JOTA QUEST
Astros pop trazem
positividade Maringá
A
idéia inicial em "Oxigênio" é o
mundo já acabou, vocês destruíram
tudo. Mas, depois, falei "...ainda é
possível voar, o mundo
ainda é verde e, mesmo com a fumaça, o ar é
oxigênio!"
| Formada
em 1993 e despontando para o cenário
musical em 1995 em Belo Horizonte, a
banda Jota Quest é composta por cinco
rapazes tocando black music. Porém, a
sonoridade da banda propunha algo mais
que ritmos dançantes calcados em funk e
soul. Os meninos de BH incorporaram rock
e criaram um conceito extremamente pop
para a banda, destacando as letras
positivas.
Formada
por Rogério Flausino (vocal), Marco
Túlio (guitarra), PJ (baixo), Paulinho
Fonseca (bateria) e Márcio Buzelin
(teclados), a banda consolidou uma
carreira vitoriosa com boa vendagem dos
discos, shows lotados e crescendo aos
poucos. O início foi como qualquer outra
banda.
|

Rogério:
otimista e apaixonado
|
Disquinho
independente embaixo do braço correndo atrás de
gravadora. "É um pouco rápido pra quem tá
de fora, mas para nós não é tão rápido
assim. Saímos do quartinho da casa do pai do
Paulinho pra estar viajando o país inteiro e
fazendo disco.", afirma Marco Túlio ao SUPERS
sobre o sucesso da banda.
Aproveitando o
estouro de canções como "Fácil" e
"Encontrar Alguém", o quinteto
trabalhou a imagem e conseguiu um inédito e
rentável contrato com a Coca-Cola para fazer
comerciais do refrigerante Fanta.
Um detalhe curioso
na formação da banda é que Rogério só
começou a cantar no grupo depois de 13
vocalistas terem sido reprovados. Outra detalhe
é que a banda precisou mudar o nome J. Quest
para Jota Quest em função de uma ação
judicial movida pela Hanna-Barbera, estúdio
americano de animação onde foi criado o desenho
Johnny Quest, de onde a banda se inspirou para o
nome.
O Jota Quest se
apresentou em Maringá no dia 12 de maio como uma
das principais atrações da 29º Expoingá e
concedeu uma entrevista ao SUPERS:
Andhye
De banda independente a uma das
bandas de maior sucesso no
país. Como é pra vocês essa relação de sair
de baixo e chegar a popstar?
Paulinho -
A gente não é bem popstar... é muito bom ter
esta estrada porque já tivemos outras bandas,
ralamos bastante e sabemos bem o que é isso, dá
uma certeza do que fazer, qual caminhos trilhar.
Nós cometemos menos erros na carreira. Tivemos a
sorte de não ter tido um estouro logo de cara,
viemos devagar, construindo cada degrau. Hoje,
sentimos uma banda que têm uma banda legal, com
solidez e história formada.
Marco Tulio Acho que é a estrada.
Ao mesmo tempo, é tudo novo pra gente. Por mais
que tenhamos feito mais de 600 shows na carreira,
ainda têm muita coisa nova rolando.
Belo Horizonte têm uma cena
cultural muito forte, com farta produção de
quadrinhos, cinema e música. O que move essa
agitação cultural de BH?
MT
Ao mesmo tempo que têm a cena cult, underground,
alternativa também têm a cena pop e todo mundo
mistura isso e solta pro Brasil inteiro várias
coisas. O que não temos ainda é um veículo de
mídia nacional que seja gerado ali com
matéria-prima todo esse cenário cultural e que
leve isso pro Brasil inteiro. Qualquer estado
fora do eixo Rio-São Paulo têm que buscar isso.
Vocês não acham que a Rede
Minas, da Tv Cultura, não faz isso?
P É
a única que faz isso, é o único veículo que
temos. Mas é muito pequeno perto do que é
feito. Eu vi o Alto Falante outro dia, porque lá
em Belo Horizonte eu não vejo e vi em outra
cidade e tinha toda a galera que produz o
programa é amiga nossa...
MT É muito pouco pelo tanto de coisa
que têm lá...
As letras do Jota Quest são pra
cima, falam de coisas positivas. Realmente
vale mais a pena falar de coisas positivas que
ficar se lamentando?
Rogério
Eu acho sim. Sempre fui otimista. Quando tudo tá
escuro, embaçado, um sorriso ilumina o caminho.
Bola pra frente, cabeça pra cima. A idéia
inicial em "Oxigênio" é o mundo já
acabou, vocês destruíram tudo. Mas, depois,
falei "...ainda é possível voar, o mundo
ainda é verde e, mesmo com a fumaça, o ar é
oxigênio!". Sempre têm uma coisa assim,
ainda dá. Pode ser que um dia acabe tudo e eu
morra falando bobagem, tipo "...ô cara
ficou falando aí e não adiantou nada!",
pode ser. Mas eu acredito num futuro próspero.
As letras do Jota são assim. Acho que você pode
mostrar os problemas, mas têm que dar
perspectivas de soluções. É muito fácil ficar
falando que tá ruim, difícil é acrescentar.
Então vamos trabalhar, botar o time em campo e
vamos jogar a partida. A gente tá tentando. A
gente fala de política, de ecologia, sempre
chamando "Bicho, vêm aí, vamos fazer a sua
parte!". Porque cada um fazendo a sua parte
a gente pode melhorar. Amor também a gente fala
e isso têm que falar porque é de todo mundo,
porque a gente é muito amoroso e apaixonado.
MT No último disco já têm coisas
mais introspectiva. Mas, nós somos assim, temos
perspectivas de sonhos, boas expectativas de
futuro e a nossa maneira de trabalhar é em cima
disso. Não ignora que acontecem coisas ruins,
mas retratamos tudo isso com perspectiva, uma
visão de um futuro melhor. A vida não é só
isso não, mas têm artistas que retratam o outro
lado tão bem. Cada artista faz aquilo que acha
que faz de melhor e mais sincero. Não têm
porque fazer tudo. Conseguimos expressar essa
nossa vertente de uma maneira tão sincera e
coerente que as pessoas vêem isso nas
entrevistas, nos nossos shows, no dia a dia. Não
têm porque ser diferente do que sentimos. Muito
mais que alegria é perspectiva, um lado
construtivo de tudo isso.
P Essa preocupação sempre tivemos de
não ser deprê. Vamos passar a coisa séria de
uma maneira mais tranqüila. A galera consegue
ouvir um "De Volta ao Planeta", fazendo
festa e pensando em coisa séria. Não é nada
preparado, é nosso jeito de fazer as coisas.
MT Ontem eu vi um cara falando
"... o povo quer isso...", que nem o
Netinho fez sucesso com o programa dele e fala
"O povo quer isso!". Aí, na Marília
Gabriela, um programa totalmente diferente, falam
"O povo quer isso!". Cara, o povo quer
tudo! A gente quer um pouco de tudo que vêm
preenchendo. Por isso o sucesso de cada banda,
cada programa, cada marca de roupa um completa o
outro. Tudo isso preenche o ser. Quem faz isso
com qualidade e sinceridade consegue o seu lugar.
Como vocês já precisaram correr
atrás de gravadora, como
vocês vêem o fato das majors não investirem em
bandas novas?
MT
Temos dois caminhos hoje em dia. Primeiro,
pequenos selos que pegam artistas segmentados,
que estão no gueto. Por exemplo, o funk carioca
que vêm sendo trabalhado há muito tempo
através de selos pequenos. A partir do momento
que ele ganhou corpo, a gravadora veio e vendeu
pro país inteiro. Hoje em dia, o trabalho da
gravadora é uma espécie de supermercado que só
vai trabalhar artistas e segmentos que tenham um
potencial de venda. Funciona assim e eu não vou
te dizer se é certo ou errado. O que acho é que
nós que temos como parceiros uma gravadora,
vemos isso como uma parceria. Jogamos com essas
regras a nosso favor fazendo o nosso som. Se isso
for interessante pra eles pra vender, aí a
parceria vai ficar bem. Não pode é inverter a
ordem como É O Tchan fez. Inverteu a ordem de
valores e prioridades deles. A questão de
oportunidade pra quem tá começando é o
potencial ser coerente com o que a gravadora
quer. Quando estávamos começando, não viemos
de nenhum gueto, de nada. A gente vinha fazendo
black music num momento em que as bandas estavam
fazendo reggae por causa do Skank, ou tipo
Raimundos, ou pagode, ou axé.
P O lance de gravadora é que ela não
está deixando de lado nenhuma banda. Ela procura
sempre e a gente vê isso porque levamos material
pra lá e os caras escutam procuram conhecer.
Paralelo a isso, vêm o modismo e eles investem
nisso porque eles vivem da grana e destrói todo
um movimento. Como o funk que já tá caindo pelo
excesso de exposição, colocaram um monte de
porcaria. Cada artista, pequeno ou grande, têm
que ser auto-suficiente, não pode depender
daquilo. Nós usamos a gravadora pra divulgar e
colocar nas rádios, que é algo muito difícil.
Mas, paralelo a isso, corremos por fora não
dependendo de nada. Se ficássemos acomodados
esperando a gravadora, íamos estar nas dores do
mundo, do mesmo jeito.
MT Quando algumas coisas caem na
gravadora, principalmente coisas que não
gostamos, falamos "Tomara que a gravadora
pegue e faça muito sucesso!", porque quanto
mais rápido fizer sucesso, mais rápido acaba
também e a gente fica livre disso.
E
o lance da mídia que pode criar um
sucesso, bem como derrubar um artista...
vocês acham que não sofrem essa
manipulação?
MT
Existe um roteiro de trabalho
no universo da música pop. Você têm
que estar sempre presente pra que as
pessoas conheçam o seu trabalho que têm
a vida útil muito curta.
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Jota Quest:
do quartinho de ensaio para comercial da
Fanta
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Poucas são
aquelas músicas que viram clássicos e você
ouve a vida inteira. Nem tanto o céu e nem tanto
a terra. Têm que usar a televisão, o rádio, a
imprensa, tudo isso é vitrine pro seu trabalho.
Você pode usar isso pro bem ou pro mal. Pode ir
no Gugu e fazer um playback que não é uma coisa
tão do bem. Mas, você pode ir lá e fazer a
Banheira do Gugu, levar seu pai e sua mãe, fazer
o Domingo Legal, enfim... Têm que saber conduzir
isso. Duvido que as gravadoras obriguem seus
artistas a fazerem isso, acho que é muito mais
da ambição do artista de querer fazer certas
coisas ou não. O artista que faz sucesso, acho
que é muito mais mérito do artista que de
qualquer gravadora.
Texto,
entrevista e fotos: Andhye Iore, maio/2001
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