LUNA
SHOW
Canção para embalar
sentimentos
O show da banda
americana Luna, em Londrina, no dia 28 de
setembro, foi um dos melhores do ano e serviu
para habituar os roqueiros da região a aceitar
um outro conceito de música ao vivo.
Quem se incomodou
com o baixo volume no show do Yo La Tengo, em
fevereiro desse ano, também ficou decepcionado
com o Luna. Apesar do volume normal, o que
incomodou dessa vez foi a deliciosa lentidão das
músicas.
Um show arrastado,
na medida exata para embalar lembranças alegres
e sonhos de um futuro melhor. Como se não
bastasse, ao vivo a banda lembra ainda mais
Velvet Underground. O que poderia ser um defeito,
se encaixa como uma luva, já que Dean Wareham
segue cada passo de Lou Reed com muita
propriedade.
TIMIDEZ
Em uma hora e sete
minutos, o Luna tocou 14 canções divididas
entre os discos "Bewitched", "Pup
Tent", "Penthouse" e "Days of
Our Nights". Os destaques foram "Tigger
Lily", cantada em côro, "Slash Your
Tires" e "Bonnie and Clyde".
Nestas três músicas, o público aplaudiu,
cantou e dançou timidamente.
O show passa uma
certeza na história da banda. O Luna pode,
tranqüilamente, ser dividido em a.B. e d.B. Ou
seja, antes da baixista Britta Phillips entrar na
banda e depois de sua presença. É incrível
como ela chama a atenção do público. Sem
contar que tem uma belíssima voz, o que é
essencial.
De mini-saia
preta, bota de couro, delicadas paletadas nas
cordas do baixo rosa e uma sensualidade exalante,
Britta parece ter saído de uma letra de Lou
Reed. Uma musa do submundo que enfeitiça pelo
olhar, pela voz e pela imaginação.
Sem dúvida
alguma, a banda ganhou muito. As canções em que
ela faz backing vocal, "4000 Days",
"Tigger Lily" e "Superfreak
Memories", ficaram mais melódicas se
é que é possível e sua participação
no processo de composição do disco novo foi
confirmado por ela mesma.
CLÁSSICO
Ao vivo também se
percebe que o clássico do Luna é a cover para
"Bonnie and Clyde". No disco, esta
canção é, de longe, uma das melhores já
feitas na história do rock. Sem exagero. E, ao
vivo, Britta substitui muito bem Laetitia Sadier,
do Stereolab, no dueto. O que não é muito
fácil. Até Dean se empolgou e deu uns pulinhos
desengonçados enquanto o público à frente do
palco entrava numa histeria intimista, contida.
A grande surpresa
do show foi a ausência de "4th
of July", da antiga banda de Wareham, o
Galaxie 500. Gravada no recente "Luna
Live", esta música vinha sendo tocada nos
últimos shows nos Estados Unidos e, nas
entrevistas antes de embarcar para o Brasil, Dean
prometeu aos fãs que ela estaria no set list.
Erro perdoado.
Quem abre o show sussurrando um relacionamento
com uma garota que nunca pede, sempre grita, mas
que ele corre para ela assim mesmo, pode se dar
ao luxo de mudar um repertório tão belo e
invejável por dois motivos.
O primeiro, é que
poucas bandas conseguem compor tantas músicas de
impacto emotivo no público. O segundo, é a
coragem e competência musical de manter ao vivo
o estilo "música para ouvir" que
recheia a discografia do Luna. Salve Dean Wareham
e obrigado aos produtores da turnê brasileira!
Andhye
Iore / 2001
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