ALTA FIDELIDADE

Filme mostra crise pop dos 30

Compre o livro, veja o filme, assista a peça e ouça o disco

Baseado no livro "High Fidelity", do britânico Nick Hornby, o filme "Alta Fidelidade" teve sua data de estréia adiada duas vezes no Brasil. Devido a um acordo entre as distribuidoras, o filme foi adiada para ser exibido como uma das principais atrações na 24º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com três sessões lotadíssimas, deixando muitas pessoas do lado de fora. O filme dirigido por Stephen Frears ("Os Imorais"), é motivo de muita celebração por onde é exibido e é um dos mais simpáticos lançados neste ano, sendo quase impossível não gostar.

Rob Gordon (John Cusak, de "Quero Ser John Malkovich") é dono de uma loja de discos de vinil que vive no vermelho, mas ele não se preocupa muito. Só quer curtir suas bandas preferidas, discutir música com seus dois empregados, viver um dia de cada vez sem muitas preocupações e nem pensa em assumir um compromisso mais sério com sua bela namorada, a advogada Laura (Iben Hjejle, de "Mifune"), com quem "mora junto há algum tempo".

Mas, um dia, cansada da falta de perspectiva e de ter que dividir a atenção de Rob com a coleção de discos dele, Laura vai embora. Isto é suficiente para que Rob faça um check up de sua vida e tente descobrir o porque não tem sucesso nos relacionamentos, apesar de ser gentil, romântico e culto.

TOP FIVE

A partir daí, acontece um desfile de listas top 5 na vida de Rob Gordon: as cinco músicas mais românticas, os cinco melhores singles, as cinco músicas perfeitas para um funeral, os cinco melhores empregos, entre tantas outras listas o que move a história secundariamente é a lista dos cinco relacionamentos frustrados na vida de Rob. Ou seja, os cinco maiores foras que ele levou na vida. E isto o leva a lembranças nostálgicas e engraçadas da adolescência e a reencontar algumas dessas ex-namoradas.

O filme é narrado por Gordon e passado na maior parte dentro da loja em situações engraçadíssimas. Os funcionários vivem brigando. Dick é um magrelo nerd (tipo um Michael Stipe, do REM, em câmera (bem) lenta) que adora bandas alternativas melódicas. Barry é um gorducho rebelde e fã de hard rock. Entre listas de melhores e piores, os dois procuram "educar" os clientes conforme seus gostos musicais.

Quando um homem entra na loja procurando por um disco antigo de Stevie Wonder para dar para a filha e que eles tem na loja, Barry não só diz que não tem o disco, como ainda dá uma bronca no homem por ele não estar preocupado com o fato da filha dele estar ouvindo "porcaria" e desfila uma lista de sugestões para o homem. Em uma manhã, Rob abre a loja e Dick põe uma fita com "Seymour Stein", do Belle & Sebastian, para tocar enquanto Dick apresenta a "nova música do Belle & Sebastian" que o emociona muito. Em seguida, Barry chega e pergunta o por quê do clima de velório, pega a fita e joga fora e coloca um "sonsão da pesada" para animar o ambiente, deixando Dick sem reação.

COLECIONADOR

Para os amantes de música (digo colecionadores de discos e não quem ouve música de rádio), o filme é genial. Depois do fora que leva de Laura, Rob coloca toda sua coleção de discos de vinil no chão de sua casa e passa a organizá-la em ordem de acontecimentos em sua vida e não por estilo ou ordem alfabética.

Na loja, Championship Vinyl, a atenção se perde do filme ao tentar descobrir as capas de discos nas prateleiras. Apesar das referências serem em cima de clássicos da cena indie britânica, com discos de Smiths, Echo and the Bunnymen, Spacemen 3, Jesus and Mary Chain e Bauhaus, aparece até um disco do Mutantes.

FETICHE

Apesar de boa praça, Rob é egocêntrico, convencido e não é fiel. Por volta de seus 36 anos, sua relação com os discos, que é apresentada como um fetiche, parece render mais felicidade que a com as mulheres. Mas nem por isso, desiste delas.

Quando parece que tudo se ajeita em sua vida, uma jovem jornalista entra na loja quando está tocando "La Boob Oscilator" e pergunta: "Isto é Stereolab? É tão bom assim e eu ainda não tenho este disco!?!" É o suficiente para Rob gravar uma fita com canções para impressionar a moça (essa foi a maneira como ele iniciou o romance com Laura).

Perdido em ciúmes por Laura estar tendo um relacionamento com um bobão mais velho e de estilo hippie/zen/yuppie (!), Rob tenta de todas as maneiras trazê-la de volta sem se importar em fazer papel de bobo humilhado por mais uma separação.

CRISE

Em plena crise dos 30 anos, onde os homens analisam os prós e contras de sua vida, Rob Gordon só quer Laura de volta, desde que consiga isso sem ter que abandonar seus discos. Pode-se dizer que ele insiste em recusar a maioridade. Conversa em pé de igualdade com seus empregados adolescentes (sem clima de empregado e patrão), vai a um bar com freqüência da "moçadinha" e é disc jockey de vez em quando.

No início do filme, se questiona filosoficamente se a música pop tem alguma influência em sua infelicidade. Além de fazer listas à toa (hábito tão comum nas publicações culturais e entre aficcionados por cultura alternativa), ele adora andar na chuva, como que lavando a alma das imperfeições sentimentais.

MULTIMÍDIA

Apesar da troca de ambientação (no livro, a loja fica em Londres e, no filme é em Chicago), há só um deslize por esta mudança de país. Rob tem um devaneio momentâneo conversando com Bruce Springsteen (argh!).

No Brasil, além do livro e do filme, pode-se assistir à uma peça montada pelo grupo curitibano Sutil Companhia de Teatro, chamada "A Vida é Cheia de Som e Fúria". Depois do sucesso na capital paranaense, a peça tem sessões também lotadas em São Paulo e, os mais otimistas, declaram que a versão teatral é melhor e mais fiel ao livro que a cinematografica.

E, é claro, a trilha sonora também pode ser comprada em edição nacional. Com um desfile cronológico de pérolas pop, ouvir a trilha sonora de "Alta Fidelidade" é como ter uma aula sobre o que há de melhor na história da música. Desde clássicos sixties como Velvet Underground, Love e The 13th Floor Elevators, passando por Bob Dylan e Kinks, até os contemporâneos Stereolab, Smog e Royal Trux. Há uma ótima versão para "Let's Get it On", de Marvin Gaye, cantada pelo ator Jack Black, o Barry da loja, que encerra o filme num clima de festa.

IDENTIFICAÇÃO

Em mais uma parceria de sucesso, Frears e Cusak fizeram um filme que dá uma sensação de leveza no final e colocam o público como se estivesse em situações de sua própria vida. Afinal, quem nunca deu algum disco de presente com intenção de conquistar o presenteado, ou pior ainda, poder usufruir do disco dado? Ou nunca fez lista de melhores ou piores? Ou nunca parou pra pensar por que as coisas não dão certo, já que você é uma pessoa legal? Ou nunca ofendeu (em pensamento) alguém que tem um gosto diferente do seu?

Numa das cenas mais divertidas, Rob está frente à frente com o novo namorado de Laura. Várias cenas de Rob acabando com o rapaz são mostradas, mas na verdade, ele está impassível à frente do bobão que foi pedir para que Rob parasse de ir atrás de Laura.

Toda a adoração ao filme acontece graças a uma ótima direção de Stephen Frears que junta o roteiro prendendo a atenção do público e a mais uma boa atuação de John Cusak. O que já se tornou rotina na filmografia do ator, que arrastou três parentes para atuarem em "Alta Fidelidade": Joan, Dick e Susie Cusak.

Andhye Iore

TRILHA SONORA

SERVIÇO

Filme: Alta Fidelidade (High Fidelity)
EUA/Inglaterra – 2000
Direção: Stephen Frears
Roteiro: John Cusak
Elenco: John Cusak, Iben Hjejle, Lisa Bonet, Catherine Zeta-Jones, Tim Robins.
Duração: 1h53
Estúdio: Touchstone.