LOS HERMANOS
ENTREVISTA
Andhye Iore - Bom, de
Weezer eu sei que vocês gostam.
E de Mighty Mighty Bosstones, tem alguém na
banda que gosta?
Tem, o baterista
que não tá aqui, ele gosta de Mighty Mighty
Bosstones.
Afinal, Los Hermanos é uma banda
de ska core?
No disco, das 14 músicas, dez são assim...
Cara, eu acho que
colocar um estilo num artista é meio complicado,
porque se coloca uma grade em torno do estilo que
ele enxerga tantas diversidades. Você falar pra
gente que a nossa banda é de ska core e a gente
responder que não conhecemos nenhuma banda de
ska core, é mentira. No nosso som tem
influência de samba-canção em todas as letras
e nas harmonias, no som do Barba tem as
influências de death metal e heavy metal
melódico que ele ouve, no teclado do Bruno tem
as referências de funk e jazz, pra nós é
complicado falar que é uma banda de ska core,
apesar da roupagem muitas vezes ser. Talvez,
nesse disco tenha sido ska core, mas as músicas
novas já não são tanto.
Tem três músicas do disco que
falam "... um outro alguém..." na
letra. O Marcelo deve ter passado por umas
desilusões violentas. Você tem conhecimento de
causa pra escrever tanto sobre isso?
Cara, tem por
ouvir muito samba-canção. Um outro alguém, na
verdade, é uma maneira muito poética de se
tratar uma pessoa por quem você foi trocado. Eu
sempre gostei muito dessa expressão, "um
outro alguém" é impessoal demais. Acho que
é a forma mais impessoal de se tratar uma pessoa
é chamá-la de um outro alguém. Eu confesso
que, neste disco, isto tenha se tornado um pouco
repetitivo, foi um ato falho.
Como toda banda de rock, vocês
tiveram a batalha de correr atrás com demo tape
nas mãos, conseguir um espaço. E, agora, que
tem sucesso, algumas pessoas cobram que Los
Hermanos é banda de uma música só. Como vocês
encaram essas cobranças que acontecem o tempo
todo?
É muito ruim a
gente ter que provar que passou por essa luta.
Não era necessário isso, porque nós temos uma
relação com o underground muito antiga, eu fiz
fanzine durante muito tempo. Quando nós
lançamos as demos, sabíamos o que fazer com
elas. A gente fez de tudo que uma banda nova pode
fazer, distribuia demo por fanzine, ia em casa de
show com a fita, xerocava filipeta pra
distribuir. Tanto que o nosso respaldo, da nossa
história, é calcado na época que a gente tinha
no underground carioca. O público que liga pros
lugares pedindo nossas músicas, nossos shows,é
o público do underground, das bandas
alternativas. E com o sucesso e explosão de uma
música, parece que a história inteira se
desmancha e cria-se um mito de uma banda de um
sucesso só.
Por que que vocês acham que não
se forma uma cena independente no Brasil? Tem
banda, tem público, mas a coisa não anda...
Eu acho muito
relativo. Existem muitas bandas boas, que quase
ninguém conhece, bandas que vivem num cenário
onde 90% do público tem uma banda também. Mas,
é uma cena muito restrita, toda cidade tem uma
panelinha de 200, 300 pessoas que gostam e vivem
aquilo. Então, fica muito difícil, nenhuma
banda consegue sobreviver vendendo 300 discos na
sua cidade. Não dá pra fazer aqui como o Fugazi
faz nos Estados Unidos. É um lance de mercado
mesmo, um mercado pequeno num país
subdesenvolvido, as pessoas não tem dinheiro pra
comprar e isso não gera diversidade de gosto.
Por isso,o mercado underground segue uma
panelinha pra sempre.
Existe um crédito ao Abril Pro
Rock no sucesso de vocês?
Total, cara. Isso,
todo mundo pode falar. Quando a gente foi
convidado pra tocar, a gente sabia da
importância disso. No nosso caso foi
fundamental, porque foi a partir de lá que foi o
propulsor pra nossa carreira. Tivemos boas
críticas no jornal, é um festival que tem
caído em relação a cobertura da mídia. Cada
ano, os jornais dedicam menos atenção e, na
nossa vez, demos sorte porque era tudo pior,
tendo menos atrações interessantes, menos
cobertura da imprensa e menor organização. Todo
ano, espera-se que alguém sobressaia e foi a
gente e duas semanas depois estávamos assinando
contrato com a Abril, gravando o disco um mês
depois e foi tudo muito rápido.
Mas, vocês não acham que a
queda dos festivais acontece porque os
organizadores mudam o rumo, começam a trazer
bandas de majors pra tocar no meio das
independentes?
O que aconteceu no
Abril Pro Rock foi que se tornou de proporção
tamanha que passou a ser um grande filão. Se
alguém deixar de ir no show de uma banda pequena
porque no final tem um show do Paralamas do
Sucesso, esse alguém é um infeliz, não merece
ser chamado de underground. O festival continua
abrindo espaço para as bandas iniciantes, mas
trazendo uma atração conhecida, de grande
gravadora, no fim da noite.
Isso é a rivalidade que existe
no meio alternativo
que impede o crescimento da cena?
A cena do Rio de
Janeiro é muito boa nesse sentido, não existe
rivalidade, as pessoas se ajudam muito, marcam
shows juntos, o cara que faz a capa da demo de um
faz da demo de outro, as pessoas trocam
informação, dividem equipamento, existe uma boa
vontade muito grande e não existe rixa. Nós já
tocamos com bandas de estilos completamente
diferentes do nosso, das cenas e sub-cenas
existentes e isso é uma prova de que não existe
rivalidade. Mas, no entanto, é uma cena que não
vai pra frente. Eu conheço todas as pessoas que
vão nos shows, desde quando comecei a ir nos
shows underground, as pessoas são as mesmas. Há
cinco ou seis anos é assim, um ou outro sai da
cena, algumas bandas conseguem tocar nas rádios
e a galera numa boa. Acho que é um problema de
público mesmo. É um fenômeno que não tem
público. O público brasileiro curte outras
coisas, por enquanto.
Nós conseguimos fazer uma
entrevista sem falar
"daquela" famosa música de vocês...
Olha o cara, nem
falou o nome da música! (risos)
... é
que todo mundo só fala nessa música quando se
fala sobre Los Hermanos, eu acho que tem coisa
mais importante pra falar. Vamos falar da mídia.
Como vocês vêem o lance da mídia que dita as
regras na música brasileira e um estilo não
consegue permanecer muito tempo em evidência?
Mais do que um
estilo, é uma indústria tão monocultural que
eles promovem uma banda, mais que uma banda eles
promovem uma música. É superfragmentada. É
muito triste, eu fico muito triste. Existe muita
gente equivocada quando diz que o rock tem que
voltar, tomar as rédeas. Se for pro rock voltar
e tiver a mesma autoridade que o pagode e o axé
tem nas rádios hoje em dia, eu já tô votando
contra também. O interessante é pluralidade.
No disco tem ska, hard core,
carnaval, jazz, sentimentalismo, dor-de-cotovelo.
Qual é a concepção de tanta coisa diferente
reunida num disco?
Todo mundo da
banda ouve muito som diferente. A gente não era
da mesma patota, a gente morava longe um do
outro, tivemos infâncias completamente
diferentes. A nossa formação não foi como as
outras bandas que saiam procurando músico, a
gente foi se conhecendo. Acho que é uma das
paradas que mais dá orgulho na nossa banda é
como todo mundo conhece de música absurdamente
diferente uma das outras. Todo mundo tem uma
vontade muito grande de conhecer caminhos
diferentes pra fazer música. A nossa banda não
tem nenhuma influência de nenhum medalhão.
As músicas novas também tem
essa concepção de trazer coisas diferentes?
Cara, isso é uma
parada muito inconsciente da gente. Esse lance da
fazer arranjo e música é uma parada nova porque
o disco foi gravado com o repertório que a gente
tinha, eram músicas que a gente fez pra tocar em
shows, pensando nos shows. Agora, com a certeza
de gravar o disco com as músicas, isso deve
influenciar de alguma maneira o jeito de compor.
Andhye
Iore, maio de 2000
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