DRAMA
Um filme de fetiches,
mutilação e redenção
O
cineasta Michael Haneke incomoda o público com o
premiado "A Professora de Piano"
Andye Iore,
2002

"A Professora de
Piano": assista, se puder!
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O filme
"A Professora de Piano" é, sem
sombra de dúvida, um dos melhores filmes
do ano passado e também um dos mais
doentios. Dirigido pelo alemão
Michael Haneke (de "Código
Desconhecido"), a produção foi
premiada no Festival de Cannes de 2001 e
trata de dominação e opressão em
relacionamentos tanto amorosos
como familiares.
É uma
história de pessoas que tem dificuldades
em expressar seus sentimentos, numa
conexão de amor e ódio.
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Adaptado do
romance homônimo escrito em 1983 por Elfriede
Jelinek, o filme - num segundo plano - discute
como o sexo pode ser encarado como uma doença
que consome e muda a vida das pessoas. O palco é
a cidade de Viena, na Áustria, onde Haneke
passou parte de sua adolescência.
No enredo, Erika
Kohut (interpretada por Isabelle Hupert, de
"Amateur") é uma professora de piano
na faixa dos 40 anos que é tratada como uma
criança e oprimida pela intrometida mãe.
Conseqüentemente, Erika age com frieza e
impaciência com seus alunos.
Por trás da
aparência fria e indiferente, se esconde uma
mulher com bizarros fetiches sexuais. A talentosa
pianista passa seu tempo livre em cabines de peep
shows cheirando lenços sujos com "prazeres
masculinos" e andando no drive in observando
casais fazendo sexo dentro dos carros.
MUTILAÇÃO
O filme tem cenas
de fazer corar sádicos e voyeurs. Revelando, em
muitos momentos, que quanto mais culta a pessoa
mais baixo pode ir, Haneke (na foto abaixo com
Huppert) fez um filme perturbador e totalmente
cru(el).
As fantasias de Erika vão
além do voyeurismo e pensamentos
sadomasoquistas. Ela cria seu próprio conceito
de amor e chega a se mutilar sexualmente em busca
de um prazer que dura poucos segundos, se penteia
e vai jantar como se nada tivesse acontecido. É
claro, ela limpa o sangue antes.
O contato com um
hábil e charmoso aluno desperta a possibilidade
de concretizar suas fantasias. Com o interesse do
rapaz, ela fica atormentada, repreende o
pretendente mas acaba aceitando desde que possa
dominar o relacionamento ditando as regras por
escrito.
Há um conflito de
interesses e sentimentos. Enquanto ele tem uma
paixão pela talentosa artista, ela sai da
posição de dominadora à submissão num ritmo
doentio como se o amor fosse feito por coisas
banais.
Depois de deixar
claro que o talento e a devoção ao piano
superam os sentimentos, o filme termina com uma
desilusão numa bela metáfora de um ditado
popular simbolizado por um punhal no coração.
Apesar de explorar os limites sexuais, "A
Professora de Piano" não mostra o sexo
explicitamente e nem nudez. Justamente por isso,
o filme é admirável.
ESTILO
O cinema de
Michael Hanake é bem realístico. Trata de
violência sem mostrar tiros ou explosões. O
cineasta manipula as emoções fazendo com que o
público se contorça incomodado nas cadeiras do
cinema.
Nascido a 23 de
março de 1942, em Munique, na Alemanha, Haneke
é filho de pais ligados ao cinema a mãe
era atriz e o pai diretor. Depois de passar a
adolescência em meio ao subúrbio de Viena,
tentou sem muito sucesso entrar no show business
como ator e pianista.
Foi estudando
filosofia e psicologia, que conquistou
embasamento inquestionável para iniciar a
carreira de cineasta, discutindo as relações
humanas e o direcionamento na vida social. No
final dos anos 60 e início dos 70, trabalhou na
televisão alemã como diretor, editor e
roteirista. Sua estréia na direção foi em 1973
com "After Liverpool".
Mas, foi somente
em 1997 que o mundo foi molestado com o estilo
violência emocional do cineasta. O filme
"Violência Gratuita" ("Funny
Games") correu festivais internacionais
mostrando uma família feliz sendo torturada por
jovens inconseqüentes. A crítica chamou a
atenção referenciando ao clássico
"Laranja Mecânica", de Kubrick.
BELDADES
Em 2001, já de olhos bem
abertos, os cinéfilos foram bombardeados com uma
onda de simbolismos, hábitos e preconceitos
sociais presentes no dia-a-dia de qualquer
pessoa. "Código Desconhecido"
("Code Unknown") jogou na tela atitudes
comuns e banais, mas fortemente acusadoras.
Haneke acusava seu próprio público que saía do
cinema desconcertado.
Foi com
"Código Desconhecido" que Haneke
iniciou seu invejável processo de trabalhar com
talentosas e belas atrizes francesas
contemporâneas. Juliette Binoche (de "A
Liberdade é Azul") é a atriz principal de
"Código Desconhecido", onde vários
personagens tem ligações sem saberem e vivem
próximos ao limite.
Em "A
Professora de Piano", Isabelle Hubert
mostrou uma beleza glacial e extrapolou na
atuação, o que rendeu o prêmio de melhor atriz
em Cannes. E, no filme mais recente do cineasta,
"Le Temps des Loups", a estrear ano que
vem, além de repetir Hupert o elenco também tem
Beatrice Dalle (de "Uma Noite Sobre a
Terra"), o conjunto de boca e olhos mais
sensual que já surgiu no cinema.
Se você não
está acostumado a assistir filmes que joguem na
cara coisas que você faz questão de esconder,
fique longe dos filmes de Michael Haneke. Mas, se
você é daqueles que admiram um cineasta que
consegue mexer com as emoções do público
através de simples imagens numa tela, corra para
assistir "A Professora de Piano".
Só a cena da
mutilação no banheiro, já vale o ingresso por
ser uma das cenas mais fortes já feitas no
cinema. Mas, curiosamente, uma mutilação
sugerida que só os grandes mestres são capazes
de criar.
Já
assisitiu a esse filme? Quer dar sua opinião?
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