PROJETO UM OUTRO OLHAR
Paulo
Campagnolo, 25 de julho de 2002
Sábado agora
teremos a última sessão do mês de julho no
Projeto UM OUTRO OLHAR. O filme é uma das
obras-primas do dinamarquês Carl T. Dreyer, O
VAMPIRO (1932).
Dreyer é
conhecido como o cineasta da vida interior e
primou, na quase totalidade de seu trabalho, em
dar tremenda importância ao ator. Não é para
menos que René Falconetti, a genial intérprete
de O MARTÍRIO DE JOANA D'ARC, acabou padecendo
num sanatório depois da realização do filme.
Durante as filmagens, Dreyer a obrigava a ficar
trancada horas a fio dentro de quartos escuros e
só quando a sequência ia ser filmada libertava
sua atriz - que surgia em cena de forma
extraordinariamente dramática e como que numa
espécie de transe. Além disso, obrigava-a a
usar algemas que faziam seus pulsos sangrarem e,
também, a raspar a cabeça. Falconetti nunca
faria outro filme e O MARTÍRIO DE JOANA D'ARC
é, talvez, o mais belo filme do cinema (pode
parecer exagero, mas depois de ver o filme não
há outra coisa pra se dizer).
Ele realizou,
também, filmes que foram fracassos na época de
seu lançamento: como DIAS DE IRA (43), A PALAVRA
(55) e GERTRUD (64), seu último trabalho.
Também O VAMPIRO
foi um fracasso em 32. Baseado no livro de
Sheridan Le Fanu e com fotografia do genial
Rudolph Maté, o filme dividia crítica e
público e levou quase 30 anos para ser
reconhecido como uma obra-prima.
Dreyer influenciou
todo o cinema nórdico (inclusive Bergman) e,
mais recentemente, Lars von Trier (de MEDÉIA,
EUROPA EUROPA, ONDAS DO DESTINO e OS IDIOTAS -
como signatário do Dogma 95) prestou-lhe
homenagem com DANÇANDO NO ESCURO onde a cantora
Björk recebe uma Falconetti de frente e encarna
uma emigrante tcheca que está ficando cega e
sonha em estrelar um musical nos EUA dos anos 60.
O filme, feito com tecnologia digital, foi um
sucesso e Trier ganhou a Palma de Ouro em Cannes
2000 e Björk foi escolhida melhor atriz (naquele
que, segundo ela, é seu primeiro e último
trabalho - assim como Falconetti!).
E por falar em
tecnologia digital, é curioso perceber que à
medida em que o cinema foi desenvolvendo novas (e
ousadas!) tecnologias para a realização de
filmes cada vez mais espetaculares, mais vazios
foram ficando estes mesmos filmes. Se levarmos em
consideração que o avanço
"científico" obtido na indústria
cinematográfica à partir dos anos 60/70 acabou
por esvaziar os filmes subseqüentes de
originalidade, de rigor, de honestidade e mesmo
de humanismo, então poderemos entender em que
exata medida o cinema hoje (com algumas
exceções, é claro - e algumas verdadeiramente
surpreendentes) exala uma falsidade que não
encontra apoio nem na sua capacidade (que já
foi, um dia, há tempos, arrebatadora) de ser
apenas um suporte para diversão - diversão
inteligente, devo acrescentar.
O VAMPIRO, de Carl
T. Dreyer, é um desses filmes que, realizados
pouco depois do cinema sonoro tornar-se uma
necessidade, acaba por resistir ao máximo à
palavra, funcionando de maneira simples e direta
(e, por isso, genial) na sua busca de tornar a
obra cinematográfica a mais pura possível (como
já havia feito nos filmes anteriores). A força
desse diretor reside nisso: cuidado com a imagem,
rigor de pensamento, além de suas obsessões
temáticas como a presença do mal no mundo, o
sacrifíco humano e a possiblidade de transmitir
a experiência do sagrado. Dreyer foi um mártir
e realizou verdadeiros milagres. Quem for
sábado, às 10 horas da manhã nos Cinemas Aspen
ver O VAMPIRO assistirá a um desses milagres.
Quanto ao MARTÍRIO DE JOANA D'ARC, não sendo
possível a sua exibição em película, prometo
uma cópia em VHS ou DVD para exibir em algum
lugar - talvez na própria tela do cinema, para
que todos possam ver uma obra perfeita do cinema.
E não foi
possível entrar com A PROFESSORA DE PIANO
amanhã - conforme havia uma suspeita de
possibilidade. Mas é uma promessa que na sexta,
dia 02 de agosto, voltamos com o Projeto em
horários noturnos e o filme com Isabelle Huppert
é prioridade.
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