CIDADE DE DEUS
Cidade
de Deus... nos acuda
Filme
brasileiro dá um show de cinema ao mostrar o
surgimento de uma das maiores favelas do país,
onde o crime dita as regras
Andhye Iore
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O Brasil
faz cinema sim! E de primeiro mundo.
Foi-se o tempo quando as pessoas diziam
que não gostavam de filmes nacionais.
Depois do humanismo singelo de
"Central do Brasil", de Walter
Salles, em 1998, o cinema brasileiro
conquistou outro conceito no universo
hollywoodiano. Mesmo ainda não ganhando a
tão cobiçada estatueta do Oscar nos
últimos anos, o Brasil dá sinais de
estável maturidade. Até há espaço
para um cinema conceitual como a
biografia "Dias de Nietzsche em
Turim" (2001), de Júlio Bressane.
Mas, a
obra que dá respeito ao Brasil frente
aos produtores e público estrangeiro é,
sem dúvida o recém-lançado
"Cidade de Deus". O filme de
Fernando Meirelles, baseado no livro
homônimo de Paulo Lins, é
impressionante. No mínimo.
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Filmado entre
junho e agosto de 2001, "Cidade de
Deus" custou U$ 3.300 milhões e é um show
de cinema. Não é à toa que, em apenas duas
semanas em cartaz, a produtora quase dobrou o
número de cópias espalhadas pelo Brasil desde
que estreou no dia 30 de agosto.
A produção, que
tem distribuição internacional da Miramax, foi
exibido no Festival de Cannes em maio desse ano
fora da competição, mas ganhou elogios rasgados
e deixou muito crítico de boca aberta.
REFERÊNCIAS
O filme tem uma
ótima história baseada em fatos reais e a
edição de imagens é primorosa, mostrando o
surgimento da favela carioca Cidade de Deus nos
anos 60 e conta a história de alguns personagens
passando pelos anos 70 até o início dos anos
80.
Na tradicional
filosofia da luta entre o bem e o mal que ronda o
cinema desde o seu primórdio, o filme é narrado
por um dos dois personagens principais. Buscapé
e Dadinho crescem juntos, mas seguem caminhos e
destinos completamente diferentes.
Buscapé - o
narrador - representa o bem, quer ser fotógrafo
e resiste às influências das drogas e do crime.
Dadinho é o mal e vira o traficante e bandido
mais temido da cidade. Entre os dois, vários
personagens se ligam e surpreendem no andamento
da trama. O curioso é perceber algumas
referências cinematográficas mesmo que
saibamos que não foram inspirações para
transpor o livro para a tela.
A violência dos
tiroteios e disputas por espaços na favela
lembra "Bons Companheiros" (1990), de
Martin Scorsese. A ágil edição de imagens e
postura da câmera remete aos filmes do
britânico Guy Ritchie (de "Snatch",
2000) e o modo visceral como as histórias
paralelas vão se ligando são semelhantes ao
mexicano "Amores Brutos" (2000), de
Alejandro González Iñárritu. É o Brasil
fazendo cinema no mesmo nível que é feito em
qualquer país desenvolvido.
AMADORES
"Cidade de
Deus" cai como uma luva na discussão da
criminalidade na sociedade. Mostra como funciona
o tráfico de drogas, apresenta o
"beabá" do crime, a visão da
polícia, da imprensa, do bandido e da
comunidade.
É um alerta para
a sociedade que insiste em fechar os olhos para o
que acontece neste país. Neste ponto, a obra
cinematográfica deixa um peso na consciência do
público que sai da sala de exibição chocada
com o mote da infância roubada.
Além de retratar
com absurda fidelidade o que acontece nos morros
cariocas, já que o elenco é formado por jovens
muitos favelados - que tiveram sua
primeira experiência frente à uma câmera. O
único ator conhecido é o talentoso Matheus
Nachtergaele (de "O Auto da
Compadecida", de 2000).
O filme faz um
retrato cruel e bem realístico de como é viver
numa favela, onde crianças que nem completaram
10 anos empunham revólver e outros simplesmente
sonham em ter uma vida tranqüila, mas morrem
injustamente.
Como simples
mostra de que a produção foi especial, o filme
começa onde termina. A roda de samba ganha outro
sentido quando uma galinha foge antes de ir para
a panela. Na seqüência, duas dezenas de garotos
armados correm pelos becos atirando contra a ave
numa típica corrida de gato e rato. Aqui, cabe
uma metáfora de como é a vida na favela onde
corre-se pela vida fugindo da morte. Corre-se dos
bandidos buscando salvação nos policiais ou
vice-versa.
VÍTIMAS
A riqueza de
detalhes prende o espectador. Assim como nas
produções do citado Guy Ritchie, a história da
Cidade de Deus tem personagens folclóricos.
Alguns temidos outros idolatrados, ou os dois ao
mesmo tempo. Acompanhando Dadinho e Buscapé,
seguem Cenoura, Cabeleira e Mané Galinha.
Todos ilustres
vítimas de uma indústria cultural que deu
charme à cocaína, ao crack e à maconha,
transformando os saudosos bailes de black music
em combates funkeados em salões fechados.
Num viajante
paradoxo, Dadinho usa da metralhadora para
conquistar seu reinado finito, enquanto que
Buscapé usa a máquina fotográfica como arma
para ter uma vida decente, sem saber se
conseguirá.
"Cidade de
Deus" é um filme sobre vingança. Do
começo ao fim, o espectador é bombardeado com
uma violência transbordando a tela num banho de
sangue. A herança da favela é triste, assim
como é a cena mais chocante do filme quando duas
crianças são baleadas no pé... por vingança.
O percurso
histérico da violência no filme mostra que a
vida muda em poucos segundos. Pena que, na vida
real, não há perspectivas de mudanças em meio
ao caos social que atravessa o Brasil.
Independente de
mudar alguma coisa ou não, "Cidade de
Deus" serve para tirar a máscara do país
tropical abençoado por Deus e bonito por
natureza. Como os próprios meninos do morro
dizem numa seqüência do filme: "Isto é um
inferno...estamos numa guerra urbana!".
Já
assisitiu a esse filme? Quer dar sua opinião?
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SERVIÇO
Filme
"Cidade de Deus"
Brasil, 2002
Gênero: Drama/ação
Duração: 2h10
Direção: Fernando Meirelles e Kátia Lund
Elenco: Matheus Nachtergaele, Alexandre
Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Seu Jorge,
Roberta Rodriguez Silvia
Onde assistir: Cine Aspen, sala 4, às 14h50,
17h20, 19h50 e 22h20
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