FESTIVAL
Circadélica: a nova cara do rock
Festival reunindo gravadoras independentes e 29 bandas brasileiras em
Sorocaba revela um meio alternativo mais organizado e amadurecido

OS SHOWS
SÁBADO, 9/6/2001

Os sossegados e intimistas cariocas do Pelv’s subiram ao palco diretamente da estrada. Como sempre, frieza, pouca comunicação com o público e um show musicalmente perfeito mostrando um entrosamento impressionante. Teve gente que até comentou que parecia play back de tão bom que estava o som. Foi um show compatível com o horário, para as pessoas curtirem.

Os paranaenses do Grenade acabaram com a expectativa de muita gente que estava afim de conhecer o tão comentado folk psicodelismo de Rodrigo Guedes e cia. Com certeza, o Grenade foi o grupo mais prejudicado pela escalação. Se tivesse sido um pouco mais tarde, o show seria maravilhoso. Mas, não foi ruim. Com sua experiência e competência Rodrigo empolgou o público e nas duas últimas músicas, "Sweet Gloves" e "Vampire", fez muita gente cantar.

Os gaúchos do Walverdes inauguram a seção de garage rock do Circadélica. Cantando em português e uma sonoridade vigorosa, o Walverdes esquentou o público. Em seguida, o intercâmbio estadual. Do outro lado do país, de Aracajú, o Snooze apresentou seu indie rock tranqüilo e melódico. Com um começo confuso, com o som desregulado, a banda conseguiu acabar aplaudida e foi a que mais divulgou seu trabalho nos bastidores.

Os Magüerbes, de Americana (SP), foi a banda mais deslocada do festival. Entraram fazendo o estilo "tá ligado, mano!" e fizeram questão de frisar isso. O rap core da banda, com certeza ficaria melhor no segundo dia.

No finalzinho da tarde, o primeiro show demência da noite. Os goianos do MQN quebraram todas as referências "breganejas" de seu estado e fizeram um show imponente, com influências de garage rock e com o vocalista Nobre dando um show à parte debochando dos metaleiros presentes.

Depois, contrastando com os berros de Nobre, sobem ao palco os catarinenses do Madeixas com sua vocalista delicada. Camila monopolizou a atenção dos fotógrafos e deu um charme ao Circadélica. A banda está passando por reformulações e deixou isto claro no repertório com músicas ora pesadas, ora suaves, ora em português, ora em inglês.

Os astros do cenário indie não desapontaram e fizeram as pessoas se espremeram à frente do palco. Os campineiros do Astromato conquistaram uma popularidade incrível com o lançamento do cd "Melodias de Uma Estrela Falsa". Sua mistura de rock inglês com MPB Clube da Esquina têm melodias contagiosas e uma música nova, "Brisa de Final de Maio, apresentada no final do show mostrou que a banda vai mais longe ainda.

20h07. Essa foi a hora da demência tomar conta do circo. Thee Butcher’s Orchestra assimilou totalmente o espírito sexy e selvagem dos americanos do Cramps e fizeram um show arrasador. O curioso é que banda se apresenta com uma bateria e duas guitarras e o show é de tirar o fôlego. O strip tease não aconteceu, mas o vocalista Marquinhos protestou quando jogaram barro em seu paletó e o guitarrista Adriano dançou e tocou na guitarra "...um tapinha não dói...", batendo em sua bunda virada para o público.

Os donos da casa encerraram o primeiro dia e tomaram conta do local. Como era de esperar, o Wry implantou o frenesi no Circadélica. A banda tinha a noção de estar se despedindo e a performance de Mário Bross foi descontrolada. Com um guitarrista convidado, Mário se sentiu à vontade para correr, subir no mastro de sustentação da lona e fazer peripécias, enquanto o público se acabava na frente do palco. Até a balada "That’s Me On The Corner" ganhou um final alucinante que surpreendeu até mesmo o baixista Chokito. O Wry começou sua carreira como Piso Sonoro e encerrou um ciclo no Brasil com êxtase sonoro. Fim do primeiro dia do espetáculo no circo da Manchester Paulista. Mas, não fim dos shows. Foi só atravessar a rua e mais shows no pequeno Club Voyage. Até bandas que não estavam programadas tocaram, afinal, tudo é rock’n’roll.

DOMINGO, 10/6/2001

No segundo dia, o show começou um pouco mais tarde, já que o Pin Ups havia anunciado o fim da banda e não participaria do festival. Com um público mais roqueiro e bandas mais voltadas para o hard core, o pogo correu solto e a poeira levantou. O Hateen, além de empolgar, também foi responsável pelo único stress nos bastidores. Depois de o vocalista Koala insistir em não respeitar o tempo – que todas as outras bandas respeitaram – ele ainda protagonizou um bate-boca com o dono do equipamento de som, chegando a ameaçá-lo.

Os Muzzarellas encheram o circo de besteirol com palavrões e arrotos, desafiando o público a xingarem a banda mais ainda e um som empolgante de músicas rápidas e curtas. Os goianos do Mechanics foram uma boa surpresa. Levaram seu garage rock com influências de quadrinhos, pop art, letras com doses eróticas e até tocaram uma cover dos reis do glam T. Rex.

Os arrumadinhos do Maybees deram um descanso ao público com seu pop influenciado pelos Beatles. Já o trio sorocabano Biggs surpreendeu muita gente. Janaína e Flávia arrancaram aplausos calorosos do público com um hard core bem criativo e trabalhado, dando qualidade à gritaria do Bikini Kill.

Já com o público aquecido, o Holly Tree subiu ao palco e deu um verdadeiro show de punk rock. É incrível como a banda é popular na região. A garotada corria atrás dos músicos dentro do Circadélica e fizeram até fila para pegar autógrafos do trio. No palco, isso se confirmou. Músicas cantadas em coro e uma animação interminável. A banda foi responsável por uma das cenas mais legais do festival. O vocalista George subiu nas costas do baixista Tito e, dessa maneira, como uma brincadeira de cavalinho, tocaram uma música instrumental.

O último show do Circadélica também foi o melhor do festival. Repertório coeso, competência, boa presença de palco com os músicos se revezando na frente e uma animação harmoniosa tanto da banda quanto do público. Enquanto o Garage Fuzz detonava seu set arrasador - sem covers! – o público à frente do palco exagerava no stage dive. O Circadélica terminou da melhor maneira possível, com um ótimo show, sem brigas e um gostinho de quero mais.

Andhye Iore