COMENTÁRIO
Dançando na modernidade
Filme de Lars Von Trier não sustenta o mito

Maringá também sentiu o gostinho da modernidade. Com seis meses de atraso, depois de estrear em outubro de 2000 no Brasil durante a 24º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme "Dançando no Escuro" ("Dancer in The Dark"), do dinamarquês Lars Von Trier, chegou a Maringá trazendo o que há de mais moderno na cultura global.

O diretor é o queridinho dos festivais de cinema do mundo todo. A atriz principal, a islandesa Björk, é idolatrada por todos os veículos de entretenimento. Os dois unidos numa mesma produção só poderia resultar num culto, independente do resultado da obra.

E foi isso mesmo que aconteceu. "Dançando no Escuro" é uma bobagem batizada de modernidade. É chique, aliás, é inn (porque moderno que é moderno têm que falar palavras em inglês) gostar de "Dançando no Escuro". Mesmo que não se entenda o filme ou mesmo que se ache o filme ruim.

Na Dinamarca, país natal de Von Trier, o Dogma 95 já é algo ultrapassado. Os novos cineastas já superaram o estilo tosco de filmar que revolucionou o cinema mundial há quatro anos atrás. Mesmo que o Dogma 95 tenha se transformado numa disciplina nas escolas de cinema dinamarquesas.

Por isso, as imagens desfocadas, os enquadramentos irregulares e a iluminação deficiente – tudo resultado dos preceitos dogmáticos – criam na tela a sensação desagradável de uma idéia vencida, mas que a mídia e o público "intelectual" têm medo de criticar.

O que enche os olhos no filme é a seqüência do trem. Não o musical nonsense (viu, também sou moderno!), mas o show de imagens. Porém, Lars Von Trier não consegue manter o ritmo no filme em geral.

O desempenho de Björk é realmente admirável – para quem estreou no cinema. Porém, não é nada para quem faz shows no mundo todo para milhares de pessoas e aparece em todas as revistas de entretenimento conceituada como uma das artistas mais modernas da indústria fonográfica.

Sem contar que, musicalmente, "Dançando no Escuro" também não é aquela maravilha como é vendida ao público. Von Trier precisou amarrar as coreografias (visivelmente sem sintonia entre os dançarinos – e isso não é um dos dez preceitos do Dogma 95) com devaneios da personagem Selma (Björk). O que convenhamos, não é lá muito criativo.

A trilha sonora também está longe da média da carreira de Björk, que teve momentos muito mais criativos quando era a vocalista do Sugarcubes, ainda na Islândia, no final dos 80. Afinal, quantos artistas pop cantam hoje em dia "... deus does not exist..."?

E, pra reforçar, todo o conceito de modernidade dado à cantora é devido às colaborações e mixagens de seus discos feitas pelos melhores dj’s da cena eletrônica, entre eles, seu namorado Goldie. Mesmo que Björk também seja compositora e não uma simples intérprete.

Um dos comentários positivos feitos sobre o estilo do filme é em relação à técnica semiótica de colocar uma imagem mais crua quando Selma é mostrada em sua vida real e de uma maneira mais colorida e apurada quando ela é mostrada através dos delírios inspirados nos musicais da Broadway.

Há 14 anos atrás, o alemão Wim Wenders utilizou esta técnica de maneira primorosa no filme "Asas do Desejo" ("Les Ailes du Desir"), oferecendo ao público imagens em p/b quando Daniel aparece como anjo e imagens coloridas quando se torna humano e vai em busca de seu amor. E não estou comparando os filmes, porque aí já seria covardia.

Curioso foi perceber pessoas chorando e assoando o nariz antes mesmo do final apelativo. É até engraçado imaginar o pensamento de algumas pessoas: "Eu tenho que chorar, senão vão pensar que eu não entendi o filme e que eu não sou moderno!"

Sobre o final, o que caracteriza o filme como um dramalhão grosseiramente manipulado para emocionar o público, é incrível como na metade do filme já dá pra perceber que Selma é uma coitada, que tudo dá errado pra ela, que ela nasceu pra sofrer e que o filme não têm um final feliz.

Um exagero colocado por Lars Von Trier que criou conflitos com Björk durante as filmagens e, talvez, tenha sido um dos motivos que levaram a islandesa a declarar que nunca mais atuará em outro filme novamente. Ainda bem!

Andhye Iore