O SENHOR DOS ANÉIS
Heróis de Verdade

Algumas obras são eternas e obrigatórias. É claro que a frase anterior soa como e é um deslavado chavão. Mas se aplica como uma luva ao "Senhor dos Anéis", famosa trilogia de livros escrita por J.R.R. Tolkien ao longo de uma década e meia, lançada nos anos cinqüenta e cultuada por zilhões de pessoas ao redor do globo.

E o inevitável aconteceu: fizeram um filme. Porém a mesma diferença que existe entre o Um Anel e uma jóia comum existe entre "Lord of the Rings – The Fellowship of the Ring", filme que acaba de estrear no Brasil e os demais filmes feitos à partir de livros consagrados: superioridade absoluta.

Sim, é isso mesmo, o filme é sensacional!! Extremamente bem-feito, tão fiel quanto possível ao livro, e simplesmente arrebatador são alguns dos elogios que podem ser feitos, mas que não expressam o quanto o filme ficou bom.

É claro que quem leu o primeiro volume da trilogia vai perceber algumas alterações, como, por exemplo, a "simplificação" da viagem entre o Shire e Bree e a conseqüente exclusão de Tom Bombadil da trama, mas o mais importante é que em nenhum momento tem-se a impressão de que estas alterações foram feitas por preguiça, falta de respeito ou por razões cosméticas, mas sim por limitações inerentes à conversação entre as mídias.

Porém, mais importante ainda é a certeza que toda a adaptação está sendo guiada e regida por um único fator: respeito incontestável por uma obra superior, que está acima de seus pares em diversos fatores. E este respeito ficou claro desde o começo das filmagens, seja na escolha do elenco, na decisão de filmar a trilogia toda em uma única vez, ao longo de dezoito exaustivos meses de filmagem, ou na extremamente acertada escolha de locação, que levou o filme para o isolamento da Nova Zelândia, bem longe das pressões e frescuras de Hollywood.

O desempenho do elenco, liderado por Sir Ian McKellen, é acima do esperado; a caracterização dos personagens foi extremamente fiel ao livro, seja na integridade de Aragorn, na fidelidade quase canina de Samwise, na divertida irascibilidade de Gimli ou no conflito interno de Boromir; as recriações de Rivendell e de Lothlorien, que dão forma à imaginação de gerações de leitores, estão à altura das expectativas mais elevadas; as batalhas, com especial destaque ao combate contra um troll nas Minas de Mória, ficaram excelentes; as pequenas alterações feitas no combate final amarraram de maneira precisa a trama para criar a expectativa necessária ao próximo filme, que deverá estrear no Brasil dentro de um ano – e lá vai mais uma contagem regressiva.

Porém, ao longo deste ano cabe pelo menos uma (re)leitura dos livros, bem como das demais obras de Tolkien – a Martins Fontes havia programado o lançamento de "Contos inacabados" inicialmente para Novembro/2001. Porém, devido a "problemas editoriais" o lançamento foi adiado para este mês; ou quem preferir pode jogar uma bela campanha de AD&D, RPG clássico francamente inspirado no universo de Tolkien, ou então de MERPS, sistema de RPG totalmente ambientado na Terra-Média.

Aliás, a influencia de Tolkien se estende aos mais diversos ramos da cultura popular da 2º metade do século passado; artistas dos mais variados segmentos prestam homenagens e honrarias à obra de Tolkien; na Inglaterra o "Senhor dos Anéis" é o livro mais vendido, exceto a Bíblia; dezenas de músicas fazem menção a fatos e personagens da mitologia criada por Tolkien para a Terra-Média; centenas de livros e teses acadêmicas já foram baseados nos escritos de Tolkien; diversos filmes trazem a marca de Tolkien em seus enredos ou personagens, seja na descrição de raças ou de locações, e até mesmo vilões de HQ são batizados à partir de personagens da Terra-Média.

Não é para menos. A trilogia "O Senhor dos Anéis" reúne todos os elementos necessários não apenas para um bom livro, mas sim para uma grande história, que ultrapassa as simples palavras escritas: é um épico de proporções gigantescas, envolvendo personagens densos e bem-definidos, com representações do mal extremo, seja através da corrupção dos mais nobre ideais ou por simples e pura natureza maligna, assim como das mais louváveis qualidades do ser humano, como a bondade, a abnegação, o sacríficio por um ideal maior ou a dedicação extrema a uma causa. Ao ler a trilogia, experimentamos os mais diversos sentimentos, que vão da repulsa total à extupefação perante à grandiosidade dos atos de heroísmo.

Pode soar piegas e antiquado, mas os heróis do "Senhor dos Anéis" são heróis de verdade, dispostos a abrir mão de tudo para fazer o que é correto. São personagens motivados por ideais maiores do que eles mesmos, por obrigações e deveres com raízes na própria essência de suas vidas; e talvez seja este tipo de postura que faz a diferença, o que torna simples personagens de papel em mitos.

Por André Luis Pavesi Perez de Moraes
Contato: andrezao.73@terra.com.br

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