JAN CVITKOVIC

Andhye Iore - O seu filme mostra um problema social onde as pessoas envolvidas em vício tem problema de se reintegrar à sociedade. Você acha que a segunda chance existe somente no discurso?

Jan Cvitkovic - Não acho que o problema principal no meu filme seja social. Acho que é pessoal. É o problema de uma pessoa que é o centro da família. Temos o filho, o pai e a mãe e todos eles querem estar juntos. Eles estão procurando por uma relação ideal, mas não sabem como encontrar isto e cometem muitos erros o tempo todo. A razão é, se você olhar para a personagem principal, ele não está totalmente certo se está apto a estar nesta sociedade porque não tem um emprego, não tem certeza do que a mulher e o filho esperam dele. Por isso, ele é tão instável. Sobre a Segunda chance, muitas pessoas começam tratamento, mas acabam voltando a beber. É o mesmo problema dos viciados em drogas.

Você conheceu alguém como Ivan, que o inspirou a fazer o filme?

Sim! Sim! Quando eu era adolescente, passei várias noites no prédio onde o filme foi feito. Em quando tinha 16 anos, vi um pai de família que eu conhecia, por volta das duas horas da madrugada e ele tinha uma sacola plástica com pão e leite caída no chão. Vi em seus olhos que tinha um sentimento de que tinha perdido a vida. O conhecia porque ele roubava o posto dos correios onde eu trabalhava. A cena me impressionou muito e, anos depois, decidi filmar isto.

Em vários filmes independentes, nós vemos jovens sem perspectivas de futuro. O rapaz no seu filme é assim. Por que você acha que isto está acontecendo no mundo todo?

Isto está acontecendo no leste europeu porque não há mais ideais. A única ideologia é a do dinheiro, a material. E isso não é suficiente. Há um espaço vazio agora. Os jovens não tem nada na cabeça.

Você acha que o capitalismo da globalização é o culpado por isso?

Não tenho certeza disso. Mas, penso que o capitalismo não vá durar muito. O ser humano precisa de algo para ir atrás, um ideal. E carro e dinheiro não é o suficiente.

Você acha que a internet pode ser um instrumento para os cineastas sobreviverem no cinema?

Acho que a internet é algo ótimo hoje em dia. Os computadores não estão tão caros e quase todo mundo pode usar a rede mundial de computadores. Há muitas pessoas que não podem viajar do Brasil para a Europa. Mas, podem entrar na internet e conversar com pessoas na Europa. Sobre o cinema, eu não sei porque há um sentimento diferente de assistir na tela do computador e na tela do cinema. Numa sala, há várias pessoas com você e você está dividindo sua intimidade. E, ao assistir no computador, você está sozinho.

Você acha que a limitação é um combustível para fazer bons filmes?

Eu tive muitos problemas com meu filme. Era pra ser um curta metragem. Eu peguei o dinheiro do curta e fiz um longa. Eu fiquei devendo dinheiro para algumas pessoas. Eu achava que o governo me daria dinheiro, mas eles ficaram furiosos com a mudança que eu fiz. Eles chegaram a me processar judicialmente por eu Ter feito um longa e não um curta. Eles queriam que eu cortasse o filme em 50 minutos e eu não fiz isso. Eu mandei o filme pra um festival nacional e não ganhei nenhum prêmio. Mandei o filme pra Veneza e fui premiado e as coisas ficaram melhor. Depois de Veneza, eles ficaram envergonhados em me pressionar para cortar o filme. Sobre a limitação, quando você é obrigado a lutar, você leva seu trabalho mais a sério e fica preparado para fazer sacrifícios.

Qual o contexto do cinema independente hoje em dia?

Acho que não está bom para os filmes independentes porque se você for aos cinemas da cidade, verá que 95% exibem filmes hollywoodianos ruins. Fisicamente, não há muitas salas para os independentes porque eles não são parte da indústria.

Apesar disso, filmes como o seu ainda encontram um bom público no Brasil...

Há pessoas inteligentes que não se satisfazem com o que oferecem nos cinemas comerciais. Você não pode se satisfazer com isso porque no início do filme você já sabe o que vai acontecer até o final. E, há pessoas que querem mais que isso.

A seqüência final é genial com a família no mesmo espaço, em estabelecimentos diferentes, mas não se encontra. Como você teve essa idéia?

Isso é metafórico. Eles vivem juntos, mas não sabem como fazer contato um com outro. Na casa e em outros lugares, eles estão no mesmo local, mas não vêem um ao outro.

Texto, entrevista, foto de Jan e tradução: Andhye Iore, 2001

PÃO E LEITE