INFIEL
Um
olhar sobre a traição
Filme
sueco, dirigido por Liv Ullmann, tem roteiro do
mestre Ingmar Bergman
Texto:
Paulo Campagnolo

Liv Ullman: aprendendo com o
mestre Bergamn
|
O que
esperar de um encontro entre um dos
grandes gênios do cinema e uma de suas
atrizes prediletas que, cansada de atuar,
resolve ficar atrás das câmeras e
dirigir um roteiro de seu mestre? É isso o que
acontece em "Infiel", dirigido
por Liv Ullmann, com roteiro literário
do sueco Ingmar Bergman.
Liv foi a
atriz/criação de Bergman em
obras-primas como "Persona",
"A Hora do Lobo", "Gritos
e Sussurros", "Cenas de um
Casamento", "Face a Face"
e "Sonata de Outono", entre
outros.
|
Transformou-se,
com o tempo, em alter-ego do cineasta e ele fez
de sua obra uma das mais importantes da arte no
século XX - influenciando geração após
geração de outros diretores.
Revelado no
Festival de Cannes de 2000, "Infiel" é
um filme sobre adultério, como bem diz o
título, mas é, também, um filme sobre corpos
que vibram e que desejam coisas impossíveis de
serem verbalizadas. Os personagens de Bergman, e
agora de Liv, procuram entender porque, num
determinado momento, tornaram-se tão estranhos a
si próprios.
SOLUÇÕES
Simultaneamente ao
caso de traição de Marianne (Lena Endre,
extraordinária!) com David, amigo de seu marido
Markus, observamos que ela, uma atriz, passa pelo
processo de criação de personagem junto com seu
diretor (Erland Josephson, fazendo aqui o papel
do próprio Bergman). Resta-nos, a partir disso,
descobrir se o fantasma que está sendo expurgado
durante esse processo é o do diretor ou da
atriz.
É possível,
então, ver através da soberba direção de Liv,
como Bergman está inteiro no filme e como este
nos faz lembrar seus grandes trabalhos, com suas
faces cômicas e trágicas misturando-se num
universo que só pode ser penetrado pela entrega
total - dos atores, do diretor, do espectador.
"Infiel"
é um filme para atores na exata medida em que
precisa "encontrar soluções de compromisso
entre aquilo que se representa e a própria ordem
que qualquer trabalho de interpretação
requer" - segundo o crítico português,
João Lopes.
Lena Endre, assim,
funciona como o elemento que liga o mundo real,
com suas diversas variações emocionais, e o
mundo da arte, com os enquadramentos e as
composições reveladoras que Liv, num trabalho
meticuloso, oferece aos espectadores - e que nos
faz lembrar extamente os trabalhos dela,
dirigidos por Bergman.
CONTINUIDADE
Este é o segundo
roteiro do Sr. Ingmar que Liv leva às telas. O
primeiro foi "Confissões Privadas", de
1996. Liv está cada vez melhor como diretora.
Bergman encontrou nela (assim como já havia
feito com Billie August, em "As Melhores
Intenções") alguém para dar continuidade
ao seu trabalho - enquanto não se decide a
voltar à direção.
Uma maneira
afetuosa de dizer à mesma Liv, que fora sua
esposa no passado, que continua confiando nela e
precisando de sua ajuda para exorcizar os
demônios do passado - sem, é claro, os
simplismos dramáticos que invadem o cinema a
todo o momento.
Em Bergman, por
sinal, o amor não é um mero acidente dramático
emocional ou lírico. É um prato cheio para
revelações estrondosas daquilo que permeia a
condição humana mas que só vem à tona diante
das ameaças. Em "Infiel" a ameaça é
muito menos o adultério do que a própria
revelação de um segredo de Bergman. Reside aí
a sua maior força. É um filme contra qualquer
indiferença.
Já
assisitiu a esse filme? Quer dar sua opinião?
|
|
|