CULT
O amor entre cães e vísceras
Projeto de filmes alternativos volta com o premiado drama mexicano "Amores Brutos"

Depois de quase dois meses de férias, o Cine Aspen Park volta com a sua programação para o "Projeto Um Outro Olhar", que continuará exibindo grandes filmes da história do cinema, bem como os melhores filmes contemporâneos que tiverem distribuição no Brasil.

Para marcar esta volta, nada como um dos melhores filmes do ano: "Amores Brutos". Polêmico, violento e impiedoso, o filme de estréia do mexicano Alejandro González Iñárritu é um desses achados que poderia passar despercebido não fossem os Prêmios da Crítica e Menção Especial do Júri, na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, além de um Prêmio no Festival de Cannes/2000, em Chicago, Los Angeles, no México e ter sido um dos cinco finalistas ao Oscar de Filme Estrangeiro deste ano.

Era o melhor filme, sem dúvida, concorrendo, mas bater "O Tigre e O Dragão", de Ang Lee, era tarefa ingrata - unicamente porque este último foi um dos grandes sucessos de bilheteria nos EUA.

No filme de Iñárritu, tendo como cenário a desesperadora Cidade do México, são contadas três histórias, conectadas com um acidente de carro e unidas com os cães do título original ("Amores Perros" é um dos títulos mais significativos dos últimos tempos - até a medula, por sinal!).

São três histórias de amor, quando o amor pode ser desesperado, sufocante, débil e inevitavelmente trágico. Com uma câmera nervosa, acompanhamos a brutalidade das cores quentes, quase como um inferno, que vai revelando como a paixão do jovem Octavio pela cunhada leva-o a colocar seu cão para brigar e ganhar dinheiro para poder fugir com ela.

Depois, observamos Valéria, uma modelo em ascenção que faz com que um editor de uma revista abandone mulher e filhas para viver com ela e seu cãozinho de raça. Unindo as duas histórias está o acidente. Quando o carro de Osctavio arrebenta-se contra o de Valéria, mutilando-a, e o mendigo El Chivo, um matador de aluguel que há anos abandonou a mulher e a filha para tornar-se comunista e...terrorista. Ele perambula pela cidade, fazendo seu "trabalho" rodeado por inúmeros cães e ensaia uma volta para casa, chorando ao ver a filha sem poder dizer quem é. Chora, aliás, da mesma maneira, como chora ao descobrir alguns de seus cães mortos.

Permeando o fio narrativo entre a bestialidade (as cenas das brigas de cães são massacrantes) e o melodrama, Iñárritu fez um dos retratos urbanos mais comoventes e inspirador dos últimos tempos - o que lhe valeu um petardo, violento, por sinal, da conceituada Cahiers du Cinéma, que não gostou do filme porque "desapiedado" e filmado como se o diretor fosse "um esquartejador infantil com toques de crítica social". Bobagens da Cahiers, evidentemente.

Apesar do mundo estar atolado num caos, os franceses não conseguem consumir a violência sem um discurso (!!!) sobre piedade e banalização como justificativa. Inútil, por sinal. "Amores Brutos" não é como Tarantino, que utiliza a violência para fazer rir.

Três histórias de amor como se fosse um documentário da vida real de personagens cujo destino é um acaso regado a sangue, dor e ... cães - animais tão próximos dos humanos, capazes, como nós, de serem fiéis, nobres, humildes e leais, "mas com uma linha muito tênue nos separando da possibilidade de matar", disse Iñárritu. Por aí percebemos que "Amores Perros" é um filme que foi feito com as vísceras.

Paulo Compagnolo

SERVIÇO

AMORES BRUTOS
Direção: Alejandro González Iñárritu
Produção: México, 2000
Elenco: Gael Garcia Bernal, Emilio Echeverria e Vanessa Bauche.