SUÉCIA
Novo cinema sueco é singelo
Inocência e incertezas do futuro marcam histórias nos
novos filmes de diretores que fogem ao estilo Bergman

Quando se fala em cinema sueco, logo vêm à mente o nome Ingmar Bergman. Porém, os novos diretores de cinema da Suécia estão apresentando ótimos filmes, mas totalmente diferentes dos feitos pelo mestre Bergman.

Com filmes não comerciais, mas extremamente inteligentes, Ingmar Bergman foi o primeiro cineasta sueco a ser indicado para o Oscar. Nascido Ernst Ingmar Bergman, a 14 de julho de 1918, na cidade de Uppsala, Bergman começou sua carreira artística ainda criança, numa peça de teatro de marionete juntamente com sua irmã.

Como era difícil fugir das influências artísticas em Uppsala, já que a cidade têm uma das mais conceituadas universidades com cursos de artes - a Uppsala University – que é a mais antiga instituição de ensino dos países nórdicos, sendo fundada em 1477, o jovem Bergman se dedicou a escrever roteiros. A arte também foi uma maneira de fugir da educação religiosa imposta pelo pai, um padre.

Com apenas 23 anos de idade, em 1941, já teve o primeiro texto – "Kaspers Death" - encenado no teatro. A partir daí, não parou mais. Ingmar Bergman escreveu um total de 59 (!) roteiros que foram adaptados para o cinema, teatro ou televisão. Além de ter dirigido 57 filmes, atuado em 15, produzido oito filmes e escrevendo até hoje, às vésperas de completar 83 anos.

SEM OSCAR

O cineasta Bergman ficou famoso por filmes densos, de forte apelo dramático. Filmes que faziam reflexões sobre a vida e a morte, através de complexos relacionamentos humanos. Tendo filmes indicados ao Oscar em sete edições da Academia - em 1960, 1963, 1971, 1974, 1977, 1979 e 1984 - nunca recebeu uma estatueta. Nem as descaradas homenagens prestadas pelos conservadores senhores da Academia aos gênios do cinema pelo conjunto da obra.

Assim como seus filmes, o cineasta teve uma vida particular conturbada. Casou-se cinco vezes, das quais quatro resultaram em divórcio. Desses casamentos, três mulheres eram atrizes que atuaram em seus filmes. Além disso, ainda teve um caso extra-conjugal com a bela atriz e escritora Liv Ullman, com quem teve uma filha.

Porém, toda a genialidade de Ingmar Bergman não foi suficiente para criar um movimento cinematográfico consistente na Suécia, que conta ainda com o prestígio, talento e beleza da musa Ingrid Bergman (1915-1982). Os dois Bergmans trabalharam juntos no filme "Autumn Sonata " (1978), indicado ao Oscar de melhor roteiro.

CINEMA NOVO

O novo cinema sueco é feito por diretores que retratam as incertezas da juventude confusa nos dias atuais. Nomes como Lukas Moodysson e Daniel Frydell correm o mundo nos festivais de cinema apresentando histórias comoventes, singelas e repletas de adolescentes entre a inocência e a sedução inconseqüente.

Dois filmes marcam essa nova escola de cinema da Suécia. "Amigas de Colégio’ (1998) é a estréia (em longa metragem) de Lukas Moodysson, enquanto "Beleza Sueca" (2000) é o quarto longa de Daniel Fridell.

Os dois filmes partem de um mesmo princípio: a vida chata numa cidade do interior, onde os jovens não tem muitas perspectivas de futuro. Em "Amigas de Colégio", a juventude da pequena cidade de Amal até que tenta fazer festas, se embebeda, mas cai no ostracismo quando passa a discutir coisas sérias da vida.

FUTILIDADE

Enquanto as garotas falam de maquiagem e, é claro, de namorados, os meninos falam de motos e equipamentos como telefones celulares. Porém, nem todos se rendem às futilidades. Agnes enfrenta o conflito tradicional da falta de comunicação entre pais e filhos, além de sofrer devido à paixão homossexual pela musa da escola, Elin.

A sonhadora Elin quer, a todo custo, mudar sua vida pacata. Tem devaneios como uma estrela de cinema e procura demonstrar um ar de superiora entre sua turma. Depois de uma brincadeira, Agnes e Elin se vêem frente a um conflito sentimental.

Apesar do contexto sexual polêmico, envolvendo um relacionamento entre duas adolescentes, "Amigas de Colégio" é uma deliciosa mistura de drama, comédia e romance feita da maneira mais inteligente possível. O filme não é uma história sobre garotas homossexuais, mas sim sobre as dificuldades de sobrevivência que os jovens enfrentam hoje em dia.

O final é suficiente para mostrar que, apesar da vontade dos jovens serem cada vez mais adultos, não passam de crianças inexperientes.

BELEZA INCOMUM

Já "Beleza Sueca" tem a vantagem de contar com a linda atriz Jenny Ulving. Com 21 anos, ela é uma das maiores estrelas da televisão na Suécia, atuando no seriado "Vänner och fiender", em exibição há quatro anos.

No filme de Fridell, Ulving interpreta a sonhadora Sofia, uma sósia de Brigitte Bardot. Depois de ter sido abusada sexualmente na infância e passar por vários lares adotivos, Sofia vai parar numa cidadezinha do interior onde a maior emoção é tomar um sorvete na praça central.

A chegada de Sofia muda a rotina da cidade. Börje e Anders são amigos inseparáveis. Os dois são os mais afetados pela beleza intocável de Sofia e fazem de tudo para conquistá-la.

É aí que a magia do cinema funciona em mais um recurso que já rendeu filmes geniais como "Cinema Paradiso". Usando a metalinguagem do filme dentro do filme, o diretor Fridell coloca os garotos fazendo um filme, onde a única estrela é Sofia, só para conquistá-la.

FELICIDADE

Com um apelo sexual incrível paralelo à inocência de garotos de 12 anos, uma bela fotografia, uma trilha sonora ora com rock'n'roll clássico ora com músicas melancólicas, "Beleza Sueca" é uma daquelas pequenas obras-primas que o cinema independente é capaz de criar mostrando o real valor de uma amizade.

Depois de tantos contra-tempos, o filme fica pronto e é exibido com festa na pequena cidade, onde Sofia realiza seu sonho de se tornar estrela. Outros personagens finalmente encontram a felicidade real, mostrando que o amor verdadeiro é aquele mais simples e não o apresentado como idolatria que faz com que tentamos ser o que não somos.

Não é exagero dizer que Jenny Ulving é um dos rostos mais belos surgidos no cinema. Não é um exagero dizer que o filme é uma obra-prima devido à simplicidade.

EMOÇÕES

Tanto "Amigas de Colégio" como "Beleza Sueca" trabalham o tempo todo com a inocência das personagens, emocionando ao apresentar as descobertas sentimentais repletas de sensações maravilhosas, bem como frustrantes.

Os dois filmes usam atores adolescentes de boa plástica na tela, com uma sexualidade latente e insólita para eles, bem como apresenta uma felicidade ingênua que desmorona em contato com a realidade.

O novo cinema sueco pode não chegar aos pés dos filmes de Ingmar Bergman, mas é tão tocante quanto. Enquanto Bergman explorava a reflexão para emocionar, os novos diretores usam a simplicidade para alertar sobre os rumos desconhecidos por onde vai a juventude.

O novo cinema sueco trabalha com o conceito de comédia romântica de adolescentes, mas não é nem um pouco idiota como os filmes feitos pelos americanos que infestam as locadoras nas férias.

Andhye Iore

SERVIÇO

"Amigas de Colégio" ("Fucking Amal")
Suécia, 1998
Direção e roteiro: Lukas Moodysson
Duração: 1h29
Lançado em vídeo no Brasil pela Cult Filmes

• "Beleza Sueca" ("Swedish Beauty"/ "Dubbel-åttan ")
Suécia, 2000
Direção e roteiro: Daniel Fridell
Sem previsão de lançamento no Brasil