"ANTES DO
ANOITECER"
Poesia, sedução e emoção
nas telas
O
segundo filme do artista Julian Schnabel mostra a
vida sofrida do
poeta cubano Reinaldo Arenas na luta pela
liberdade de expressão
Sendo uma das
atrações da 24º Mostra Internacional de Cinema
de São Paulo e premiado no Festival de Veneza de
2000 como Melhor Filme, "Antes do
Anoitecer" ("Before Night Falls")
é o segundo filme do artista plástico Julian
Schnabel ("Basquiat", 1996) como
diretor de cinema e, curiosamente, sua segunda
biografia filmada.
Pela atuação no
filme, o ator espanhol Javier Barden
("Jámon Jámon") foi indicado ao Oscar
de Melhor Ator de 2000 e, também, Melhor Ator de
Drama no Globo de Ouro desse ano. Numa das
maiores caracterizações já feitas no cinema,
Barden tem um desempenho admirável em todo o
filme.
De menino pobre
morando na zona rural do interior de Cuba em meio
à uma família de mulheres frustradas, passando
para a adolescência durante a revolução
cubana, suas descobertas artísticas e
sentimentais conflitantes, até seu exílio em
Nova York, onde morreu sozinho e sem dinheiro,
apesar de seus livros serem best sellers em
vários países. Reinaldo Arenas foi o maior
exemplo de ser humano que luta pelo que acredita,
sem se deixar abater pelas dificuldades.
NATUREZA
Como que
explorando ao extremo sua sensibilidade
artística, Schnabel trabalha com a natureza como
coadjuvante, numa belíssima fotografia. Coloca
na tela chuva, árvores e terra servindo de palco
para um mundo fantasioso de um menino escrevendo
poemas nos troncos das árvores, do jovem
escritor que criou um mundo esperançoso em seus
livros e do mundo cruelmente real que não
entende a alma de um artista.
A revolução
cubana colocou os artistas e homossexuais como
proscritos. Reinaldo Arenas era um escritor
homossexual. Por isso, sofreu muito já que Fidel
Castro usava gente como Arenas para mostrar que a
população não podia ser influenciada de
maneira a se desviar do socialismo.
Assim como o
irlandês Oscar Wilde na Inglaterra, Arenas
também foi preso e conseguiu transformar seu
sofrimento de presidiário em poesia bela e
extremamente realística. Mesmo, tendo crises que
o faziam destruir seus escritos na prisão.
PARADOXO
Em várias
passagens de "Antes do Anoitecer" há
um contraste curioso, já que a triste realidade
social e política de Cuba é encarada pela
esperança de um visionário da vida, que usa as
palavras para trazer alegria às pessoas.
E, nesse ponto, é
importante destacar que a camada mais pobre da
sociedade sempre busca na cultura um meio de se
sentir feliz, como uma fuga da realidade. E assim
era a vida do menino Reinaldo Arenas no campo
rural. Outro paradoxo mostrado no filme é que
Reinaldo recebia prêmios por seus livros, mas
não tinha onde morar. Vivia fugindo dos soldados
de Fidel.
Um dos muitos
momentos singelos em "Antes do
Anoitecer" é quando Reinaldo compara a
máquina de escrever a um piano. Sempre dizendo
que havia nascido para ser escritor, em um de
seus poemas "The Parade Ends"
ele descreve um encontro com uma máquina
de escrever de maneira detalhada.
Após tirar a capa
da máquina, ele limpa poeira e a acaricia.
Senta-se à frente da máquina, desesperado e
feliz, corre seus dedos sobre as teclas e o
barulho dos dedos datilografando começa como uma
música que traz uma infinidade de imagens à sua
mente. Ele fica imortalizado.
ECLETISMO
Apesar de ter sido
rodado em apenas dois meses no México, afinal
Fidel Castro jamais permitiria que um filme que
retratasse Cuba dessa maneira fosse filmado em
seu país, o filme é um retrato fiel dos
acontecimentos históricos entre 1943 a 1990.
Porém, Julian
Schnabel faz questão de frisar que "Antes
do Anoitecer" é sobre a vida de Reinaldo
Arenas e não um filme político. Além de Javier
Barden, também atuam como participações
especiais, os atores Sean Penn ("Poucas e
Boas") e Johnny Depp ("Chocolate")
fazendo dois papéis, sendo um deles um caricato
travesti chamado Bon Bon.
A trilha sonora
também segue o clima plástico que conceitua o
filme. Com um ecletismo refinado, ora as cenas
são embaladas por um piano erudito, ora pela
música popular cubana, ora por um clima etéreo,
ora pelo modernismo cult de Laurie Anderson e Lou
Reed.
Em seu primeiro
filme, Schnabel já mostrava a preocupação em
revelar para o público o lado humano e poético
de sua personagem principal. Só que filmar
"Basquiat" foi muito mais fácil que
"Antes do Anoitecer", já que Schnabel
era amigo do pintor Jean Michel Basquiat. Para
filmar a vida de Arenas, o diretor teve que reler
os livros do poeta, bem como conversar com
dezenas de exilados que passaram por situações
parecidas com a do poeta cubano.
SATISFAÇÃO
Numa das muitas
mensagens passadas contra o comunismo ao longo do
filme, uma merece destaque: "No comunismo
você aplaude. No capitalismo você pode gritar
se leva um chute na bunda!". Outro momento
histórico importante reforçado por Schnabel é
a imagem de Fidel Castro usando os meios de
comunicação para fazer sua propaganda
política, enquanto o sexo era utilizado como
resposta à violência militar.
Apesar do contexto
político negado pelo diretor e dos ataques ao
socialismo cubano, "Antes do Anoitecer"
é um poema cinematográfico. Um exemplo de como
o cinema tem poder de antropologia e de lição
de vida, independente do sistema político. E,
mais independente ainda da crueldade com que o
capitalismo consome nossa liberdade sem
percebemos.
Afinal, é
impossível ficar impassível a um filme onde a
personagem principal luta contra a pobreza,
censura militar, risco de vida, humilhação,
doença e morte e ainda deixa um sorriso de
satisfação no rosto de quem assiste
mesmo com o final depressivo.
Andhye
Iore
|