TRASH MOVIES
O culto ao lixo
Baixo orçamento e criatividade marcam gênero de cinema onde cineastas chegam a filmar três produções diferentes ao mesmo tempo, com mesmo cenário e elenco

Horror, humor negro, monstros, ficção científica, garotas semi-nuas, tudo misturado resultando em filmes realizados com baixíssimo orçamento. Os trash movies, também conhecidos como filmes B, são muito cultuados em todo o mundo.

Apesar de ser um gênero de cinema não muito divulgado pela mídia, tem diversos ícones, como John Waters, Tobe Hooper, Dario Argento, John Carpenter, Russ Meyer, Mario Bava e Ed Wood. Com filmes inspirados nas clássicas produções de horror em preto e branco da década de 50 da produtora americana Universal e da britânica Hammer, os trash movies são a mais pura essência do cinema: diversão.

Faltando dinheiro e sobrando criatividade, os diretores conseguem a façanha e o absurdo de rodar até três filmes diferentes ao mesmo tempo utilizando o mesmo cenário e elenco. Com roteiros esdrúxulos e monstros muitas vezes feito de papelão e isopor (que causam crise de riso nos atores antes das filmagens), os diretores conseguem fazer com que uma idéia muito particular seja cultuada por milhares de pessoas.

O maior cineasta de filmes B de todos os tempos é Roger Corman, que já dirigiu dezenas de filmes e, atualmente, é um rico executivo dono de uma produtora de cinema. Corman teve fases de filmes espaciais e de semi-pornográficos. Mas, uma de suas melhores fases foi a que se inspirou nos livros de Edgar Allan Poe.

NERD

A mais famosa produtora de trash movies é a americana Troma Movies. Com um catálogo eclético, com filmes de dinossauros, passando por por gangues de adolescentes, penitenciárias femininas, musicais de rock e até os tradicionais filmes de ficção científica com pratos de cozinha servindo como disco voador. Um detalhe curioso é que as cidades nos filmes da produtora se chamam Tromaville.

Títulos como "Invasão dos Padres Espaciais", "Baby Doll Assassino", "Tromeo & Julieta" e "Monstro no Armário" são exemplos do conceito da empresa, que virou cult graças ao filme "Toxic Avenger" (1984). Nesta produção, um faxineiro nerd que trabalha numa academia de ginástica para ricos é constantemente humilhado pelos alunos. Acidentalmente, ele cai num tanque com produtos químicos, fica deformado e com uma super-força física. Juntamente com seu aliado – o esfregão de faxineiro (!) – passa a se vingar, matando todos que o humilhavam antes de se tornar "o tóxico herói vingativo".

As melhores publicações no gênero são a revista Fangoria e o fanzine Psychotronic. A Fangoria existe há 25 anos e dá mais atenção às grandes produções, mas sempre traz alguma coisa sobre os filmes menos populares e literatura de terror. O Psychotronic existe há 15 anos e é totalmente voltado para o trash movie e suas variações como o exploitation (horror com pornografia) e o gore (horror mais forte e violento). O fanzine traz matérias sobre filmes de cinema e caseiros, muitos dos quais nunca serão exibidos em circuito algum.

COFFIN JOE

A distribuidora americana Something Weird possui um vasto acervo eclético com grandes possibilidades de se achar qualquer filme de horror que tenha tido algum tipo de repercussão. Em seu catálogo, estão vários filmes de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. A distribuidora foi a responsável pelo sucesso e reconhecimento de Zé do Caixão nos Estados Unidos. Após comprar os direitos de três filmes de Mojica, os empresários se assustaram com o grande número de encomendas e adquiriram logo outros filmes do brasileiro, dando páginas de destaque a Coffin Joe (como é chamado nos EUA) no catálogo. A partir disso, até Stephen King fez declarações públicas idolatrando Zé do Caixão.

No outro lado da situação está o catarinense Peter Baiestorf, da Cannibal Produções. Produtor, editor, ator, diretor e divulgador de suas produções rodadas com câmera VHS, o cineasta independente segue as tradicionais regras dos trash movies: nenhum recurso e muita criatividade. Em um de seus filmes, o FBI tem um escritório no interior de Santa Catarina e os agentes usam uma Rural caindo aos pedaços como transporte para combater uma invasão alienígena. Dá dor na barriga de tanto rir.

Os trash movies são divulgados em festivais pelo mundo. O mais importante é o Avoriaz, na Itália, onde são apresentadas produções antes de entrarem em circuito comercial. O Brasil também já teve um festival voltado para os filmes de horror. A Horrorcon aconteceu pela primeira vez em 1993, na Gibiteca Henfil, em São Paulo, com a realização de palestras, exibições de filmes clássicos e caseiros, exposições e sessões de RPG.

MÚSICA

Grupos famosos de rock também foram influenciados pelos trash movies. O caso mais explícito é da banda americana The Cramps. As letras, a postura, o visual, as capas dos discos, tudo na banda é relacionado aos filmes B. Além de Lux e cia, também fizeram música com trash movies os Ramones, Alien Sex Fiend, The Meteors, Misfits e White Zombie.

Uma situação curiosa originada por esses filmes foi o estilo de atriz denominada Scream Queen. São atrizes que se especializaram em gritar e passam quase todo o filme correndo de monstros assassinos e psicóticos gritando como loucas. Existe até concurso de Scream Queen.

Apesar dos melhores filmes do estilo serem das décadas de 60 e 70 e não estarem disponíveis em vídeo no Brasil, ainda é possível assistir a bons (ou ruins, depende de seu ponto de vista) trash movies. Com sorte e garimpando bem nas locadoras, pode-se encontrar "Frankenhooker" (1990), "Fome Animal" (1992) e "Marte Ataca" (1997).

Andhye Iore