MOHMOUD BEHRAZNIA
Cineasta iraniano se destaca
em São Paulo
Andhye
Iore - Por que você acha que
"Gosto de Cereja" foi
tão repudiado no Irã quando as pessoas deveriam
ficar felizes
por um filme iraniano ser respeitado e admirado
no mundo todo?
Mohmoud
Behraznia - Tentei falar pras pessoas no
Irã, mas na realidade, os filmes de Kiarostami
não tem um público grande no Irã. A minha
idéia era entender porque pessoas de outros
países gostam tanto de Kiarostami e no Irã não
é assim. Depois que eu trabalhei quatro anosm
entendi que nos outros países é igual ao Irã.
Há muitas pessoas que não gostam tanto do
trabalho de Kiarostami. No Brasil, por exemplo,
entendi que pessoas muito intelectuais gostam dos
filmes dele. Tenho certeza que se passar
"Gosto de Cereja" num cinema normal,
muitas pessoas vão sair e dizer que o filme é
ruim, que não gostaram.
Qual a importância social dos
filmes
iranianos fazerem sucesso em outros paíse?
Infelzimente,
Inglaterra e EUA tem relações muito ruins com o
Irã. As pessoas pensam que se existe um sucesso,
depende de fora, de outros países. E, se existe
coisas ruins, também pensam que existe de outros
países. Eu, penso que cada felicidade e problema
com cada pessoa depende de si mesmo. Duerante os
últimos anos, o cinema iraniano tem muito
sucesso em outros países. Algumas pessoas acham
que devem ser uma razão polítia ou econômica
por trás deste sucesso, mas não é. Essa é uma
razão que quis mostrar que os filmes iranianos
não são sobre o governo e que não é o governo
que apoia os filmes. São especialistas
estrangeiros que gostam destes filmes. Mas, ainda
quero defender os iranianos que também tem
conhecimento e são muito curiosos. Durante estes
20 anos era muita limitação e tiveram sucesso
em coisas artísticas.
Qual a relação que você faz
entre o sucesso
dos filmes iranianos e as limitações para
filmar?
Durante estes 20
anos, os diretores e artistas tiveram sucesso
devido às limitações. Eu tive contato com
Andre Wajda, em Berlin. Ele falou que até quando
a União Soviética era uma só, o trabalho era
melhor. Agora que é aberto, é difícil para
trabalhar. Esta é uma das razões pela qual os
iranianos fazem sucesso. O mundo da arte é
limitação. Quando você tem limitação, você
tem criatividade. O outro é que o governo
iraniano estipulou um limite para entrar filmes
americanos no país. Por isso, os iranianos só
vêem filmes iranianos. Os produtores usam esse
dinheiro para fazer os filmes. Antes da
revolução do Irã, os produtores não tinham
dinheiro para fazer cinema. Agora, o cinema
iraniano está crescendo. Por isso, tanto o
cinema convencional e o artístico estão
melhorando.
E como é o cinema comercial no
Irã?
Existe comédia,
filme de guerra, de violência. Há pessoas que
só vão ver estas coisas.
Qual é a cota estipulada para
filme americanos no Irã?
Nos últimos três
anos, dois ou três filmes foram exibidos. O
filme "Seven" foi um deles. Mas, dois
ou três não é nada em 20 anos.
E como os cineastas iranianos
lidam com as rígidas regras sociais iranianas?
No cinema iraniano
nenhuma mulher pode trabalhar sem xale. Essas
são regras da sociedade e os diretores tem que
seguir.
E você é a favor ou contra
essas regras?
Eu quero falar
sobre Abbas Kiarostami... ele fez muito mais
filmes que eu. Ele fala que nunca fez um filme
que entra na casa e nos quartos. Porque se ele
quer mostrar um dormitório, não é normal que
uma senhora tenha um xale em sua casa. Isso não
é realidade e, por isso, ele toma outro caminho.
Se você olhar os filmes dele, não há
dormitórios. Por isso, os filmes são realidade.
Por isso, alguns diretores usam alguns caminhos
para não terem esse problema. Se você ver os
filmes dos últimos dez anos, quase todos são
sobre crianças porque fazer um filme sobre
criança é muito mais fácil. Você não vai
falar sobre religião entre paredes no filme. E,
se quer falar, tem falar a verdade. Se não pode
falar a verdade, não fala nada. (nesse
momento, Mohamud pede para eu desligar o gravador
para falar sobre outras coisas)
Qual o futuro do cinema
americano, uma
vez que os orçamentos estão cada vez maiores?
Primeiro quero
dizer que Hollywood é muito perigosa para o
cinema independente. Acho que em 100 anos de
cinema no mundo, há pessoas que tem coisas para
falar e podem falar. Nesses lugares, não tem
impactos que tem em outros. Por isso, acho que o
cinema latino americano, da Ásia e África deve
estar muito atento a responder ao cinema de
Hollywood. Como aqui na Mostra onde os filmes
não vem de Hollywood. Os americanos tem um
problema. Há um movimento circular acima acima.
Abaixo, o círculo está evoluindo. Nos EUA, os
filmes são muito rápidos, enquanto nos outros
países os filmes são mais calmos e falam coisas
importantes que duram um bom tempo. Essa rapidez
é um perigo para o cinema americano. É como um
teto que está caindo na própria cabeça deles.
Como anda a sua carreira além
desse documentário?
Eu já comecei a
filmar. Mas, lógico fiquei com esse caminho de
fazer documentários que gosto. Quero fazer outro
documentário sobre duas mulheres que casaram com
um homem. Normalmente, é o contrário. Mas,
encontrei um caso em que duas mulheres gostam de
ficar com o mesmo homem. Acho que isso é uma
nova independência da mulher.
E qual é o seu próximo filme?
Quero fazer um
longa sobre um motorista de táxi em Teerã.
Apesar de ter referência a "Taxi
Driver", de Scorcese, é totalmente
diferente. Todos os filmes que você vê sobre o
Irã, você vê algo que não é correto. Eu
quero mostrar homens e mulheres do Irã, que sã
bons. Há muitos filmes negativos. Estou chateado
por isso. "Motorista de Táxi" é o
nome do filme. Tem esse nome porque recebemos
muitas palavras do francês. E, em iraniano, é
"Choffeur de Taxi".
Andhye
Iore, outubro/2000
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