BELEZA AMERICANA
"Beleza Americana" é um poema sutil

Quando li pela primeira vez sobre o filme "Beleza Americana" ("American Beauty") num site em setembro de 1999, tinha a certeza de que este seria um dos melhores filmes que assistiria nos últimos anos. Esperei 6 meses para confirmar isso, até o filme estrear no Brasil.

Beleza Americana é caótico em seu humor negro. Totalmente ofensivo às aparências do american way of life. Dois lemas explorados por personagens do filme servem para ilustrar o que move o roteiro: "Quando você não tem nada a perder, você pode arriscar tudo!" e "Não existe nada pior que ser uma pessoa comum!"

É de uma admiração chapante ver como várias tramas paralelas vão se ligando e mexendo com valores que muitos julgam intocáveis. Pura aparência. Símbolos americanos são despidos e toda a hipocrisia salta na tela levando o público ao sorriso. A famosa imagem de Marilyn Monroe enrolada num lençol de cetim vermelho se transformou em Ângela (Mena Suvari, de American Pie) deslizando sensualmente entre milhares de pétalas vermelhas.

Aliás, a personagem de Mena Suvari exala sexualidade em todas as suas passagens pelo filme. Ângela faz questão de narrar suas tórridas experiências sexuais para, no final, revelar sua inexperiência e medo de ser comum. O sexo é um dos motores do filme, mas ele está dentro de um contexto que o público sequer se importa com o seu teor. A influência sexual na vida das pessoas é mostrada de três ângulos diferentes: homossexualismo sugerido, as descobertas da adolescência e as crises e traições extra-conjugais.

O cineasta espanhol Buñuel criticava a sociedade de maneira crua e polêmica. O premiado diretor inglês de teatro, Sam Mendes (que está filmando Road to Perdition, com Tom Hanks), fez sua estréia no cinema com a mesma essência de Luis Buñuel, mas usou uma linguagem poética em Beleza Americana. A maior contribuição para esse tom "melódico" no filme é a atuação de Kevin Spacey (Seven), totalmente inspirada. Sua personagem, Lester Burnham, é um fracasso. O filme começa com ele narrando fatos de sua vida no dia de sua morte.

De uma submissão à mediocridade até as revoluções causadas pelas visões que ele tem de Ângela, amiga de sua filha Jane (Thora Birch, de Dungeons & Dragons), que aparece para ele em sonhos e em público misturando devaneios à realidade. Lester é capaz de ações incomuns entre si: se masturba no banheiro de manhã (o que considera o melhor momento de seu dia), briga no trabalho, passa a fumar maconha e a fazer musculação, ao mesmo tempo em que tenta se reaproximar, sem sucesso, da filha rebelde.

É impossível não se emocionar com Beleza Americana. É impossível não se ver em alguma situação ou no lugar de algum personagem do filme. Apesar de toda ironia, ofensa, cinismo e crítica o filme é bem realístico. Não faltam as reuniões de meninas falando futilidades sobre garotos e moda, pessoas influenciadas pela ganância e competitividade do mercado de trabalho na Globalização, fraquezas nutridas por livros de auto-ajuda, relacionamentos familiares desmoronando sem reação alguma e ansiedade juvenil embalada por cigarros de maconha.

Beleza Americana foi o favorito ao Oscar em 2000, mas não é o tipo de filme que a Academia costuma premiar. Um exemplo foi o que aconteceu com o ótimo, crítico, irônico e original Show de Truman ano passado Mesmo assim, Beleza Americana ganhou cinco estatuetas: melhor filme, ator, diretor, roteiro original e fotografia. Este ano a coisa foi diferente porque não havia nenhuma grande produção milionária e, porque por trás de Beleza Americana está a Dreamworks, o estúdio de Spielberg. Mesmo se não ganhasse nenhum Oscar, o sorriso de Lester, morto no final do filme, justifica um dos filmes mais agradáveis já feitos.

Andhye Iore

SERVIÇO

Beleza Americana (American Beauty)
(EUA – 1999)
Diretor: Sam Mendes
Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Peter Gallagher, Thora Birch, Mena Suvari, Scott Bakula
Estúdio: Dramworks
Distribuidora: CIC Video
Duração: 2h02