AMOR À FLOR DA PELE
Descoberta de sentimentos
platônicos
Filme
chinês é uma aula de cinema belo e inteligente,
onde
amantes apaixonados não se tocam, se beijam ou
fazem sexo
Depois de ser um dos filmes
mais aplaudidos na 24º Mostra Internacional de
Cinema de São Paulo ano passado e arrastar
multidões aos cinemas do Rio de Janeiro e São
Paulo, finalmente Maringá recebe um dos filmes
mais belos e inteligentes dos últimos anos.
O humanismo,
sutileza e beleza nos filmes orientais já é
algo comum. Porém, em alguns casos, há uma
surpreendente descoberta na maneira de apresentar
a história. O diretor Wong Kar-Wai
conseguiu algo que parece ser impossível quando
se fala em fazer um filme sobre traições e
relacionamentos extra-conjugais sem colocar na
tela um único beijo e nenhuma cena de sexo.
TÉDIO
Em "Amor
à Primeira Vista" tudo é sugerido.
Desde a relação do casamento até a busca da
felicidade em outros parceiros. Kar-Wai não
mostra os casais brigando, apesar de fazer o
casamento parecer a coisa mais tediosa do mundo.
Como também não mostra os amantes consumando
suas paixões.
No filme, o tempo
todo, os amantes conversam sobre seus casos. Se
escondem, cochicham, demonstram se amarem sem um
único toque. Aliás, o único contato físico do
filme é depois da metade, quando parece que vai
acontecer um beijo caloroso e a câmera passeia
em slow motion pelo braço da mulher sendo
abandonado pela mão do amante.
Na seqüência,
descobre-se que eles estão só treinando a sua
despedida por estarem consumidos pela culpa da
traição. Não se separam, mas também não se
beijam, não fazem sexo, apesar de se ter a
certeza de que o relacionamento deles é da mais
intensa paixão.
MOSTRA
Habituado a
escrever, dirigir e produzir seus filmes, Wong
Kar-Wai nasceu em Shangai, na China em 1958 e,
com cinco anos, foi para Hong Kong. Com nove
filmes como cineasta, conseguiu a proeza de ter
seu filme "Amores Expressos" como o
primeiro a ser distribuído pela companhia de
Quentin Tarantino, a Rolling Thunder. Atualmente,
está filmando "2046" em segredo.
Com todos seus
filmes exibidos pela Mostra Internacional de
Cinema de São Paulo, conseguiu um merecido
destaque como diretor de filmes sobre
relacionamentos complicados, mas repletos de
paixão (homo e heterossexual). "Amor à
Primeira Vista" teve duas sessões
concorridíssimas na 24º Mostra Internacional de
São Paulo, ano passado, deixando muita gente do
lado de fora.
Seu penúltimo
filme, "Felizes Juntos" ("Happy
Together", 1997), é uma co-produção entre
Argentina e Hong Kong. Dois rapazes apaixonados
mudam para outro país, buscando vida nova, mas
passam por problemas, se separam, se reencontram
e tomam rumos diferentes novamente.
BOLERO
Assim como em
"Amor à Flor da Pele", um vai e vem de
sentimentos, desejos e sonhos. Na história, em
1962, o jornalista Chow também se muda com sua
esposa para um prédio e passa a conviver com
novas pessoas, entre elas, a belíssima Li-chun
que também é casada, mas passa um bom tempo sem
o marido viajante. Quanto mais o tempo passa e
Chow e Li-chun se cruzam nos corredores, mais
próximos vão ficando. Mais os sentimentos ficam
à flor da pele.
A câmera desliza
vagarosamente pelos corpos esguios das mulheres
em justos vestidos tradicionais estampados em
seda. O clima sexy se dá pela bela trilha de
violino, com a fumaça contra a luz e por imagens
através de tecidos transparentes.
A amizade entre
Chow e Li-chun cresce rápido demais e, quando
percebem estarem apaixonados um pelo outro,
descobrem também que seus respectivos
companheiros também têm um caso. Então, algo
inusitado acontece no filme: boleros como
"Aquellos Ojos Verdes" e
"Quizás... Quizás" tomam conta das
cenas embalando os olhares e pensamentos das
personagens. Um filme chinês com bolero latino!
ANGÚSTIA
A partir daí, o
filme excede a sensualidade na hesitação dos
amantes, com as emoções chegando de surpresa e
com a culpa se transformando em romance. Há um
clima de inocência, como em toda paixão, com um
se preocupando com o que o outro gosta. Mas, como
toda paixão instintiva nem sempre acaba bem, os
casais se separam e tomam rumos diferentes,
apesar sentirem falta um do outro.
O telespectador
sente uma angústia pelo fato do casal de amantes
não se unirem fisicamente, apesar de terem suas
almas conectadas. Com isso, o cineasta quis dizer
que os homens são como animais confinados pelos
próprios sentimentos.
Anos depois, Chow
e Li-chun separados lembram de seu romance com
uma voz em off narrando que o passado se vê, mas
não se toca. O filme termina destacando a genial
fotografia em belas imagens nostálgicas de uma
câmera hipnótica, enquanto toca "...y así
pasam los dias y yo desesperado ... quizás...
quizás..."
Andhye
Iore
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SERVIÇO:
Amor
à Flor da Pele ("In the Mood For
Love") - Hong Kong, 2000 Gênero:
drama/romance - Duração: 1h30 Direção,
roteiro e produção: Wong Kar-Wai - Elenco:
Maggie Cheung, Tony Leung, Rebbeca Pan, Lai Chen.
- Produção: Block 2 Pictures Inc.
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