ENTREVISTA
HUMBERTO SANTANA (Portugal)
Andhye
Iore - Como você conheceu o trabalho do
Angeli?
Humberto Santana -
Há alguns anos, chegaram a Portugal algumas
revistas do Chiclete Com Banana. Eu ainda não
fazia animação, mas gostava muito de banda
desenhada, que vocês chamam aqui de quadrinhos.
O trabalho do Angeli me fascinou. De lá para
cá, tenho tentado seguir de todas as maneiras, o
trabalho dele seja da Folha de São Paulo ou de
revistas antigas que eu consigo. Mais tarde, em
91, comecei a trabalhar com animação. Em 97,
tive a oportunidade de contactar o Angeli. Fiz a
proposta de produzirmos uma série, ele aceitou e
assim chegamos aqui.
Como você conheceu o Angeli e
como ele reagiu à idéia da animação?
O conheci por
voltade 97 a 98. Ele adorou a idéia e
disponibilizou-se a ajudar no que fosse. Para
fazer a série em animação, precisávamos de
referências dos personagens, dos designs, porque
para fazer a animação, só as tiras não era
possível desenvolver e ele se dispôs a fazer
isto.
A internet tem possibilitado uma
nova forma de cartun, que é justamente o cartun
animado. Você tem acompanhado esse estilo de
cartun na internet?
É fantástico. É
uma nova possibilidade que se abre para os
cartuns. O Flash 4 já é um grande passo. Creio
que nos próximos anos, essa mídia vai se
desenvolver bastante. Provavelmente, a banda
deverá alargar um pouco porque as animações
demoram para carregar, o que torna desmotivante
para muita gente. Creio que o desenvolvimento de
novos softwares e com o alargamento da banda, a
animação encontrará uma mídia ideal para seu
desenvolvimento.
Você já trabalha com cartun via
internet?
Não, ainda não.
A empresa onde trabalho está planejando
desenvolver um trabalho dedicado à internet.
Até agora, temos trabalhado só para televisão
e cinema. Porém, já entendemos que a internet
tem um grande potencial de desenvolvimento e
vamos começar a trabalhar nisso também.
Além do Angeli, você conhece o
trabalho de outros cartunistas brasileiros?
Gosto muito do
Laerte, não lembro o nome do artista mas gosto
das tiras do Níquel Náusea...
É o Fernando Gonsales...
Gosto muito dele,
porque também chegaram algumas revistas em
Portugal do "Piratas do Tietê" e do
"Níquel Náusea". Não conheço
também, mas gostei do trabalho do Adão (N.R.:
o gaúcho Adão Iturrusgarai, que publica tiras
na Folha de São Paulo) e o outro que faz o
"Geraldão"...
O Glauco...
Sim, Glauco, acho
bastante graça nestes trabalhos.
Em Portugal, esses artistas são
conhecidos ou o trabalho deles é mais restrito?
São muito
conhecidos, bastante admirados. Principalmente o
Angeli. Antes de vir para São Paulo, tive
contato com um editor que deve lançar uma nova
revista em Portugal onde o Angeli terá um lugar
de destaque. Creio que a revista se chamará
"Chiclete Com Banana".
Como são os cartuns portugueses?
É diferente.
Porém, os quadrinhos de Portugal tem um problema
um pouco semelhante ao Brasil. Não existem
revistas que durem. As revistas aparecem, duram
um ano, dois anos e acabam. Não deu para
desenvolver o hábito dos quadrinhos em Portugal.
Existem pessoas que se dedicam a isso, mas não
é um trabalho consistente. Por outro lado, há
um trabalho que tem mais a ver com a televisão,
de animação. Enquanto no Brasil, os quadrinhos
tem mais a ver com o estilo americano, em
Portugal tem mais a ver com o estilo europeu de
animação.
Para você, qual a importância
cultural, social e política dos cartuns?
O cartun da piada,
como o Angeli e o Laerte trabalham, tem muita
força em termos de crítica social. Mesmo que
não foque de uma forma direta os problemas
políticos e sociais, indiretamente tem muito a
ver. Serve também para a formação da
consciência das pessoas, dos leitores. Eu
considero o humor uma arma terrível, é uma arma
que tem muito mais força que os discursos que
incidem de uma forma direta sobre os temas. O
humor corrosivo, como o do Angeli que, apesar de
ser esterotipado, consegue definir largas faixas
da população, tem uma importância crítica
muito forte. Culturalmente, sem dúvida é
importante porque é uma arte tão nobre quanto
qualquer outra arte e eu, claro, considero muito
mais o cartum.
Você falou que alguns
cartunistas brasileiros são conhecidos lá.
Vocês tem acesso fácil a material de quadrinhos
de outros países?
Sim, material
importado temos acesso fácil. Traduções não
existem muitas, mas há edições portuguesas de
quadrinhos importantes.
Você conhece animação japonesa
e americana?
Sim (empolgado)!
Gosto bastante de animação japonesa,
principalmente o mangá para cinema e não para
televisão que é mais limitado. Tenho
acompanhado os filmes que saem e a obra de
referência, sem dúvida, é o "Akira".
Em Portugal também tem a febre
dos Pokémos?
Tem. Os
"miúdos" andam loucos por Pokémon e
agora surgiu o Digimon. Tudo que tem Pokémon,
onde aparecem os bonecos, eles querem comprar. É
um fenômeno sem dúvida. É um pouco
compreensível porque são personagens tão ricos
em merchandising. Daqui para frente, toda
animação que surgir vai explorar isso porque é
um mercado enorme.
Qual a sua opinião sobre isso,
você acha que é uma
influência ruim para as crianças porque tem
muita violência?
Não,
particularmente não acho. Eu discordo um pouco
do discurso de censura da violência nos desenhos
animados. Acho que as crianças precisam disso e
faz parte do seu desenvolvimento. Evidentemente,
se as crianças não são acompanhadas, não tem
uma face educativa da parte dos pais, isso pode
influenciar negativamente. Se esse acompanhamento
existir, creio que é inofensivo. Os desenhos
animados não vão influenciar negativamente as
crianças.
Qual a sua expectativa para a
exibição de seu filme aqui na Mostra?
Estou bastante
curioso. Estou bastante reticente porque os
filminhos foram feitos para serem passados um a
um, cada episódio de um minuto. E vão passar 60
de uma vez. É um pacote um pouco pesado, que
pode cansar porque os filmes não tem uma
linguagem que agüente 60 minutos seguidos. Estou
na expectativa para ver qual é o resultado.
Entrevista
e foto: Andhye Iore, outubro/2000
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