ENTREVISTA
HENRIQUE GOLDMAN (Brasil)
Andhye
Iore - Até que ponto é mais fácil
fazer um filme
sobre travestis, ou dá melhores condições de
filmagem,
já que eles estão sempre alegres, de bom
astral?
Henrique Goldman -
Talvez, isso seja uma visão de quem não conhece
e não sabe a barra que é ser travesti. Por
outro lado... (pensativo) engraçado essa
pergunta porque a percepção que as pessoas têm
na Europa é que é ao contrário. "Que
triste, que drama que é o travesti..." O
que eu tento fazer em "Princesa" é nem
explorar o lado engraçado, não é um filme
cômico apesar de ter aspectos engraçados e nem
de dramatizar porque eu não sinto pena
"delas".
Tem essa situação de drama, do
preconceito, de problemas de família... por isso
eles procuram estar sempre alegres, para poder
compensar os problemas...
É, tá certo!
Agora eu entendi melhor a pergunta, nesse ponto
de vista. Num certo sentido, é alguém fazendo
de conta de ser um outro alguém. É uma
tentativa de mascarar o que se está sentido de
verdade. Mas, não necessariamente alegre. É
mais um fazer de conta.
"Princesa" é uma
homenagem ou um alerta aos travestis?
Ou nenhum nem outro?
Nenhuma coisa, nem
outra. Também tem um pouco a ver com a questão
anterior. É só uma visão, um retrato de uma
travesti brasileira que migra para a Itália
ganhar dinheiro para fazer uma operação de
mudança de sexo. Mas, é também, um mundo visto
através dela. Muitas vezes, você vê muitos
filmes europeus e americanos que vêm para o
Brasil, é a visão de um estrangeiro num país
latino, de terceiro mundo. "Princesa"
é ao contrário. É a visão de um brasileiro na
Europa. O filme é o ponto de vista da Fernanda,
a personagem principal, que é uma adolescente
brasileira, da selva amazônica que descobre um
mundo novo na Itália.
Você acha que se estivesse
morando no
Brasil faria os filmes que você fez lá fora?
(pensativo)
Não sei... é ... eu acho, infelizmente, a gente
não consegue ter várias vidas. A gente têm uma
vida só. E têm uma outra vida que eu gostaria
de ter ficado aqui no Brasil este tempo todo,
trabalhado aqui. Acho que eu faria outras coisas.
Qual a sua opinião sobre o
futuro do cinema americano, já que a cada
temporada os orçamentos crescem exageradamente?
É engraçado
porque, de um lado os orçamentos aumentam e de
outro sai um filme como "The Blair Witch
Project" . O cinema americano é um universo
tão complexo. Se a gente falar só de Hollywood,
acho péssimo que os orçamentos fiquem cada vez
mais altos e a produção vai se limitando cada
vez mais. Mas, o cinema americano não é só
Hollywood. O cinema independente americano é o
cinema mais interessante que têm no mundo, no
momento. Então, quando se fala de cinema
americano, temos que falar também do que não é
Hollywood. Ou de quem faz filme em Hollywood de
modo alternativo, como os irmãos Coen, por
exemplo, Tim Burton. Acho que é um universo tão
rico que é difícil porque tem Hollywood, mas
têm também outros igualmente ou mais
interessantes.
Qual a sensação que você têm
depois de sair
do Brasil e ter seu filme exibido por aqui?
É maravilhoso! É
maravilhoso! Eu sinto aquela história do filho
pródigo...
Você se sente orgulhoso?
Muito! Os
produtores não queriam nem que o filme viesse,
porque ninguém viu o filme ainda. O filme não
foi lançado. Ele ficou pronto há duas semanas
atrás, foi tempo de colocar legenda e colocar
pra ver. Eu quis muito, para mim era muito
importante. Os produtores cederam aos meus apelos
para que o filme viesse para a mostra. Eu
trabalhei na mostra também nos anos 80. É
aquela história do filho pródigo à casa torna.
É o meu país, a minha cidade, a mostra que me
formou, num certo sentido intelectualmente me
formou no lado de cinema. É um orgulho enorme.
Entrevista
e foto: Andhye Iore, outubro/2000
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