DAVID LYNCH
Filmes de sangue e mel
Cineasta americano tem talento inquestionável em retratar humanismo com personagens estranhos

ANDYE IORE

O americano David Lynch é um dos mais conceituados entre os cineastas contemporâneos. Marcada pela série televisiva "Twin Peaks" e por filmes bizarros, sua filmografia conquistou um respeito de crítica inquestionável com "História Real", uma bela homenagem ao povo interiorano americano.

Metaforicamente, pode-se dizer Lynch mistura sangue e mel em suas obras. Prêmios não faltam para coroar o trabalho do diretor, roteirista, ator, compositor e produtor. Cannes já o premiou duas vezes.


David Lynch: carreira de sucesso com filmes alternativos

Além de outros festivais americanos e europeus. E, a Academia já o indicou três vezes para o Oscar de melhor diretor. Em 1981, por "O Homem Elefante", em 1987 por "Veludo Azul" e este ano por "Mulholland Drive".

ESTILO

Os principais ingredientes de seus filmes são morbidez, sexo, aberrações, violência, sobrenatural, romances inocentes e mulheres lindíssimas que escondem terríveis ameaças. O mundo é um lugar estranho na visão de Lynch.

O primeiro filme de sua carreira é "Eraserhead" (78). Composto por um surrealismo doentio e bizarro na banalidade da vida moderna, este filme é cultuado por malucos em todo o mundo. O segundo pesadelo é "O Homem Elefante" (80), uma bizarrice sensível que deu início da exploração do que está sob as aparências. Com o destaque do filme, Lynch foi convidado para adaptar o romance de ficção científica "Duna" (84) para o cinema.

Os fãs do grotesco voltam a se deliciar com "Veludo Azul" (86). Perturbador e agressivo com uma máscara doce e serena, o filme começa com uma orelha sendo devorada por formigas num jardim, descamba para um bandidão que fica (mais) doido cheirando gás hélio, tem cenas de sadomasoquismo e a beleza intocável de Isabella Rossellini (ex-mulher do cineasta). E estes ingredientes formaram o embrião de "Twin Peaks" quatro anos mais tarde.

PERSONAGENS

Antes da série televisiva estourar em todo o mundo, o filme "Coração Selvagem" (90) consagrou o cineasta. É o que melhor caracteriza uma particularidade de Lynch: o de criar um desfile de personagens estranhos ao longo do filme. Uma mãe alcoólatra e assassina (representando a bruxa má), uma sexy e inocente garota apaixonada por um outsider fã de Elvis Presley, uma moribunda com a cabeça aberta sangrando e preocupada com seu cabelo, além de muito sexo, violência e humor negro.

Mas, nada se compara ao fenômeno "Twin Peaks" (90). A série que colocou todo o Estados Unidos grudado frente à tv foi vendida para vários países, inclusive o Brasil, onde foi exibida e mutilada pela Rede Globo. Como havia a preocupação com a censura televisiva, Lynch abrandou no sexo e violência, mas foi carregada no suspense. Todos se perguntavam: "Quem matou Laura Palmer?" Novamente a podridão por trás das aparências regia a trama.

Uma cidade pacata, com belos e saudáveis jovens, tinha tramas e mais tramas de perversão. Meninas doces, mas com um interior doentio. "Twin Peaks" trouxe um rastro de livros, dicionários, autobiografias de personagens e até um guia turístico da cidade onde se passava a história. A febre foi tamanha que até a torta consumida pelas personagens era sucesso de vendas na vida real. A série rendeu uma continuação no cinema, que serviu mais para confundir que explicar os acontecimentos da televisão.

EMOÇÃO

Depois de outras séries televisivas, Lynch voltou a trabalhar no cinema apenas em 1997, quando fez seu filme mais incomum. "Estrada Perdida" vai fundo na bizarrice ao mostrar um assassinato que envolve um caso de metamorfose entre personagens.

Contrariando toda sua carreira, "História Real" (99) é um primor onde a magia do cinema diz presente. O filme tem um clima de filme europeu ou iraniano, com belas tomadas lentas e abertas de paisagens e uma história simples, comovente e baseada em um fato verídico.

As trilhas sonoras são um show à parte. Angelo Bdalamenti acompanha David Lynch desde "Veludo Azul" e, até agora, são onze trabalhos em conjunto. Sua música é emocionante, criando um clima perfeito para a beleza aparente dos filmes de Lynch. A sonoridade meio etérea, meio blues cativa o público numa perfeita harmonia entre imagem e som.

Lynch nasceu numa pequena cidade do estado de Montana, a 20 de janeiro de 1946. Além do cinema, fez comerciais para a televisão, uma vídeo-composição para uma sinfonia, tiras de hq para um jornal, publicou um livro de fotografias e pinta quadros sombrios que alcançam altos preços nas galerias americanas. É um artista na melhor concepção possível do termo.

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INDEX

FILME
Leia resenha de "História Real"

"This whole world is weird on top and wild at heart", filme "Coração Selvagem"