OPINIÃO
Espelho! Espelho Meu!

Por Rodrigo Oliva, graduado em cinema

Sete anos de retomada do cinema brasileiro. O tempo passa, a continuidade da vida segue o seu percurso e a roda viva ... onde anda? Muito próxima e ativa ao pensarmos sobre o cinema brasileiro. São sete anos, desde a apresentação de Carlota Joaquina, que soergueu do mergulho maldito do início dos anos 90.

O que esses sete anos representam? Que momentos cinematográficos podem ser julgados tão importantes quanto nossa contemporaneidade cinematográfica? Ou a maldição é algo intrínseco ao cinema brasileiro?

Há alguns anos atrás, assisti uma entrevista com o produtor Luiz Carlos Barreto no programa Roda Viva da Tv Cultura. Sabiamente, Barreto disse a seguinte frase: "Um país sem cinema é como uma casa sem espelhos."


"Cronicamente Inviável" e "Abril Despedaçado": comunicações diferentes com o público

Desmascarar essa frase é a grande lição para entender o cinema, entender a universalidade que existe por trás dessa manifestação. Sempre buscamos, ver como o Irã, Hong Kong, México manifestam-se através da linguagem cinematográfica. Como tal temática é discutida expressivamente por determinado diretor. Cinema é isso, um diálogo! Um momento conteudista recheado de expressividade. Expressividade manifestada pelas possibilidades da sua própria linguagem.

E por quê não gostar de cinema brasileiro? São tantos argumentos e os mesmo já se espelharam demasiadamente que para o discurso sobram redundâncias. Vejo que a educação cinematográfica é equivocada e o entendimento do que sejam duas horas dentro de uma sala de cinema passa pelos mesmos erros. Um filme é um quebra-cabeça, é um jogo cheio de inquietações, um espaço, um tempo e ações ávidas de decodificações. Entrar nesse processo lúdico é a chave para gostar de cinema, dialogar com o ruim, dialogar com o desprezível. E por quê só amar o cinema brasileiro?

Recentemente, assisti o filme Cronicamente Inviável, achei de intenso mau gosto. E que muitos amaram, existem milhões de argumentos e vi várias manifestações a favor e contra esse filme. O filme foi feito para incomodar e não gostar dele. Será que não entendi o filme? Mas o filme dialogou comigo de uma forma diferente do que com outra recepção. Isso é bacana!!! Você ter argumentos para numa discussão opor seus pensamentos. Imagine se todos gostassem do mesmo filme, não haveria debate.

Dizer que o cinema hollywoodiano é de ruim passa por outro equivoco. Todo filme diz. O cinema americano, por ser comercial possui uma questão ideológica e cultural da mesma forma que o cinema iraniano, que é referenciado por uma outra face ideológica. O entendimento dessas questões e a busca de respostas é a atitude necessária nesse processo. O problema é reduzir o filme a gostei e não gostei.

Daí ser necessária uma educação cinematográfica. Mesmo ao sabor de pipocas, ao ronco de motores, a adrenalinas descarregadas, a momentos sublimes, trazer o filme para o diálogo é a chave para o entendimento e a construção do cinema enquanto processo de significação, engrandecimento particular e de conhecimento.

E o cinema brasileiro? Ele, como todos que correm a margem do Hollywood, deságua nas águas malditas. Há culpados? Cineastas, produtores, receptores ... Não existem culpados, não existe entendimento. A frase de Barreto é a primeira lição. A chave para um indivíduo compreender o porquê ver filmes deve ser encarado por esse viés.

A segunda lição está nos filmes. Buscar enxergar como essas histórias são contadas, como esses olhares tão diferentes são culturalmente expostos.

A terceira lição assistir Abril Despedaçado e entender que caminhos, que recursos expressivos foram utilizados para concretizar aspectos conteúdistas. Descobrir isso é algo transcendente que eleva o conhecimento para um patamar do sublime. Não darei as respostas, procuro trazer inquietações. Mas ao sair do sessão do filme consegui ver o quanto o cinema brasileiro é maldito. Ironia à parte, Abril Despedaçado é construído com paixão e faz com que a gente veja. Um filme que reflete.

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