EVENTO
A hora e a vez do cinema nacional
Cinemas Maringá e Projeto Um Outro Olhar apresentam festival com cinco filmes brasileiros

Começa nesta sexta (26) nos Cinemas Maringá, anexo ao BIG, a Semana do Cinema Nacional, que vai exibir cinco filmes brasileiros dos mais interessantes que nossa cinematografia produziu nos últimos anos.

O título mais velho é o belo segundo trabalho na direção de Walter Salles Jr. (junto com Daniela Thomas), "Terra Estrangeira", de 95. O filme tem sua importância histórica porque relata um dos momentos mais polêmicos do Brasil moderno: a era Collor, exatamente no momento em que a então ministra Zélia Cardoso sequestrava o nosso dinheiro em pról de algo que até hoje ninguém entendeu direito.

A partir disso, o personagem vivido por Fernando Alves Pinto (revelando-se ótimo ator) vai tentar a vida em Portugal, numa terra estrangeira onde a dor e a saudade serão constantes companheiros.

P&B

Destaque para Fernanda Torres no elenco, a belíssima fotografia em preto-e-branco de Walter Carvalho e a direção de arte de Daniela Thomas (conhecida pelas cenografias de espetáculos teatrais de Gerald Thomas e outros e que, depois, seria também co-diretora de "O Primeiro Dia", junto com Walter).

"Terra Estrangeira", que não chegou a ser exibido nos cinemas em Maringá, ganha atenção justamente no momento (será em 03 de maio) que o novo Walter Salles chega às telas brasileiras: "Abril Despedaçado". Esta ainda teremos de aguardar um pouco.

Outro filme é "Brava Gente Brasileira" (2000), de Lúcia Murat, que fala do choque entre duas culturas, no Brasil de 1778: de um lado o português colonizador, deslumbrado e atormentado pela visão do novo mundo; de outro, o povo indígena, que viu suas terras serem invadidas, suas tribos serem dizimadas e nem por isso se deu por vencido.

ELOGIO

Sem fazer a apologia do "Bom Selvagem", Murat narra um episódio polêmico sem os preconceitos (por uma parte ou por outra) que costumam permear a história "real" do Brasil. Com reconstituição de época e desempenhos marcantes de Leonardo Villar e Luciana Rigueira, "Brava Gente Brasileira" foi exibido em vários Festivais de Cinema no mundo e ganhou críticas respeitosas como esta, no Toronto Film Festival:

"Com "Brava Gente Brasileira", Lúcia Murat desafia nossas noções preconcebidas da história. Seu sofisticado método jornalístico, aliado a uma visão aguçada do drama histórico, faz deste filme uma obra verdadeiramente tensa e audaciosa" (Ramiro Puerta).

"Lavoura Arcaica", de Luiz Fernando Carvalho, foi o acontecimento do ano 2001, nos cinemas brasileiros. Baseado na obra magnífica de Raduan Nassar, Carvalho fez o filme mais elogiado pela crítica e considerado por muitos como obra-de-arte.

PERFECCIONISMO

O tema do filho Pródigo às avessas é visitado no filme cuja tensão é marcada pelo desejo do incesto, pela castração paterna, o amor materno, os laços de sangue, a fúria do desejo e tudo o que faz parte da natureza humana: combate e liberdade, visões e realidade.

Ancorado por um elenco que instalou-se durante quatro meses numa fazenda do inteiror paulista, Carvalho fez seu filme fechado no mundo que queria retratar para ultrapassar a mera construção técnica e encontrar "uma fabulação, um sonho, com tamanha força de contaminar o escuro do cinema como uma peste", disse ele.

Ao que parece, conseguiu. Contou com uma equipe que parece ter sido conduzida a chibatadas, tamanho o perfeccionismo da trilha sonora (Marco Antônio Guimarães), da fotografia (Walter Carvalho), da direção de arte (Yurika Yamasaki) e das interpretações ( um Selton Mello inspirado e premiado em Cuba, um Raul Cortez duro como um.pai, uma Juliana Carneiro da Cunha absolutamente e absurdamente contida e genial.

POLICIAL

Além de Leonardo Medeiros como o irmão cujos apelos eróticos são reflexos da tragicidade, e Simone Spoladore como a irmã mais que desejada e pivô da história toda), "Lavoura Arcaica", é uma maravilha do começo ao fim. Se não é o maior filme brasileiro dos últimos 20 anos, ou mais, o tempo revelará.

Os demais filmes são dois dos grandes sucessos atuais do nosso cinema: "Bellini e a Esfinge" e "O Invasor". O primeiro é baseado no romance policial do Titã Tony Belloto, e foi dirigido por Roberto Santucci Filho. Fábio Assunção e Malu Mader (sempre uma mulher esplêndida) estão no elenco, numa trama que gira em torno da morte de uma prostituta.

Com cenas de violência e sexo, o filme que acabou de estrear nos nossos cinemas, faz parte de uma corrente cinematográfica que visa uma observação mais atenta para os problemas urbanos e, também, numa construção de um cinema policial brasileiro (cinema este um pouco desaparecido).

SUNDANCE

É um dos grandes sucessos de público em São Paulo - onde foi filmado. "O Invasor", que também acaba de ser lançado nos melhores cinemas brasileiros, segue uma mesma linha mais urbana, mais violenta e feroz, revelando as mazelas, as contradições e as frustrações da sociedade brasileira.

Terceiro longa de Beto Brant ("Matadores" e "Ação Entre Amigos"), "O Invasor". foi premiado em Sundance (no Festival dos independentes americanos) como o melhor filme latino do ano. Também recebeu prêmios em Brasília e elogios rasgados da crítica.

Isso tudo porque Brant aposta num bom roteiro (baseado em Marçal Aquino) e num elenco que inclui Alexandre Borges, Marco Ricca, Mariana Ximenes e o também Titâ Paulo Milkos - que foi premiado como revelação em Brasília, em trabalho inesperado.

PACOTE

A história diz respeito a dois sócios de uma empreiteira que querem ver eliminado o terceiro, contratando para isso um bandido chamado Anísio (Paulo Miklos). Depois do serviço pronto, o matador decide mudar de vida e atormentar a vida dos mandantes, transformando tudo à sua volta. Tornando-se o invasor do título.

A Semana do Cinema Nacional fica em cartaz até dia 02 de maio e é uma oportunidade rara de se ver, de uma tacada só, cinco filmes brasileiros que, não fosse a iniciativa do Grupo Cinesystem (que inclui os Cinemas Maringá e Cinemas Aspen), talvez não chegassem até Maringá.

O Projeto Um Outro Olhar apoia a iniciativa e tanto "Terra Estrangeira" quanto "Lavoura Arcaica", fazem parte, também, dos filmes do Projeto. Por isso, haverá debates (em data a ser definida) sobre os dois filmes. Vale ressaltar que os ingressos estão com preços promocionais para este evento e que há até um pacote para todos os filmes por apenas R$ 12,00.

Paulo Compagnolo, abril de 2002

SERVIÇO

SEMANA DO CINEMA NACIONAL
Data: 26/04/02 a 02/05/02
Local: Cinemas Maringá (anexo ao BIG)
Horários: (sessões diárias)
O INVASOR – 15h e 19h30
BELLINI E A ESFINGE – 17h e 21h20
BRAVA GENTE BRASILEIRA – 15h e 17h
TERRA ESTRANGEIRA – 19h20
LAVOURA ARCAICA – 21h20
Informações: (44) 226-9010 ou 227-7082