CHARLIE BROWN JR
ENTREVISTA

Andye Iore - Santos tem uma cena forte de hard core: Safari Hamburgers, Garage Fuzz, White Frogs, entre outras. O que move esse tipo de sonoridade, tem alguma questão social que justifique isso?

Pelado – Sempre teve bastante banda assim. É uma cidade que tem bastante músico e tem pouco lugar pra tocar, pra mostrar seu trabalho. Hoje, o pessoal tem mais fé que dá pra acontecer. Pelo fato da gente ter saído de lá, o pessoal vê que tem condição de se tornar realidade, que não é só um sonho. Então, aparece muita banda.
Chorão – É uma cena boa que surgiu nos anos 90. Santos é uma cidade pequena que tinha locais legais pra tocar e hoje já não tem tanto. Sempre gera uma certa dificuldade e uma vontade de ficar na ativa, continuar um caminho paralelo à mídia. A gente também viveu isso durante muito tempo. Hoje, o Charlie Brown toca pra 20, 30 mil neguinho, mas já tocou pra 10, 50 pessoas nos mesmos botecos onde tocava as bandas que você citou. A continuidade destas bandas é bem legal... principalmente, o Garage Fuzz que é a melhor banda de hard core que a gente tem no Brasil.

Chorão você teve problemas na adolescência e hoje, de certa maneira, você é um popstar (risos) do rock que atrai multidão nos shows. O que passa pela sua cabeça quando você pensa nas dificuldades que teve e hoje tem um conforto, leva uma vida legal fazendo o que gosta?

Chorão – O conforto não caracteriza que eu também não tenha problema, que eles deixaram de existir. Muito pelo contrário. Hoje em dia, a gente tem que ter muito mais responsa, mais atenção, tem que dispor mais tempo para trabalhar que só ter uma banda de garagem como era no começo. Hoje, a gente vive do que faz, mas também tem que ter 100% do tempo pra parada. Tem o lado cansativo e estressante também. É uma puta virada, é o que a gente quis, trabalhou pra caramba sem muita pretensão, mas conseguimos um lugar legal. Me sinto satisfeito pra caramba. Acho que cada banda que acontece, abre caminho para várias outras conseguirem também. Não só pelo espaço que se abre, mas pelas pessoas de gravadora que se conscientizam também que lançar uma banda nova pode ser uma jogada legal. Se torna um business mesmo.
Pelado – No começo, demorou pra cair a ficha. Depois, a gente viu que é tudo fruto de um trabalho. A gente não esperava tanta coisa, mas já que aconteceu, obrigado Deus e tá lindo...

Em março teve a confusão num show da banda no Rio de Janeiro. Como lidar com esse preconceito de que o rock estimula a violência e o uso de drogas?

Champignon – Nunca incitamos a violência e nunca vamos incitar a violência. O que rola é anarquia e anarquia não tem nada a ver com violência. A partir do momento que você tá ali passando uma mensagem, você pode comparar as letras que tem no Charlie Brown e nas bandas de pagode e coisas da mídia, você vê que as outras culturas são muito mais banais que a cultura que a gente tenta passar pra molecada, que é o futuro do país. O caso do Rio de Janeiro, nunca tinha rolado coma gente. A gente tentou amenizar o tempo todo, acalmando a galera. Mas, os caras não paravam. Nós, em quatro, não tinha como separar um briga de mil pessoas. As pessoas que não queriam brigar, não queriam violência estavam fugindo e os que queriam violência tavam quebrando e saqueando tudo.
Pelado – Dá pra você ir num show de rock e curtir numa boa. A gente procura parar o show e acalmar. Mas, quando não dá, a gente não pode fazer nada também. É uma questão da própria segurança do local segurar a onda. Neste show, tinha poucos seguranças para muita gente. Era um show que não tinha condição de ser feito, o lugar era muito pequeno e ficou muita gente do lado de fora. O pessoal começou a invadir e aí começou a confusão. Podia ser show de pagode, lambada que ia dar no mesmo.

No meio underground sempre teve uma polêmica sobre as bandas cantarem em inglês. Qual a opinião de vocês em relação a isso?

Pelado – A gente começou cantando em inglês e agora canta em português. Às vezes, misturamos os dois. Quem sabe agora a gente grave até uma coisa em inglês. Aqui fica difícil, o pessoal quer ouvir a música e quer entender. Eu mesmo, não entendo nada em inglês (risos).

Correu uns boatos de que sairia uma coletânea de vocês na Europa.
Como tá isso?

Champignon – Ia rolar sim. O lançamento seria no dia 26 de abril. Só que a gente tá numa correria tão grande, que ainda não perguntei pro empresário como que tá este papo...

Maio de 2002.

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