ENTREVISTA
Jovem cineasta português
choca em primeiro filme
"O
Fantasma", de João Pedro Rodrigues, trata
da solidão humana e de
sentimentos conflitantes; em entrevista
exclusiva, cineasta fala sobre o filme
Andhye
Iore - A solidão e dificuldade de se
relacionar com as
pessoas são temas cada vez mais comuns em filmes
europeus.
Por que " O Fantasma" tem esse tema?
João Pedro Rodrigues
- O filme é sobre a solidão e não é só da
Europa, até na Ásia há vários filmes assim.
É alguém que está possuído por um desejo
brutal. As pessoas estão cada vez mais sozinhas
e há dificuldade em lidar com a solidão. O
filme é uma história de dois amores
impossíveis. É o amor do protagonista por um
rapaz que é lixeiro e encontra um rapaz que é
nadador. É como se não houvesse racionalidade,
um estágio de evolução antes da racionalidade.
E, quando há uma espécie de esboço de amor,
percebe que está condenado, pois são mundos
completamente distantes e diferentes. Ele fica
cada vez mais sozinho. O filme, em princípio, é
muito carnal. Por isso, é que filmo o sexo com
tanta brutalidade. É sobre um desejo brutal. A
história do filme é como se o corpo, o desejo
se apagasse e a partir de um certo momento ele
usa uma roupa de látex, que usa para
determinadas práticas sexuais. Essa roupa
funciona como um tipo de refúgio onde ele se
esconde do mundo e das outras pessoas. Ele se
torna não um corpo biológico, mas um corpo de
plástico, inorgânico.
A personagem, em princípio, tem
o desejo animalesco mas,
quando passa a ter sentimentos, entra em conflito
por isso?
É um carinho
assim, mas é só um esboço. No fundo, ele é
só uma criança. A descoberta do sexo nas
crianças também pode ser muito brutal. Pra mim,
ele é uma criança que faz sexo. Quem está mais
próximo a ele é um cão e não uma pessoa. É
algo que vem de fora. É como se colocasse as
raízes perto dele. Ele se relaciona com as
pessoas quase sem palavras. Chega, faz o que
quer, quer possuir tudo. Há uma espécie de
desejo fetichista com os objetos que o outro
possui. É um prazer físico de estar com os
objetos que são da outra pessoa.
Você acha que essa solidão
angustiante que as pessoas tem
hoje se deve porque passamos mais tempo se
relacionando com
máquinas (como carro, celular, computador) que
com pessoas?
Ainda tenho uma
certa resistência a internet. Há muitas pessoas
viciadas e, consequentemente, sozinhas por isso.
Ainda gosto de fazer coisas como ler, ir ao
cinema, visitar exposição de arte. Isso tem a
ver com a solidão das pessoas sim.
"Ninguém pode viver sem amor!", é a
frase de publicidade do filme. Ao mesmo tempo, é
clichê e verdadeiro. As pessoas saem às ruas
procurando o amor.
Há alguma referência pessoal em
" O Fantasma"?
Acho que os filmes
refletem as pessoas. Fiz o filme que queria, quis
ser honesto. É um olhar sobre uma determinada
vida, pessoa. Há muitas coisas que são minhas
mas, é inevitável isso. Como é num livro, num
quadro, numa música.
O que você pensa sobre o cinema
americano, uma
vez que os orçamentos estão cada vez mais
absurdos?
Eu gosto de poucos
filmes. Acho que o cinema está muito igual. Não
se sente um olhar. Os filmes são imagens e sons,
além da história. Não há um olhar, há uma
banalização do olhar. Se filma tudo de qualquer
maneira. Uma histeria, não há tempo para olhar
para as coisas. Não há tempo para pensar e para
sentir. Gosto muito do cinema que tem o lado
físico, de sentir o corpo. Acho o corpo humano a
coisa mais bonita que existe no mundo. Na
atualidade, há uma banalização muito grande do
cinema.
Os filmes portugueses estão se
destacando nos
festivais de cinema. Qual o motivo dessa
valorização?
Acho que o cinema
português é feito por cursos individuais. Cada
pessoa faz o que quer e os filmes são muito
diferentes um dos outros. Há muito mais filmes
porque a política cultural mudou. Teve muito
tempo, com um governo de direita, onde não
existia política cultural. Hoje, se faz
curta-metragens, documentários, há mais
hipóteses de se fazer filmes porque o cinema de
Portugal depende do dinheiro do Estado. Não é
possível fazer cinema de 35 mm sem apoio do
Estado. O que caracteriza mais o cinema
português é a diversidade. Os filmes estão
cada vez mais próximos do público. O público
está mais habituado a ver filmes portugueses.
Há mais filmes e há uma renovação com
cineastas e público mais jovem. O que não quer
dizer que os cineastas mais antigos deixaram de
filmar.
Texto,
foto e entrevista: Andhye Iore
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