GRENADE
ENTREVISTA
Andhye Iore -
Enquanto as bandas independentes insistem em
divulgar seu
trabalho no Brasil, num mercado fechado para o
rock alternativo,
não seria mais sensato redirecionar o trabalho
para o exterior?
Rodrigo
César
- Mais sensato não, mais prático talvez. Se a
gente não começar a cavar esse espaço vamos
continuar empurrando o independente no Brasil por
mais uma década. Acho que quem está nessa agora
tem que ter noção das dificuldades, mas se o
trabalho está sendo bem feito, nas próximas
décadas vamos colher bons frutos.
Hoje, a internet é o maior
aliado de bandas como o Grenade?
A tecnologia em
geral. Gravo minhas músicas num PC vagabundo,
crio todo material gráfico, queimo os cds,
masters, tudo em casa. A Internet é o fim desse
trabalho, a divulgação, e com certeza é a
ferramenta mais importante hoje em dia.
Quantas músicas você já
compôs como Grenade?
Ahhh sei lá.
Faço música o tempo todo. Acordo no meio da
noite com uma melodia e levanto pra tocar. Umas
100? hehehe
Até que ponto é frustrante
saber que você faz parte de algo legal,
mas não tem uma oportunidade real de apresentar
o que você faz?
Eu tenho! Eu
mostro pra quem quiser ouvir. Acho que no geral,
toda cultura vai segmentar cada vez mais e só
vamos procurar o que nos interessa. Se depender
da mídia pra mostrar, vamos viver do lixo. O que
é mais frustrante é não ter recursos pra fazer
mais.
Qual a sua opinião sobre o fato
das gravadoras brasileiras
não lançarem bandas nacionais que cantam em
inglês?
Normal. As
gravadoras que existem hoje e tentam arriscar
algo novo tem grande dificuldade de permanecer no
mercado. É um investimento muito alto lançar
(de verdade) uma banda. Os selos especializados
em bandas que cantam em inglês (ou qualquer
outro segmento mais específico) estão
começando a crescer junto com as bandas e logo
teremos essa indústria paralela. Uma coisa
depende da outra pra sobreviver.
Qual o seu processo de criação
(da idéia até a mixagem)?
Por ser você o Grenade, isso facilita compor?
Não sou mais o
Grenade. Mesmo ainda estando à frente das
composições, a banda tem uma grande influência
no resultado final. Na maioria das vezes chego
com uma idéia no ensaio e eles tem outras e é
tudo muito natural. Cada um faz o que acha melhor
e dá certo. Demorei pra encontrar os caras, mas
precisava de gente que faz as coisas sem
questionar, sem medo. Se não fosse assim, não
teria razão em ser uma banda.
Você fica aborrecido com tanta
referência ao Killing
Chainsaw ou é um orgulho pra você ter feito
parte do KC?
Orgulho, muito
orgulho. Mais pela banda, pela experiência de
vida que ela me garantiu do que pela música. A
música acaba ficando uma lembrança bem distante
perto da saudade que eu sinto de tudo que a gente
passou. Eu tive a vida que todo adolescente sonha
em ter.
Qual foi o processo da mudança
de uma sonoridade mais pesada
com o KC para algo mais elaborado e melódico com
o Grenade? A separação dos amigos, a idade,
responsabilidades, o que influenciou pra você?
O mais foda, foi a
mudança radical do centro da minha atenção que
antes era a banda pra família. Hoje eu vejo que
tomei o caminho certo, mas por muito tempo foi
bem complicado. Foi o instinto que me levou até
onde estou. Não lembro de ter planejado nada,
mas estou muito feliz com minha vida, então acho
que fiz boas escolhas. Quanto à mudança de som,
foi natural, nem sei onde acabou uma coisa e
começou a outra. A grande influência foi na
forma de mostrar minhas idéias. Agora eu sou
mais sincero.
O Grenade tem um site com o
material da banda. Qual a sua opinião
sobre toda a discussão da Napster, com as
disputas com as
gravadoras, com o Metallica indo contra e
artistas como Billy
Corgan estimulando a divulgação de música pela
Internet?
Isso tudo é tão
distante do meu universo, porque diz respeito a
grandes empresas e grandes negócios e eu não
sei como eles jogam porque a indústria não
mostra as regras. Mas eu acho que eles estão
pouco se fodendo para as bandas, o que importa é
o lucro. As bandas ficam no meio dessa batalha
entre uma grande corporação e um moleque que
fez uma bela jogada e agora por isso precisam
contratar advogados pra se proteger de ambos. Sei
lá, é muito absurdo. Pra mim a música deveria
ser livre. Ano passado o único lançamento do
Grenade foi um EP gratuito que você baixava na
rede. Então, que venham Napsters, Gapsters,
Lapsters...
Por que você acha que não se
forma uma cena independente no Brasil?
Você acha que o tamanho do país é um dos
maiores problemas?
Tempo. Estamos 40
anos atrasados em relação aos USA e não
podemos contar com a mesma estrutura e incentivo
que eles por terem uma super economia. Ainda
teremos uma grande cena independente. É muito
mais fácil enxergar isso hoje em dia.
O folk está passando por um
revival, até com um conceito de new folk.
Pra você, como fã deste estilo muito antes
deste revival, qual o prazer de
se gostar e tocar um estilo que possibilita algo
mais intimista, poético?
O folk é uma
música confessional. Por ser simples é
transparente e fica esquisito você falar de
qualquer outra coisa que não seja pessoal. Seria
patético eu fazer folk falando sobre ficção,
tramas diabólicas ou era medieval. Acho que, por
isso me identifico com essa música simples
porque te permite mais sinceridade. Eu sempre
tive na música o que nunca encontrei na
religião. Paz de espírito, confissão,
perdão...
Além do folk e psicodelismo,
você explora outros
elementos com o sampler e coloca até um pé no
eletrônico
("Montain Days Again"). Qual a
concepção do som do Grenade?
Não sei. Está
sempre mudando. Eu gosto de música, então fica
complicado me limitar a um conceito. A gente já
se prende a tanta coisa besta na vida. Pra que
tentar fazer isso com a música? Tem bandas que
depois de comprar dois ou três discos você não
precisa comprar mais nenhum. Isso é muita
covardia.
Por falar em folk, você leva a
sério esses conceitos que a imprensa
cria como alternativo, guitar e até lo-fi que
atribuem ao Grenade?
Ahhh, a imprensa
precisa explicar as coisas. Acho normal e é bem
divertido, mas o que não dá é pra imaginar que
alguém ainda siga rótulos e estilos. É essa
gente que faz a banda querer gravar sempre o
mesmo disco.
Andhye
Iore, Aril 2001
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