FESTIVAL
Circadélica: a nova cara do rock
Festival reunindo gravadoras independentes e 29 bandas brasileiras em
Sorocaba revela um meio alternativo mais organizado e amadurecido

O Circadélica teve momentos e situações que serão contadas por anos e anos quando algumas dessas bandas se encontrarem em outros shows.

Sindie – o Circadélica teve sua Sandy. A vocalista do Madeixas, Camila Zoschke, centralizou as atenções dos fotógrafos quando subiu ao palco. Seu jeitinho de menina inocente fez com que algumas pessoas se referissem a ela como "Sindie", ou seja, Sandy Indie.

In Memorian – o público pediu insistentemente e algumas bandas atenderam. Joey Ramone foi homenageado por quatro bandas - MQN, Muzzarellas, Biggs e Holly Tree – que gritaram o lema Gabba Gabba Hey ou tocaram músicas dos Ramones.

Fogo – no Juntatribo, o fogo pegou no mato e quase chegou ao palco, mas músicos e público apagaram. No Circadélica, cuspidores de fogo deram um espetáculo no meio do público e em cima do palco. Foi tragicômico. Enquanto algumas bandas tocavam, de repente entrava correndo no palco um maluco com tochas e querosene na boca cuspindo fogo entre os músicos. A galera delirava.

Sexo frágil? – as mulheres, apesar de poucas – impressionaram em cima do palco. Apenas quatro mulheres participaram dos shows no Circadélica. A Sindie, quer dizer, Camila, do Madeixas (SC), Vanessa, do Maybees (SP) e Janaína e Flávia, do Biggs (SP). Mas, a performance das quatro foi melhor que a de muitos marmanjos. Camila têm uma bela voz, Vanessa idem e, melhor, uma segurança que pôde ser comprovada só pelo fato do Maybees ter se apresentado entre duas bandas mais pesadas e ser respeitada pelo público. Já as meninas de Sorocaba dominaram o palco. Pularam, dançaram, gritaram, fizeram coreografias enquanto tocavam e agradeciam com um sorriso espontâneo de felicidade pelos aplausos.

Pogobol – o trio Holly Tree instituiu o pogobol no Circadélica. Antes de seu show, a banda disputou uma "pelada" atrás do palco. Quando subiu ao palco, a bola foi atirada na torcida, quer dizer, no público. Aí foi uma festa. A bola ia do palco pro público, do público pro palco. No show do Garage Fuzz, essa cena se repetiu várias vezes.

Deboche – Muzzarellas, MQN e Butcher’s Orchestra protagonizaram diálogos curiosos com o público. ET, o baixista do Muzzarellas, desafiou a galera a xingar mais a banda. "Xinga mais! Só isso?!" Nobre, vocalista do MQN e cover de Barry - o balconista de "Alta Fidelidade" - ficou duelando com os metaleiros, xingando os cabeludos. Já Marquinhos, do Butcher’s, se irritou quando alguém jogou barro no seu paletó e pediu que jogassem a mãe de perna aberta. Na seqüência, o guitarrista Adriano, gritou que um tapinha não dói, começou a tocar isso na guitarra, virou a bunda pro público e ficou rebolando e tocando.

Covers – como não poderia faltar, os covers tocados pelas bandas: MQN – "Beat on the Brat" (Ramones); Astromato – "Something I Can’t Have" (Jesus and Mary Chain) e "Sparky’s Dream" (Teenage Funclub); Wry – "Rain" (Beatles) e "About You" (Teenage Funclub); Muzzarellas – "Commando" (Ramones) e "No Fun" (Stooges); Mechanics – "20th Century Boy" (T. Rex); Holly Tree – "Wipe Out" (Surfaris), "Blitzkrieg Bop" (Ramones); o Maybees tocou uma dos Beatles, o Hateen tocou uma do Prong e o Walverdes uma do Nirvana.

Garage – uma das coisas mais legais no Circadélica foi verificar como as bandas do meio independente estão maduras, tocando bem e com referências mais originais, voltadas para as raízes do rock. O tal garage rock, influenciado por Stooges, MC5 e até Cramps se mostrou em cinco bandas do festival: nos goianos do MQN e Mechanics, nos gaúchos do Walverdes, nos desbocados do Muzzarellas e nos selvagens do Thee Butcher’s Orchestra.

Futebol – na segunda-feira, uma confraternização proporcionou uma curiosa partida de futebol. Wry contra os sergipanos do Snooze. Os sorocabanos não tiveram muita sorte e perderam várias partidas para o time de Aracajú, reforçado por este que aqui escreve. Quem sabe na Inglaterra o Wry tenha mais sorte no futebol, já que na música estão bem encaminhados.

Andhye Iore