as pessoas ou
mostrar a realidade sobre a vida de outras
pessoas. E estou aqui fazendo exatamente o mesmo
na forma de filme, com minha própria
história.", justificou sua participação
na produção.
Durante as
filmagens, Pazira foi bem recebida pelas mulheres
afegãs que contaram histórias particulares.
Porém, os homens a questionaram perguntando se
ela não tinha marido e filhos para cuidar.
"O mais importante é que as pessoas vão
ver o filme e aprendam algo. Algo que não é
mostrado pela mídia sobre a vida dos afegãos,
sobre o que é esta guerra.", declarou sobre
o interesse do público no filme devido à
guerra.
Durante uma viagem
ao Afeganistão, Mohsen Makhmalbaf viu
helicópteros da ONU Organização das
Nações Unidas - jogando caixas com comidas.
Imediatamente, o cineasta iraniano imaginou que
se ele fosse um afegão que perdeu as pernas nas
minas e andasse de muletas, iria querer comida ou
outras pernas? E é justamente essa a cena mais
impressionante de "Caminho Para
Kandahar".
SIMBOLISMOS
E, toda esta
discussão refletiu no interesse do público em
todas as sessões do filme "Caminho Para
Kandahar", na 25º Mostra. Todos os clichês
mostrados pela mídia também são mostrados por
Mohsen Makhmalbaf na tela. Homens casados com
várias mulheres cobertas dos pés à cabeça
pela burca, meninos estudando o Al Corão e as
autoridades destruindo obras artísticas em
público.
Mas, o cineasta
iraniano também dá um show de simbolismo e
denúncia. Numa bela paisagem desértica nas
montanhas do Afeganistão, Nafas (a personagem de
Nilofar Pazira) narra o filme como se estivesse
conversando com sua irmã. A mudança de amiga
para irmã justifica-se para que o público
ficasse mais sensibilizado com uma relação mais
próxima entre as personagens.
Além da já
citada cena das pernas caindo do céu, outra
seqüência que choca pela sua violência social
é uma consulta médica. Em uma sala dividida ao
meio por um pano, de um lado está um médico, do
outro a paciente e, na porta, um menino. O
médico consulta a mulher através de um buraco
no pano. As orientações para a mulher são
dadas pelo médico ao menino e desse para a
mulher. Como se não bastasse a mulher ter que
colocar o ouvido ou a boca aberta no buraco do
tecido, ela ouve o comando do médico, mas só
pode fazer o que foi pedido após o menino
repetir para ela.
REFLEXÃO
Graças a essas
imagens impressionantes, o filme força um
silêncio de angústia no público. Mas não um
silêncio comum nas salas para assistir ao filme.
E sim, um silêncio de perplexidade frente à
tantas atitudes inumanas.
Makhmalbaf encerra
seu filme como um gênio cinematográfico. Depois
de tanto lutar contra a repressão à mulher no
Afeganistão, Nafas precisa se esconder sob uma
burca para ficar viva. Assim, ela que tentou
libertar sua irmã, fica prisioneira do maior
símbolo de repressão à mulher. E será assim
ao final da guerra. Os afegãos que tanto lutaram
para se livrar do Taleban, ficarão à mercê de
sua liberdade sem estrutura social de
sobrevivência. E o mundo voltará a ignorar onde
é o Afeganistão.
Andhye
Iore
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