22 º FEMUCIC
Festival bate o recorde de
inscrições
Antônio Vieira, um dos
organizadores, fala da importância do evento que
se consolidou como um dos principais do país
| O FEMUCIC
Festival de Música Cidade
Canção é um dos maiores
expoentes culturais de Maringá. Criado
em 1977com o nome de FEMUSESC para
projetar os músicos maringaenses, o
festival atrai cantores e compositores de
todo o país que vem para a cidade em
busca de um impulso para a carreira
artística. Em 1978, a Prefeitura
Municipal de Maringá passou a participar
ativamente do evento e, em 1986, a
Televisão Cultura que apoiava, passou a
ser co-promotora.
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Antônio Vieira: Preparando
o FEMUCIC durante o ano todo
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Até 1992, o
festival era competitivo distribuindo prêmios
aos concorrentes. A partir de 1993, o evento
passou a ser uma mostra com uma ajuda de custo
para quem vinha de outras cidades.
Em sua 22º
edição, o festival que passou a ser realizado
no Teatro Calil Hadad a partir de 1997, teve
recorde de inscrições com 572 músicas
inscritas, sendo 54 selecionadas para serem
apresentadas nos três dias do evento: 25, 26 e
27 de maio. A grande novidade desse ano é que
serão realizadas apresentações na Praça
Raposo Tavares, com o intuito de abrir mais o
festival para a comunidade.
O diretor do SESC,
Antônio Vieira, que está na organização do
festival desde 1980 fala sobre a história do
FEMICIC, das mudanças, da importância social e
da cultura local.
Andhye
Iore Qual é a estrutura do
festival? Equipamento, divulgação, ajuda aos
artistas, quantas pessoas envolvidas diretamente,
...
Antônio
Vieira Ele nunca termina. Depois da
última apresentação, no outro dia tem uma
reunião para decidir as músicas do cd e depois
fazemos uma avaliação para a próxima edição.
Existe uma comissão mais central de cerca de15
pessoas, no total são cerca de 80 pessoas. A
estrutura nós oferecemos o que há de melhor.
Melhor espaço que é o teatro, sonorização é
o melhor equipamento, estamos fazendo a
gravação do cd com 18 canções, os músicos
ficam em um hotel, a alimentação é aqui no
SESC. É claro que nós gostaríamos de contar
com uma orquestra, que tivesse uma variedade
maior de instrumentos à disposição para os
participantes. Os músicos de outros estados
recebem R$ 300,00 e os do Paraná recebem R$
200,00 cada um como ajuda de custo e
participação. Tem um atrativo bom, já que tem
tido uma maior procura de artistas.
Quais as principais mudanças na
concepção do festival até hoje?
Nesse sentido foi
muito dinâmico. No início era formatado nos
moldes dos festivais que a Tv Globo e Record
organizavam na época. Também era competitivo.
Em 1986, nós inserimos um festival de música
instrumental já que era voltado para MPB. Além
da premiação nas categorias, nós colocamos
outros incentivos. Em 1987, gravamos o primeiro
disco com as músicas finalistas. Gravamos discos
em 1987,1989, 1990 e 1991. Ainda em 1986,
passamos a trazer atrações de renome para o
festival, como Ivan Lins, MPB 4, Toquinho, Alceu
Valença, Eduardo Dusek, Antônio Carlos e
Jocafi, Cida Moreira, Tetê Espíndola, passaram
pelo FEMUCIC como atração depois da
apresentação dos concorrentes. Em 1992,
aconteceu uma grande mudança. Nós tiramos o
caráter de competição e passamos a realizar
uma mostra de música como uma nova motivação.
Criamos um novo modelo atrativo para músicos.
Também abrimos para todos os estilos de música,
com o rock num dia, sertanejo em outro dia, MPB
em outro dia. Esse ano estamos na quinta
gravação consecutiva do cd, desde 1996.
Por que essa tentativa de
segmentar o festival não seguiu nas outras
edições?
Era um
laboratório e chegamos à conclusão que
trabalhar com estilos diferentes era complicado
para a organização e não trazia o resultado
que esperávamos. Na música sertaneja, eram
músicas muito influenciadas pelas emissoras de
rádio, era uma coisa comum dos sucessos
populares e não trazia nenhum enriquecimento,
pesquisa em cima da música sertaneja, pois
pretendíamos buscar um pouco as raízes da
música e elas caíam na música popular...
Na verdade, o interesse da
organização estava mais pra moda de viola...
Exatamente, o
propósito da organização era esse. Tanto é
que hoje, só participam do festival aqueles
músicos que já perceberam isso. Quem vem com
aquela linha comum de Zezé di Camargo, essa
turminha aí, não tem espaço porque eles já
ocupam uma mídia muito forte. Segundo, o rock na
época faltava muita qualidade pra produção
local. Acima de ser aberto pra produção do
país, o festival é maringaense, então
procuramos criar um incentivo, mas não tinha
produção e o rock ficou concentrado nos
roqueiros de outros estados que levantaram a
noite de rock. Os roqueiros não tinham
qualidade, eles tem que estudar música. Então,
não estava casando. A coisa tinha que brotar
espontaneamente. Então, aglutinamos os eventos
num só. Hoje, tem sertanejo, rock, instrumental,
apesar de predominar a MPB. Futuramente, o
festival deverá ir para a comunidade, praças,
escolas.
Como acontecem essas mudanças?
Há reuniões, o público dá dica,...
Quando houve a
mudança para mostra, foi uma atitude mais
radical por parte da organização. Quando
abrimos espaço pro rock, havia roqueiros da
cidade ensejando, questionando. Nós precisamos
crescer. Nós nunca nos fechamos, estamos sempre
abertos a críticas.
Num dos festivais anteriores,
você me falou que andava meio magoado com a
imprensa local que não dava destaque ou cobria o
festival como ele merecia e até em relação ao
público, que você gostaria que houvesse uma
maior freqüência e participação. Você sente
que existe um débito da imprensa e sociedade
local para com o FEMUCIC?
A imprensa, às
vezes é mais presente num ano, no outro é menos
presente. Ela busca o anseio popular. Eu acho que
o festival é um expoente de referência musical
que acontece na cidade. "Ah, nós temos o
FEMUCIC. 20 e tantos anos de festival!".
Mas, aquele envolvimento de presença de massa,
é um pouco rotativo, tem um público de
festival. Depois de 20 anos de festival, eu já
penso que ninguém é obrigado, é um espaço que
você vai ocupando aos poucos. Se a comunidade
prefere um evento que atrai artistas de grande
repercussão, eu tenho que respeitar. O FEMUCIC
é uma proposta alternativa de música que nós
estamos aqui martelando, enquanto a mídia te
massacra com outro tipo de música. Como vou
fazer o público gostar de uma banda de Pífaro
que vem lá de Alagoas, se ele ouve 24 horas por
dia O Tchan? Em contrapartida, o projeto não
pode morrer. A Globo lançou o seu festival e
recebeu quase 24 mil canções. Existe uma
produção farta. Pelo trabalho devotado de tanta
gente, eu acho que o festival deveria encher o
Ginásio Chico Neto. Nós estamos mostrando o
outro lado, o festival é uma proposta de
resistência contra a massificação que tá aí.
Quantas músicas do Gil ou do Chico Buarque as
rádios tocam? No festival você vai ouvir coisas
maravilhosas, uma riqueza melódica, letras
lindas. Meu sonho era que a comunidade abraçasse
o festival como uma coisa sua, mas ela não é
obrigada porque tem tanta coisa em cima dela que
eu tenho que respeitar.
Além do FEMUCIC, você tem
outros envolvimentos com a arte local, o SESC
abre espaço para eventos e exposições. Apesar
de ter vários artistas talentosos, a cultura na
cidade é muito deficitária. Sempre existe uma
comparação com Londrina em vários setores, mas
culturalmente Maringá perde feio. Por que
Maringá resiste tanto à cultura?
É nós
engatinhamos em algumas áreas, mas eu vejo pelos
avanços que temos. Maringá tem uma produção
artística latente em todas as áreas. Nem é um
pouco de incentivo, é a tradição, o jeito do
maringaense, falta espontaneidade, as escolas
devem fazer um trabalho de base. Depois de 20
anos de festival, eu penso que o poder público
não tem a obrigatoriedade de fazer tudo, se
ficarmos nessa tecla, vamos ficar nessa
infinitamente. A sociedade, como um todo, tem que
ser mais participante, realizar as coisas.
Exposições de arte permanente sempre tem em
bancos, no Teatro Calil Hadad, nas bibliotecas,
aqui no SESC. Eu não gosto de lembrar coisas do
passado, mas quando não tinha teatro em
Maringá, a produção de peças era maior,
depois que construíram os teatros a produção
foi se acanhando. Não sei se os espaços exigiam
uma produção mais sofisticada. Raramente se vê
peças marinagaenses nos teatros da cidade. Tem o
Festival de Música de Câmara. Os poderes podem
ajudar, mas a comunidade tem que participar
porque é caro trazer cultura para a cidade.
Também é preciso que as pessoas que vem para
Maringá e se enriquecem, deixem algum retorno.
Porque senão, vamos ficar igual à cultura do
café, nas cidades ao redor de Maringá, onde se
fez fortunas e essas cidades não tem um bom
hospital, uma boa escola. O nosso empresariado
está muito voltado para o lucro mais fácil.
Até quando a função do capital é apenas essa
e não tem a função de distribuir as riquezas,
que não sejam materiais, mas de espírito? Falta
investimento. Está provado a sonegação, a
corrupção, você vai ficar esperando desse
pessoal? Pode desistir, porque eles não se
preocupam nem com as necessidades básicas
sociais, vão se preocupar com a cultura?
Texto
e foto: Andhye Iore, maio de 2000
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