ALENTO
Um sopro de vida
"Alento"
revela Damien Odoul, um cineasta preocupado em
desvendar, com uma poesia brutal, os mecanismos
que conferem ao cotidiano um implacável sabor de
derrota
Paulo
Campagnolo, agosto 2002
Um cinema que desvenda, ao
contrário de embelezar. Um cinema que cria
tensão entre o que se vê e o que se vive -
dissonâncias elaboradas sem fazer disso, no
entanto, apenas um triunfo estético. Um cinema
quase no limite do descontrole, do
desconfortável, da histeria - denunciando, não
obstante, o que há por trás de todas as
aparências exatamente com a sua aparente
crueldade.
Esse é um cinema
que me interessa ver. E quando penso nisso, penso
no Fassbinder de "A Lei do Mais Forte",
"Roleta Chinesa", "Berlin
Alexanderplatz", "O Desespero de
Veronika Voss", entre outros, no François
Truffaut de Os Incompreendidos", em Robert
Bresson de todos os filmes (Ave!), em Bruno
Dumont de "A Vida de Jesus" e "A
Humanidade" (!), no Tsai Ming-liand de
"Vive L' amour" e "O Rio", e
em Robert Guédiguian de "A Cidade Está
Tranqüila", só para ficar com alguns.
Porque a baba açucarada já temos aos montes
através de Hollywood e sua "cultura
popular".
Para encher de
ferocidade o meu coração, contra qualquer
consevadorismo, é preciso filmes como
"Alento", que está em cartaz nos Cines
Aspen, como parte do Projeto Um Outro Olhar. Ao
ver este filme, me pareceu evidente que todas as
tentativas (e eu poderia chamá-las, estas
tentativas, de ações pequeno burguesas, se nos
anos 60/70 ainda estivéssemos) de embelezamento
no cinema no trato de uma suposta
"realidade" deram todas com os burros
n'água.
Lembremos de
Dumont e da paudada que levamos com seus dois
filmes, com aquelas lições quase ao cúmulo do
insuportável sobre a banalidade do cotidiano.
Lembremos, até, de Buñuel que ao retratar com
uma beleza invulgar a burguesia, desvendava o
vazio da classe que escorregava nas próprias
cascas da banana que comia - perdendo-se, no
mais, no próprio labirinto/muro que construiram
para separar seu mundo imperturbável dos
"outros".
São exemplos
poucos, mas que conferem a dignidade de certos
autores. Dignidade artistica aliada a um pensar
constante sobre a humanidade e suas
"consequências".
Damien Odoul,
o jovem diretor de "Alento", é um
desses. A julgar por este seu primeiro trabalho .
Sintético, seu
filme é quase um média-metragem: 77 minutos no
total. Certeiro, seu anti-herói, como Doinell,
não sabe ao certo pra que serve o mundo e nem
que papel desempenhar neste mundo, uma vez que
isolado numa comunidade no interior da França,
num tempo qualquer que se esvai.
Nós o pegamos
despreparado. A bofetada vem da maneira como
Odoul vai revelar este garoto (o jovem não
profissional Pierre-Louis Bonnetblanc) num
cotidiano masculinizado ao extremo, visceralmente
exposto. Estamos exatamente no momento em que
David, o garoto, vai tornar-se adulto.
Esse tema, o rito
de passagem, é um dos mais visados pelo cinema.
Grandes filmes e muitas bobagens já foram
feitas. Odoul evita o "lugar-comum" -
isto é: evita o drama pelo drama (que já seria
evidente neste caso).
Ele passa pelas
aparências, resvalando-se nelas apenas, para
descortinar num grau elevado (e de uma harmonia
implacável) uma brutalidade que faz parte de
qualquer ser humano, em qualquer lugar do mundo.
Esse cinema merece, por isso, a minha atenção.
Uma atenção renovada, entretanto, cada vez que
leio nos jornais os filmes que estréiam todas as
sextas-feiras, no Brasil.
E se esse cinema
nos oferece, com o devido distanciamento (afinal,
cinema é um negócio de gente morta e a
realidade está lá fora, mais viva do que nunca,
empurrando-nos para a consciência aterradora das
coisas como elas são), um retrato de uma
espécie de miséria humana (são muitas) que é
apenas um raio, um desvio de rota, um instante
feroz, então este cinema tem meu apreço.
Se estou neste
mundo e tenho uma consciência (por menor que
seja) de que por trás de todas as aparências
existe um outro mundo a ser desvendado e
entendido (como em "Veludo Azul", de
David Lynch), então só posso aplaudir a
"atitude" de alguém como Odoul ao
expor feridas que estão cada vez mais abertas,
ao falar mais através das vísceras e da
brutalidade do que através de um discurso
humanista, num palanque qualquer.
Está bastante
claro que ao falarmos sobre a impossibilidade,
sobre o desalento que o homem contemporâneo
"conquistou", da incomunicabilidade e a
falta de afeto entre nós, estamos fazendo a
denúncia de uma desesperança e que alguma coisa
precisa mudar.
Talvez, quem sabe,
seria absurdamente estúpido acreditar que esse
"painel" degradante a que chegamos
mudasse algum dia. Quem quiser acreditar que seja
possível, tem todo o direito. Mas não se pode
escamotear a verdade por muito tempo.
"Alento"
confirma, no mais, através de uma poesia
arrebatadora, que ao menos podemos ter esperança
de encontrar, ainda, no cinema, gente de verdade
falando sobre a velhas e eternas lições que
ainda, curiosamente, não foram aprendidas: nem
pelo indivíduo, nem pelo Estado, nem pela
política, nem pela liberdade. Se você decidir,
depois disso, mudar alguma coisa, isso é com
você. Boa sorte!
Já
assisitiu a esse filme? Quer dar sua opinião?
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SERVIÇO
"Alento"
(Le Souffle)
Direção:
Damien Odoul
França/2001
77 min.
Preto e branco
Prêmio do
Júri Veneza/200l
CONTATO
Paulo
Campagnolo
Fones: (44) 267-5679 ou 3026-3978
p.campagnolo@wnet.com.br
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