ENTREVISTA
Jovens se prostituem para satisfazerem
seus desejos de consumo em "O Recrutador"
Diretor japonês Masato Ishioka fala sobre seu filme, do humanismo do
cinema asiático, da indústria de Hollywood e do sub-mundo do sexo

Com 40 anos, o diretor japonês Masato Ishioka faz sua estréia em circuito convencional com o filme "O Recrutador", onde jovens japoneses se envolvem com o sub-mundo do sexo para satisfazerem seus desejos de consumo.

Ishioka nasceu em Shizuoka, em 1960, é formado em política e economia pela Universidade Meiji. Sua iniciação ao cinema se deu com despretensiosas filmagens em super 8.


Masato Ishioka: revelando um
cruel problema social japonês

No final dos anos 80, passou a trabalhar na indústria de filmes adultos como assistente de direção e, aos poucos, começou a fazer seus próprios filmes, chegando até a montar sua própria produtora dirigindo, produzindo e distribuindo filmes eróticos. Em 1996, criou outra companhia para se dedicar

ao circuito de longas metragens não eróticos. Assim nascia a Gold View, que exporta filmes japoneses para outros países e trouxe Masato ao Brasil para participar da 24º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

No filme "O Recrutador", dois jovens namorados fogem de casa, numa cidade do interior, porque seus pais são contrários à idéia do casamento entre eles e vão para Tokyo buscarem uma vida melhor que possibilite que se casem. Porém, sem conhecerem ninguém na capital japonesa, sem dinheiro, sem emprego e sem lugar para dormirem, acabam se envolvendo com o sub-mundo do sexo para sobreviverem.

Atsushi, de 20 anos, conhece uma atriz pornô que o leva a trabalhar como agente de novas garotas. Assim, Atsushi passa a fazer parte dos "scout men", rapazes que ficam nas ruas das grandes cidades abordando garotas convidando-as para participarem de filmes eróticos. Enquanto sua namorada, Mari, de 17 anos, conhece uma garota que vende ingressos de festas nas ruas e intermedia encontros de colegiais com homens mais velhos.

Em crise, devido aos novos valores descobertos, o casal se encontra à noite e, aos poucos, se distancia se envolvendo em outros relacionamentos não menos frustrantes. Ishioka conseguiu mostrar uma realidade cruel, com os jovens que cultuam marcas ocidentais e fazem do sexo o caminho mais fácil para estarem na moda. É como um ciclo curioso onde eles fogem da família por falta de perspectiva de futuro e se envolvem com a pornografia. Consequentemente, não conseguem sair desse mundo por falta de perspectiva na sociedade.

Chega a ser, ao mesmo tempo, emocionante e revoltante ver garotas comentando quais roupas de grife vão comprar depois de terminarem o programa com os homens idosos. Em momentos que são obrigadas a enfrentarem a realidade, elas tentam fugir desse mundo, mas já estão completamente consumidas pela culpa e pela desumanidade gananciosa dos produtores de filmes adultos. Assim, se revela a face de que são apenas meninas inexperientes que trocaram uma adolescência por um mundo grotesco que tomou conta de suas vidas.

Andhye Iore, outubro/2000

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