ENTREVISTA
MASATO ISHIOKA (Japão)

Andhye Iore - O seu filme mostra jovens se envolvendo no sub-mundo do sexo para satisfazer seus desejos de consumo. Você acha que o Japão inspira o capitalismo ou é uma vítima do capitalismo?

Masato Ishioka - É muito difícil para eu responder essa questão... Eles, os jovens, sabem que não são vítimas do capitalismo, mas se você olhar pelo ponto de vista deles, eles não tem nenhuma dúvida desses valores porque a sociedade os leva a isso e eles perseguem esse desejo de se realizarem através do consumo.

Na mídia japonesa, é proibido mostrar os órgãos sexuais.
Por isso, eles são mostrados com uma tarja nos
impressos e tem imagens distorcidas na televisão e cinema.
Você não acha que essa forma de censura e repressão estimula mais ainda os jovens a se interessarem por isso, por ser proibido, como um tabu?

Hoje, até que não existe tanta repressão. O filme procura mostrar que a questão principal é o dinheiro. Eles fazem isso só pelo dinheiro. Há dez anos atrás, existia algo que era chamado de "bolhas econômicas", onde a maioria tinha uma boa situação financeira, então os adultos não reprimiam o sexo porque o maior valor era o dinheiro. Hoje, para conseguir esse dinheiro, o sexo é a maneira mais prática, rápida e rentável.

O cinema asiático é muito humanista. Até que ponto, no caso do Japão, o humanismo se sobressai já que o país é muito desenvolvido
tecnologicamente e poderia fazer grandes produções
com efeitos especiais mirabolantes, como em Hollywood?

Há dois extremos no cinema japonês. Os cineastas mais jovens estão mais interessados nos efeitos especiais e nos avanços tecnológicos, que custam muito mais caro. E o nosso cinema é dominado pelo cinema americano que influencia isso. Então, ou se faz um filme ao estilo hollywoodiano, ou se entra para o cinema independente. Porque são poucos os que conseguem financiamento para fazer um filme. O que floresce é uma produção independente de baixíssimo custo, feita por pessoas que amam o que fazem. Por isso, a visão humanística permanece no cinema independente.

Qual a sua opinião sobre o futuro do cinema americano,
já que a cada ano os orçamentos estão cada vez mais absurdos?

O que pode acontecer é que a mídia pode se expandir para sustentar essa inflação financeira. O mercado de vídeo pode oferecer outras opções, como aconteceu com o DVD, e com o CBD agora. Ou a televisão a cabo. Ou, mesmo, surgir novas mídias. É como um jogo, quando surge uma nova mídia, eles investem ali. Então, todas essas mídias ajudam a pagar uma produção que só o mercado do cinema não pagaria. Em minha opinião, em cerca de dez anos, acho que o cinema hollywoodiano pode enfrentar problemas por essa inflação. Vai chegar num ponto que, mesmo com tudo, com tantas mídias, não será possível cobrir os custos milionários desse cinema.

No final da seção de exibição de seu filme, várias pessoas ficaram emocionadas com o tom dramático de "O Recrutador", mesmo tratando de pornografia. Como você teve a idéia de fazer esse filme, você teve algum contato com esse mercado antes de filmar?

O meu background é de diretor de filmes adultos. Mas, no Japão, quem quer seguir na carreira de cineasta, tem que trabalhar em qualquer tipo de mídia. No Japão, é comum começar a carreira de diretor com filmes de soft core (N.R.: filme erótico mais sugestivo, sem ser explícito). E eu sou um desses cineastas. Em algumas filmagens, eu fiz várias entrevistas com jovens atrizes, algumas até prostitutas. Muitas trabalhavam nessa indústria porque precisavam de dinheiro. Outras, pela necessidade psicológica de se inserirem em algum segmento da sociedade japonesa, eram excluídas. Depois de conhecer essas garotas, resolvi fazer um filme para falar sobre isso e sobre os recrutadores que ficam nas ruas.

Entrevista e fotos: Andhye Iore, outubro/2000