CAPITAL INICIAL
Banda volta em grande estilo
Em entrevista ao SUPERS, banda fala dos altos e baixos
da carreira, do público e da cena de Brasília

Formada em Brasília em 1982, o Capital Inicial é parte importante de um dos períodos mais criativos da história do rock brasileiro. Juntamente com a Legião Urbana e Plebe Rude, o Capital Inicial formou a tríade da primeira geração do rock brasiliense. A história é bem conhecida por todos e já foi contada e recontada inúmeras vezes, sempre trazendo referências ao ícone Renato Russo.

Os irmãos Fávio (baixo) e Fê Lemos (baterista) se uniram a Loro Jones (guitarrista da Biltz 64) e, em meio à efervescência punk que assolava a capital do Distrito Federal embalada pelos discos de grupos punks britânicos trazidos pelos filhos dos embaixadores, o trio começou a compor e tocar músicas trazidas por Flávio e Fê do Aborto Elétrico (onde também tocava Renato Russo).


Dinho: volta ao sucesso depois de momentos barra-pesada

O vocalista Dinho só entrou para a banda um ano depois, após tocar com Dado e Bonfá (futuros Legião Urbana) na banda Dado e o Reino Animal. Mesmo antes de lançar o primeiro disco, o Capital Inicial já tocava nos principais palcos do Rio de Janeiro e São Paulo.

Em 1984, lançaram um compacto com "Descendo o Rio Nilo" e "Leve Desespero". Em seguida, participaram da trilha sonora do filme "Areias Escaldantes". O primeiro álbum veio em 1986. "Capital Inicial" é um clássico da história do rock brasileiro, com metade do dsico se tornando hit. Em 1987, sai "Independência" e a banda é convidada para abrir a turnê brasileira do cantor Sting (ex-Police). Os próximos discos foram "Você Não Precisa Entender" (1988), "Todos os Lados" (1989) e "Eletricidade" (1991).

Em 1993, Dinho sai da banda para iniciar uma fracassada carreira solo. O Capital Inicial continua com outro vocalista, também sem sucesso. Com Murilo Lima nos vocais, a banda lançou "Rua 47" (1994) e "Ao Vivo" (1996), de maneira independente. Tanto Dinho como o Capital Inicial sumiram da mídia até 1998, quando resolveram se reunir para fazer uma turnê comemorativa dos 15 anos da banda. Na seqüência, lançaram "Atrás dos Olhos".

Com grande repercussão de video clips deste disco na MTV, a banda voltou ao estrelato. Com uma turnê levando multidão aos shows, que agora são repletos de adolescentes que nem haviam nascidos quando a banda começou a tocar, o Capital Inicial é novamente parte do primeiro escalão do rock nacional. Em 2000, a consagração definitiva. A banda lançou "Acústico – MTV" e, a curiosidade ficou por conta da gravação de "Primeiros Erros", de Kiko Zambianchi, outro artista de sucesso nos anos 80 e que passou a excursionar com o Capital Inicial.

O SHOW

A arena da Expoingá ficou pequena para o público que foi conferir o show do Capital Inicial. Absolutamente lotada com um público predominantemente adolescente, a arena foi palco do melhor show, até o momento, do evento com a maior empatia com o público e com o repertório mais coeso e com mais sucessos.

Como sempre, Dinho abusou de seu carisma no palco cantando antigos sucessos reformulados. O público retribuiu cantando a maioria das músicas em coro, o que levou o vocalista a dar declarações emocionadas. No intervalo das músicas, Dinho fez discursos contra os políticos brasileiros, criticando ACM e Jader Barbalho, além de homenagear Renato Russo e Joey Ramone (vocalista dos Ramones que faleceu mês passado).

O Capital Inicial montou um set com seus maiores sucessos, além de covers escolhidas a dedo para animar o público. "Under The Bridge", do álbum "Blood Sex Sugar Magic" (1991), do Red Hot Chili Peppers, "I Wanna Be Sedated", do álbum "Road to Ruin" (1978), do Ramones, "Primeiros Erros", do Kiko Zambianchi, "Que País é Esse?", da Legião Urbana, onde Dinho cantou no meio do refrão um trecho de "I Don’t Care" do Ramones.

No final, Dinho saiu do palco para Kiko Zambianchi cantar duas músicas suas. Dinho voltou para encerrar o show com "Todas as Noites". Contradizendo a letra, esta noite não foi igual à nenhuma outra. Para quem era fã antigo da banda, uma agradável sensação de nostalgia. Para os mais novos, o clima de idolatria foi satisfeito com um show quase mágico.

ENTREVISTA

Andhye Iore– Vocês já estão cansados de falarem da cena
de Brasília e do Renato Russo ou sentem orgulho disso?

Dinho - É uma história que interessa a garotada, cara. É quase como a criação de uma tradição dentro do rock brasileiro que não existia. De se ter um reduto tradicionalmente roqueiro no país. As cidades famosas no mundo, como Nova York e Londres, têm uma tradição de ter lugares e bandas. Acho que Brasília tá confirmando isso, porque já tá indo pra terceira geração de bandas. Eu diria que me orgulho disso.

Porque vocês têm uma história própria, têm gente que gosta de vocês hoje, mas nem tinha nascido quando vocês começaram com a banda...

Dinho – É, a maioria do público... o Capital têm 18 anos de estrada!

Como rolou o processo da volta da banda depois que tanto
a carreira solo do Dinho quanto a da banda não deu certo?

Dinho - Olha, cara, na verdade não foi uma coisa decidida. A gente nunca se juntou e falou vamos nos reunir. Formalmente, isso não aconteceu. A gente se encontrou e não pensamos a longo prazo. A idéia era só fazer uma turnê comemorativa dos 15 anos. Era um projeto de começo, meio e fim, com cada um seguindo seu caminho depois. A gente acabou sendo surpreendido pelos fatos. As coisas acabaram tendo uma intensidade muito maior do que eu esperava. Três meses depois da reunião, a gente já estava nos Estados Unidos gravando.
Flávio
– A idéia era não deixar acabar toda a carreira que a gente tinha feito a vida inteira. A banda meio que tinha acabado e a gente queria que se fosse para acabar que as pessoas soubessem disso...
Dinho – Acabar com dignidade! (risos)
Flávio – Não aquela coisa de morrer e ninguém saber. Então essa idéia da turnê pra comemorar 15 anos e, depois, a coisa foi crescendo e uma coisa levou à outra.

E como o Kiko passou a fazer parte
desse processo, como foi o processo
dele tocar com o Capital Inicial?

Kiko – Ah, uma ciumeira danada! (risos) Mentira, superlegal, na boa! A gente já se conhecia de São Paulo, a gente também passou pelo sertanejo, axé, pagode insistentemente mantendo uma coisa que a gente acreditou. Acho que valeu a pena porque os artistas da nossa época que trocaram de estilo ou tentaram fazer uma coisa mais apelativa devem estar arrependidos agora.


Kiko Zambianchi: resgatando
carreira ao lado dos amigos

E você já está compondo com a banda?

Kiko – A gente está com uns projetos de fazer algumas coisas pro próximo disco deles, inclusive, eles nem sabem, mas eles vão tocar no meu próximo disco (risos)...
Dinho - Na verdade, cara, tanto o Kiko quanto a gente, quando você têm uma carreira mais longa você aprende o quanto é efêmero, quantos altos e baixos você têm, o quanto isso é inerente numa carreira artística, cara. Então, acho que você se torna mais calmo. A convivência se torna mais fácil, você também não acha Kiko?
Kiko – É!
Dinho – Todo mundo é mais na boa, cara. Todo mundo já passou por poucas e boas!

Aconteceu uma coisa interessante com o Capital Inicial. Depois
de muito sucesso, vocês precisaram correr atrás pra divulgar o
trabalho da banda e ficaram até sem gravadora. Qual a sensação
de ser obrigado a se tornar independente pra continuar a carreira?

– Em 93, com a saída do Dinho, o contrato com a BMG foi rompido. A alternativa era lançar um disco independente e foi o que a gente fez, montamos uma gravadora independente. O que eu posso dizer é que você some da mídia quando vai pro circuito independente. A mídia só focaliza quem tá fazendo sucesso e é muito difícil no Brasil fazer sucesso sendo independente.
Dinho – Mas existe vida fora do sucesso!
– Exatamente. Foi o que a gente descobriu nesses cinco anos, que existe vida fora do sucesso. A gente conseguiu sobreviver dignamente, trabalhando, mantendo o nome do Capital Inicial. Agora, as gravadoras dão sim chance às bandas novas. Acontece que é uma peneira muito fina. A gravadora trabalha visando lucro, ela fica com pé atrás até o último momento. Quando eles vêem que já têm outro ganhando dinheiro, vão atrás. Eles estão sempre correndo atrás.
Dinho – Eu não acho que você deve pautar a sua carreira esperando gravadora. Se não rola, acho que você deve gravar independente, fazer show, não acho que você deve ficar sentado, esperando a Rede Globo... dane-se! (risos)
Flávio – O mais importante é, divirta-se! Aproveita, você ter uma banda e poder tocar é uma coisa que é um sonho, mesmo sem sucesso...
Kiko – Mas, têm que ser agressivo!

Andhye Iore, maio/2001

SET LIST
Passageiro, O Mundo, Independência, Tudo Que Vai, 1999, Leve Desespero, Eu Vou Estar, Fogo, Cai a Noite, Kamikase, Fátima, Veraneio Vascaína, I Wanna Be Sedated, Primeiros Erros, Que País É Esse?, Under The Bridge, Rolam as Pedras, Tudo É Possível, Todas as Noites.