O FIM DE CASO
Aula de cinema
Neil
Jordan impressiona com bela história e imagens
fortes em O Fim de Caso
Começando com um close nas
palavras de uma máquina de escrever, o drama
romântico O Fim de Caso leva o público a
ter uma sensação de deja vu durante o filme.
A trama,
sustentada por duas frases que o escritor Maurice
Bendrix (Ralph Fiennes, de A Lista de
Schindler) escreve em sua máquina de
datilografia: "Este é um diário de
ódio!" e "Sou um homem
ciumento!", vai e volta com novas
perspectivas das personagens para uma mesma
situação.
As cenas se
repetem, mas ganham novos significados,
dependendo de quem narra. Ora o escritor Bendrix;
ora a pivô da paixão de dois homens, a bela
Sarah; ora o marido traído Henry; ora o detetive
contratado para seguir Sarah.
Numa Londres do
início dos anos 40, em meio à guerra, Sarah
Miles (Juliane Moore, de Magnolia) tem um
casamento convencional com Henry Miles (Stephen
Rea, de Catch The Sun), um ministro
britânico que lhe dá uma boa casa e segurança.
Mas, ao conhecer o escritor Maurice Bendrix,
Sarah passa a ter sentimentos que não tem com
seu marido. Curiosamente, os dois a consomem.
Henry pelo ciúmes e Bendrix pela paixão.
CORES
O roteiro do filme
foi escrito por Neil Jordan, que também dirige,
baseado num livro de Graham Greene. O Fim de
Caso, que foi indicado para o Oscar desse ano nas
categorias melhor atriz e melhor fotografia, é
uma história de amor recheada de traição,
ciúmes, promessas, segredos e esperança. Neil
Jordan criou sua melhor obra de uma filmografia
de doze filmes.
Nascido em 25 de
fevereiro de 1950, em Sligo, na Irlanda, Jordan
ganhou o Oscar de melhor diretor em 1992, com seu
sétimo filme, Traídos Pelo Desejo. A
partir daí, passou a ser respeitado e admirado
em Hollywood, fazendo filmes cada vez mais
elaborados. A narrativa é o forte em seus
filmes, além de um visual de cores carregadas,
dando um apelo impressionista e melancólico.
Outras duas
características importantes nos filmes de Jordan
é a influência dos conflitos religiosos na
Irlanda e a participação do ator Stephen Rea,
que atuou em oito dos 12 filmes do diretor: Nó
na Garganta, Entrevista com o Vampiro, Angel, In
Dreams - Premonição, Michael Collins, O Fim de
Caso, Traídos Pelo Desejo e Companhia dos Lobos.
Mesmo com o
deslize de ter chamado Tom Cruise para atuar em Entrevista
com o Vampiro, o talento de Neil Jordan é
inquestionável. O imperdível Nó na Garganta
é um exemplo de como a criatividade do diretor
jorra na tela.
A narração, as
tomadas das câmeras, a maneira de apresentar a
história para o público e, principalmente, a
capacidade em achar talentos como o menino Eamonn
Owens, que interpreta o problemático e sonhador
Francie Brady.
OSCAR WILDE
A religião sofre
nas mãos do diretor. Desde o primeiro filme, Angel,
quando Neil Jordan explorou ao máximo os
simbolismos para criticar a contradição
religiosa irlandesa, passando pelo humor negro de
Nó na Garganta, pela revolta popular em Micheal
Collins até o questionamento da fé em O Fim
de Caso.
Com uma narrativa
impecável, O Fim de Caso é poético na
essência irlandesa dos poetas. Lembra muito o
estilo do mais admirado literário irlandês,
Oscar Wilde. Em um momento do filme, quando os
amantes Bendrix e Sarah estão em suas crises de
consciência pelo caso que se arrasta e os
consome, Sarah sai correndo na chuva.
Bendrix vai atrás
e diz: "Tenho ciúmes de tudo que se
move. Tenho ciúmes da chuva!". Então,
ele a cobre com sua capa e os dois se beijam sob
a chuva, enquanto a câmera gira em torno dos
dois numa das mais belas cenas do cinema
contemporâneo.
E é essa técnica
sutil de fazer a câmera girar lentamente entre
os atores que faz com que O Fim de Caso seja um
filme que deve ser assistido várias vezes. Como
a trama vai e volta, numa influência explícita
do filme Rashomon (1950), do mestre Akira
Kurosawa, esse movimento da câmera permite que
cada depoimento seja visto como se o
telespectador estivesse na cena.
MILAGRE
Quando o marido
traído toma conhecimento do caso, percebe o
quanto errou em sua parte no casamento. Mas, não
consegue tomar atitudes contra o amigo Bendrix e
aceita devido ao fato de que Sarah está
morrendo.
Mas, ela e Bendrix
já estão afastados porque Sarah prometeu a Deus
que nunca mais veria Bendrix, se Ele não
deixasse que seu amante morresse. Com a doença
de Sarah agravada, Bendrix se volta violentamente
contra Deus por Ele ter separado os dois e, na
seqüência, estar levando a vida de sua paixão.
É nessa parte do
filme que Ralph Fiennes e Stephen Rea criam um
choque admirável de talento na representação.
Bendrix questiona a fé das pessoas em um Deus
que tira o que é mais importante para elas e
segue discussões sobre destino e milagres. Henry
se entrega de arrependimento e conformismo,
sofrendo ao ver sua esposa morrendo.
No final, há uma
seqüência de pureza, com um close no rosto de
um menino que teve uma mancha de nascença tirada
por um beijo de Sarah, como o milagre de uma
santa que morreu por amar.
Andhye
Iore
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FILMOGRAFIA
Angel
(82),
Companhia dos Lobos (84),
Mona Lisa (86),
High Spirits (88),
Were No Angels (89),
The Miracle (91),
Traídos Pelo Desejo (92),
Entrevista Com o Vampiro (94),
Michael Collins (96),
Nó na Garganta (97),
In Dreams - Premonição (98)
O Fim de Caso (99).
SERVIÇO
O
Fim de Caso (The End of the Affair)
Drama/romance, duração 1h45
Produtora: Columbia
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