IRA
Uma banda que passeia pela
história do rock e sai ilesa
Andye Iore, 2002

Ira: do punk ao cover,
passando pelo mod, experimentalismo,
eletrônico e pop
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O Ira é
uma das bandas brasileiras de maior
técnica instrumental e tem em Edgar
Scandurra um dos melhores guitarristas da
história do rock brasileiro. Desde o
final da década de 70, quando tocava em
uma banda do colégio, Scandurra sempre
esteve antenado às novas tendências
musicais. Ao longo de mais de 30 anos
de rocknroll, além da
guitarra, o músico já passou pela
bateria, canta em algumas músicas,
compõe com maestria e até ataca de
produtor.
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Entre as
formações do canhoto guitarrista estão o punk
rock misturado ao Led Zeppelin e à virtuosidade
do americano Jimi Hendrix. A banda da escola se
chamava Subúrbio e teve um certo destaque depois
que um rapaz meio esquisito começou a ocupar o
microfone nos shows.
Nasi se tornou o
grande companheiro de Scandurra na carreira. Mas,
antes de formar o Ira, Edgar teve outra banda bem
conceituada no cenário alternativo. O Smack era
uma espécie de supergrupo do underground
paulistano. Além de Scandurra na guitarra e
vocal, faziam parte da formação Pamps também
guitarrista e vocalista, Sandra Coutinho no baixo
e Thomas Pappon na bateria. Sandra passou por
bandas importantes no rock paulista. Além do
Smack, ela tocou no Mercenárias e no
Voluntários da Pátria. Já o baterista Thomas
Pappon tocou no cultuado Fellini.
O Smack gravou
dois discos. O primeiro foi "Ao Vivo no
Mosh" em 1985. O segundo saiu em 86,
batizado de "Dia e Noite" e Scandurra
só participou em duas músicas já que o Ira já
começava sua escalada para o sucesso.
A primeira
formação do Ira tinha Nasi nos vocais, Fábio
Scatone na bateria, Adílson no baixo e Scandurra
na guitarra e vocal. Depois de tocar pelo
circuito de bares alternativos no underground
paulista, o baterista Charles Gavin entrou para a
banda. No começo, o Ira se apresentava tocando
covers, sendo a maioria de punk rock. A partir de
82 é que começaram a tocar músicas próprias.
Com a ajuda do
produtor Pena Schimdt, o Ira foi contratado pela
poderosa Warner. O primeiro registro saiu em 94,
com um compacto trazendo "Gritos na
Multidão" e "Pobre Paulista",
dois dos maiores sucessos de toda a discografia
da banda. O grupo passou por outra mudança antes
de gravar o primeiro álbum. André Jung saiu do
Titãs para entrar no lugar de Charles que foi
para o Titãs e Ricardo Gaspa assumiu o baixo.
MOD
O debut com
"Mudança de Comportamento" em 85
conquistou elogios de toda a imprensa musical. O
disco com 11 músicas apresentava canções
fortes e uma banda cheia de personalidade. É
desse álbum o maior sucesso da discografia. A
música "Núcleo Base" foi composta por
Scandurra em 1980 quando servia o exército e é
a que mais empolga os fãs nos shows.
Na capa do disco,
a banda aparecia vestida ao estilo mod e Edgard
Scandurra pulando a la Pete Townshend.
Referências confirmadas na maioria das músicas
até com uma canção com o gênero no título:
"Ninguém Entende um Mod".
Aproveitando a boa
repercussão da mídia e público, o Ira lançou
o segundo álbum em 86. "Vivendo e Não
Aprendendo" ainda tinha músicas antigas. O
álbum foi um sucesso de vendas e considerado um
dos melhores discos dos anos 80 no Brasil.
Entre os destaques
estavam "Envelheço na Cidade",
"Quinze Anos" e "Dias de
Luta". Mas, o que impulsionou a carreira foi
a inclusão da música "Flores em
Você" na trilha sonora da novela "O
Outro", da Rede Globo. Com um belo arranjo
de cordas, a música levou o som do ira a um
público que não conhecia o trabalho do grupo.
O disco também
tinha versões ao vivo de "Gritos na
Multidão e "Pobre Paulista", as
duas primeiras canções gravadas pela banda.
Como conseqüência de toda a agitação em cima
da banda, Edgard Scandurra foi eleito o melhor
guitarrista do ano pela finada revista Bizz. Esse
era o primeiro de muitos prêmios dados ao ira ao
longo da carreira.
Surpreendentemente,
a banda voltou em 88 com um disco experimental.
Apesar da qualidade de
"Psicoacústica", muitos fãs não
entenderam a opção de não se render ao lado
comercial, como fizeram muitas bandas. Proposital
ou não, o fato é que essa mudança na
sonoridade afastou um pouco a banda da mídia.
SOLO
Paralelo ao
terceiro disco, Scandurra lançou seu primeiro
disco solo. "Amigos Invísiveis", onde
tocava todos os instrumentos. Em 89, o ira
lançou um disco com grande influência de
cinema, um dos hobbies de Nasi.
"Clandestino" também não empolgou
muito e os fãs já se acostumavam com os novos
rumos longe das músicas pop e totalmente voltado
para o espírito do rocknroll.
Em 91, o grupo
lançou seu quinto álbum. "Meninos da Rua
Paulo" era um bom disco, mas não foi bem
trabalhado devido ao desgaste no relacionamento
entre banda e gravadora pela baixa vendagem nos
dois discos anteriores. Um dos destaques do
álbum era "Você Ainda Pode Sonhar"
onde o grupo misturou Beatles com Raul Seixas.
O lançamento de
"Música Calma para Pessoas Nervosas"
em 94 encerrou o contrato com a Warner. Em
seguida, duas coletâneas foram lançadas:
"Geração Pop" em 95 e "O Melhor
do Ira" em 96. Depois de 10 anos dentro de
uma das maiores gravadoras do país, o Ira partiu
para uma nova realidade dentro da Paradoxx. Em
uma gravadora menor e especializada em dance
music, o grupo retomou as raízes rock.
O sétimo álbum
foi batizado de "Sete" e lançado em 96
após uma turnê no Japão. O disco vinha com uma
faixa para cd-rom e tinha como destaque a música
"Assim que me Querem". No mesmo ano,
Scandurra lançou seu segundo álbum solo.
"Benzina" mostrava o guitarrista
influenciado por música eletrônica. Além do
rock, Edgard dividia seu tempo com clubes da cena
clubber.
Mais uma vez, o
inquieto guitarrista direcionou a música do Ira
para o experimentalismo. O disco "Você Não
Sabe Quem Eu Sou" foi lançado em 98
retomando o trabalho de
"Psicoacústica" de dez anos atrás. O
disco recebeu um importante prêmio da
associação paulista de críticos de arte. Mas,
mesmo assim, o Ira saiu da Paradoxx.
COVERS
A estréia na
Abril Music foi em grande estilo. Em 99, a banda
gravou um disco só de covers falando de coisas
sentimentais. "Isso é Amor" trazia
participações de Samuel Rosa, do Skank, e de
Fernanda Takai, do Pato Fu.
O disco mostrou a
banda em grande forma tão inspirada como em seus
dois primeiros álbuns. O repertório eclético
ia do punk Wander Wildner ao singelo Lô Borges,
passando por Gang 90, Ronnie Von, Chico Buarque,
entre outros.
Novamente
respirando elogios da crítica, o Ira voltou ao
mainstream em 2000 com o disco "Ao Vivo
MTV", saciando os fãs que aguardavam um
registro ao vivo em 15 anos de carreira. Além de
16 sucessos, a banda também gravou mais quatro
músicas inéditas.
Mostrando
maturidade, o disco "Entre Seus Rins"
foi lançado em 2001. Com uma sonoridade coesa e
criativa entre o bom e velho
rocknroll e elementos eletrônicos, o
disco empolgou os fãs com letras mais sérias e
críticas.
O Ira é um raro
caso de banda que passou por várias fases e
manteve acesa a chama do rocknroll.
Mesmo longe da mídia, a banda continuou a gravar
discos e a fazer shows. Desde o punk e mod no
início da carreira, passando pelo eletrônico e
experimentalismo, o Ira conseguiu sobreviver a
modismos sem fazer média com nenhuma gravadora.
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