O VOTO É SECRETO
ENTREVISTA
Texto
e fotos: Andhye Iore, 2001
O SUPERS entrevistou o cineasta
iraniano Babak Payami durante a
25º Mostra Internacional de Cinema de São
Paulo, quando o diretor esteve no Brasil
divulgando "O Voto é Secreto". Fumando
muito e com bom humor revelando uma das
essências de seu filme Payami fez
questão de só falar com jornalistas que
tivessem assistidos ao seu filme.

Babaki Payami: fazendo as
pessoas pensarem através de coisas
simples e engraçadas
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Andye Iore - Seu
filme é muito simples, os diálogos nele
eu posso ter com você ou com qualquer
outra pessoa. Você teve um conceito para
fazer um filme assim?
Babak
Payami - Realmente eu não sei. Se
você me perguntar se eu tento expressar
as coisas da maneira mais simples
possível, eu responderei que sim. Tento
ser menos complicado possível. Mas,
também tem outro aspecto.
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Acho que se você
for fundo num subjetivo, você chega num no menor
denominador daquele conceito. Você tenta achar o
mais básico de tudo. Isso significa que você
vai tão fundo na simplicidade das coisas, que se
torna complicado. É a teoria da relatividade. Se
você olhar a existência no menor denominador,
vai achar molécula, átomo, elétrons e neutrons
que são coisas simples bem pequenas, mas são
bem complicadas, bem representativas do universo.
Então, eu acho que tento expressar da maneira
mais simples, não só para me comunicar com o
máximo de pessoas possível, mas também
representar um pouco da complexidade das coisas.
O filme mostra um tema social
político e você usou uma mulher para isso.
Você acha que o cinema é um caminho para acabar
com os problemas que as mulheres sofrem no Irã?
Não acho que as
artes em geral, muito menos o cinema, pode mudar
o mundo. Acho que só fazemos a nossa parte
expressando nossas idéias ou os desconfortos em
certas situações. Estamos contribuindo
informando as pessoas ou estimulando os
pensamentos. Não acho que estamos habilitados
para mudar algo.
Os filmes iranianos ainda tem um
bom público no Brasil. Por que você acha que
isso acontece uma vez que são duas culturas bem
diferentes?
Acredito que as
pessoas pelo mundo tem muito mais em comum que
diferenças. O problema é que as agendas
políticas enfatizam mais as diferenças que as
coisas em comuns. Não acho que como seres
humanos, haja diferenças entre iranianos e
brasileiros. Somos mais parecidos que diferentes.
Geralmente, os filmes iranianos lidam com a
humanidade e não com um tempo, lugar ou pessoas
específicas. Isso também cabe na sua primeira
pergunta sobre a simplicidade. É o que faz os
filmes iranianos tão interessantes.
De certa maneira, podemos dizer
que quando há dificuldades para se filmar, sem
dinheiro, isto estimula mais a criatividade dos
cineastas?
Mas, não é só a
única razão! Você não pode dizer que se
estiver limitado, irá fazer um bom filme. Há
outros fatos, mas a limitação é um deles. E,
todas as condições do mundo também não se
traduz num bom filme. Também depende da
interpretação do que é um bom filme. Você tem
filmes de ação sofisticados que vão bem e
outros que não são bons. Tem filmes
independentes bons e outros não. Acho que o mais
importante é contribuir pela diversidade para
que o público tenha mais escolhas. Não acho que
o cinema de entretenimento seja ruim ou que os
filmes de arte sejam bons. Um bom filme é bom
baseado em suas premissas e, se falhar nestas
premissa, é um filme ruim.
O que você acha que pode
acontecer com Hollywood, já que a cada ano os
estúdios gastam valores cada vez mais altos para
fazer um filme?
A máquina
hollywoodiana é muito sofisticada que sempre
tenta se reinventar. Acho que o único aspecto
negativo é que o balanço entre a indústria de
Hollywood e a indústria independente. Causa
algumas limitações nos canais de exibição dos
filmes. Isto está criando algumas limitações
porque há cinemas que só exibem filmes de uma
certa produtora. E isto causa uma limitação nas
pessoas, evitando a diversificação que
deveríamos valorizar. Em geral, Hollywood tem
uma melhor contribuição para o cinema que o
Irã, a China ou a Itália. Realmente, não me
sinto bem em dizer que isto é ruim ou isto é
bom. Acho que todos tem o direito de se expressar
em qualquer forma de arte.
Você prefere somente fazer
filmes e deixar que as pessoas tirem suas
opiniões?
Sim! É valorizar a apreciação da
diversidade. Estimular crescimento e progresso na
sociedade em qualquer nível. Isto serve para
economia, política, sociologia, arte e
indústria. É a diversidade e contradição que
vai estimular o crescimento.
Tenho assistido a vários filmes
independentes mostrando que a vida não tem um
final feliz. É sempre um ciclo. No seu filme, a
mulher vai passa a passo, com esperança de um
futuro melhor. Qual a relação que você faz
disso?
Não acho que meu
filme não tenha um final feliz. Também, não
há a necessidade de um final feliz. É mais para
mostrar uma situação político-social que é
mais relevante globalmente, em diferentes níveis
de significados. Em um lado você tem uma
emoção humana simples, num mesmo estilo das
velhas comédias românticas, onde dois
personagens diferentes de sexo oposto, que são
limitados no espaço e tempo e precisam interagir
um com o outro. Eles não mudam um ao outro, os
dois mudam. No outro lado, você tem a parte
iconoclasta do significado do filme. Você tem um
personagem militar radical, que tem uma pequena
noção do inimigo para justificar sua
existência e ele resiste às mudanças porque o
status quo criado artificialmente à sua volta
que justifica sua existência e tem um idealismo
ingênuo que acredita e quer fazer mudanças.
Estes dois personagens representam os diferentes
lados sócio-políticos da nossa sociedade
globalizada. Provavelmente, os dois não estão
completamente certos, mas com a simbólica quebra
dos ideais dos dois, isto causa a mudança. Há
muita coisa que eles podem aprender porque você
não pode camuflar a dignidade e a honra da
sociedade. Você nunca pode impor noções de
democracia e progresso e injetar isso na
sociedade. Você tem que interagir e apreciar as
diferenças para formular um modelo melhor de
progresso. Neste ponto, os dois personagens
aprendem muito. No começo do filme, a urna cai
do céu e a mulher vem do mar. No final, a mulher
vai embora pelo céu e carrega consigo uma
mensagem de que existe uma realidade longe das
massas.
Você acredita que a internet
possa ser um instrumento para que os cineastas
sobrevivam no mundo do cinema?
Eu não vivo sem a
internet! Acho que o conceito de www tem muito
mais potencial que estamos capacitados a explorar
ou tirar vantagens. Acho que vai ajudar a
expandir a diversidade da indústria
cinematográfica e isto é muito importante. Vai
estimular e abrir novas portas. Mas, não tenho
uma noção clara do que será o futuro, mas
tenho expectativas positivas do futuro. É a
diferença entre vídeo e celulóide no cinema.
Não acho que o vídeo é uma substituição,
acho que são diferentes formas de mídia.
Há vários filmes iranianos
feitos com crianças.
Algumas pessoas podem achar que é mais fácil
fazer um filme assim, que emocionar o público
mais facilmente...
Este é o meu
segundo filme e eu não uso crianças. Não sei
sobre isso... Acho que é uma maneira mais fácil
de dizer coisas que não se pode dizer
diretamente sobre a sociedade. Não sei se
conseguiria fazer filmes assim. Por exemplo,
Kiarostami fez história nos anos 70 e
eventualmente, usa crianças em seus filmes.
Jafar Panahi é outro que explora este aspecto de
maneira positiva com filmes bem interessantes.
Não posso comentar isso de maneira pessoal
porque não faço filmes assim.
Você passou muitos anos fora do
Irã.
Quais foram os motivos de você ter saído do
país?
Antes mesmo da
revolução eu vivi fora do Irã, passei a maior
parte da minha vida fora do Irã. Foi,
basicamente, a vida. Alguns saem do país devido
ao trabalho dos pais ou por outros motivos. Tenho
25 anos e nunca perdi minha conexão e minha
paixão pela cultura iraniana. A minha família
também é uma família bem tradicional em Teerã
que sempre respeitou a cultura do país. Para mim
foi interessante redescobrir o país quando
voltei em 1998 e fiquei orgulhoso que seria
possível ser considerado como um cineasta
iraniano.
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