JAIR
OLIVEIRA
ENTREVISTA
Andhye
Iore - Você tem dois estigmas fortes:
de ser o Jairzinho do Balão Mágico e de ser o
filho de Jair Rodrigues. Você tem a alguma
preocupação em se desvincular disso e se firmar
somente como Jair Oliveira?
Jair Oliveira - Se
eu dissesse pra você que eu quero que as pessoas
me lembrem só por estes aspectos, estaria
mentindo. Na verdade, não tento esconder nada do
que fiz no meu passado, até mesmo porque não me
arrependo de nada. As coisa que eu fiz foram
muito importantes para a minha carreira e para
muita gente. O fato de ser filho do Jair
Rodrigues é muito mais um orgulho que um
incomodo porque ele é uma figura extremamente
importante na música brasileira, é uma pessoa
extraordinária e um pai maravilhoso. É obvio
que tenho o meu trabalho como produtor, como
intérprete e as pessoas me reconhecem por isso
e, às vezes, até se esquecem do que já fiz no
passado. Foi uma fase importante da minha
carreira, mas que passou. Não tento esquecer,
mas não fico alimentando também. Eu evolui
musicalmente.
Graças a esses estigmas, você
acredita que se optasse por uma carreira
comercial como alguns filhos de famosos que
estão na mídia hoje, as portas abririam com
mais facilidade?
Não sei se eu
teria as portas mais abertas. A minha intenção
sempre foi fazer música e fazer de um jeito que
eu gostasse e acreditasse. Não só eu, como
vários outros filhos de artistas, estamos há um
bom tempo batalhando um espaço para poder
mostrar a nossa música. Não é o fato de ser
filho de artista que abre as portas
automaticamente. Tem que produzir e mostrar o seu
trabalho. Às vezes, é mais complicado porque as
pessoas acabam colocando uma cobrança em
comparação com o trabalho de seus pais.
Suas músicas tem uma equilibrada
mistura de black music com clássicos da MPB.
Até que ponto você tem uma preocupação em
resgatar ou mostrar esses gêneros para as novas
gerações?
Essas referências
todas já estão diluídas no meu jeito de compor
e de produzir. Eu cresci ouvindo muito samba,
Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Pixinguinha, por
outro lado também ouvi muito jazz, Miles Davis,
Wes Montgomery, Coltrane e muita MPB, soul,
enfim... Todas estas coisas acabam refletindo no
meu trabalho. Tenho uma certa preocupação, não
em resgatar, mas em mostrar pra nova geração
que não conhece muito esse trabalho. Eu ainda
tenho um certo contato com essa turma porque
cresci ouvindo isso e meu pai fez parte dessa
história. Isso já está embutido, é uma coisa
minha. Fico feliz quando alguém tem interesse no
trabalho do grande mestre da música como o Baden
Powell, porque toda essa geração tem citado o
Baden Powell. Isso resgata um período da música
brasileira que foi um dos melhores períodos da
música aqui no Brasil.
Artistas como você são mais
aclamados no exterior.
Você pensa em se dedicar à uma carreira
exclusivamente fora do Brasil?
Exclusivamente
não. Tenho o interesse em mostrar o meu trabalho
em outros lugares do mundo. Mas, o meu grande
objetivo é mostrar a minha carreira aqui no
Brasil. Às vezes, isso demora até um pouco
mais. O ideal é continuar produzindo aqui no
Brasil e ter a oportunidade de mostra fora
também.
Como é a relação profissional
com seu pai?
A relação
profissional é muito clara entre a gente. Apesar
de eu produzir os três últimos discos dele,
procuro não dar muitos palpites na carreira
dele. Isso acontece com ele também. Ele opina
sobre o meu trabalho, mas não dá diretrizes.
Todos nós entendemos que eu tenho a minha
carreira, ele tem a dele, a Luciana tem a dela e
cada um é responsável pela sua carreira.
No Oscar desse ano tivemos uma
premiação que causou algumas discussões em
relação ao racismo. No Brasil, onde há um
preconceito camuflado, também temos artistas e
esportistas negros talentosos. Você carrega
alguma bandeira neste sentido, uma vez o que
importa é o bom ou mal artista e não o artista
branco ou negro?
Sem levar em
consideração a cor deles, acho que o Denzel
Washington e a Halle Berry são dois atores
espetaculares. Não acho que foi assim
"Vamos dar o Oscar para dois atores
negros..." O que sou contra completamente é
o preconceito prejudicial em qualquer sociedade.
O preconceito racial, o religioso, o ideológico,
o social que aqui no Brasil está associado ao
racial. E é dessa forma como você disse, é
camuflado. Ninguém assume que é racista, mas
todo mundo, de certa forma, é um pouco. As
pessoas tem que enxergar o mérito dos outros
além. Transcender o negócio da cor da pela, da
opção religiosa ou sexual. São coisas que
acabam obscurecendo o mérito humano.
Você tem um site com seu
trabalho.
Qual é a importância da internet para você?
Acho a internet
uma das revoluções em tudo que diz respeito à
comunicação. Aqui no Brasil ainda está
engatinhando, mas está crescendo. Eu como
artista, tenho que ter esta preocupação. Ano
passado, quando estava divulgando o
"Disritmia", lancei exclusivamente na
internet a música "Um Sorriso Pra Te
Dar", que entrou no disco novo devido ao
sucesso da internet porque tive oito mil
downloads da música, o que é um número
considerável. Recebi muitos e-mails pra incluir
a música no disco. Tenho um site onde tenho
coisas exclusivas do meu trabalho para o site.
Acho que a tendência é só crescer.
Você acredita que a internet
pode ser um veículo para que os artistas
sobrevivam sem as gravadoras?
Quando descobrirem
uma forma de vender música pela internet, que
seja boa pro consumidor e pra todo mundo que
esteja envolvido no trabalho possa receber
direitos, acho que será muito bom para todos os
músicos. Se você pode ter este contato direto
com seu público, sem passar por gravadora e
filtros da mídia, é uma grande vantagem porque
na internet não tem jabá. E é pro mundo
inteiro, é muito legal. Acho que o músico pode
sobreviver sim, se acharem esse meio.
Entrevista
feita em abril de 2002
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