MICKEY JUNKIES

ENTREVISTA

Andhye Iore - O Mickey Junkies conseguiu algo que muitas
bandas que estavam na estrada há anos nunca conseguiram:
um contrato com gravadora. Qual foi a história com a Paradoxx?

Rodrigo Carneiro - Após uma série de ameaças de contrato e burocratas nos saudando como the next big thing altas horas da noite, estavámos completamente desinteressados em ficar fazendo contato com gravadoras. Focalizamos todas as energias num sistema gratuito de distribuição de fitas demo (nós as gravávamos no estúdio da Brasil 2000 FM e os interessados nos mandavam cassetes virgens, que eram devidamente preenchidas, e selos para o retorno) e aos shows. Num deles (no Sesc Pompéia) apareceu o diretor artístico da Paradoxx, um enganador bicudo chamado Zé Luiz. Na festinha de camarim, ele começou com a mesma conversa que já tínhamos ouvido antes de outras pessoas do ramo. Cortei o bla-bla-bla dizendo que se ele pretendia falar de trabalho, decididamente, ali não seria o melhor momento. Trocamos telefone e ele realmente ligou no dia seguinte sinalizando o intento. Em paralelo, o Marcel Plasse estava negociando com a gravadora para o lançamento dos dois CDs da coletânea No Major Babes, que estava engavetada havia quase dois anos. Acertamos com eles. Não houve grandes benefícios. A Paradoxx é a pior gravadora do mundo e gerida, à época, por pessoas de má índole. Uma série de combinados não foram cumpridos, do tipo deixar sem pagamento o autor do projeto da capa, o Rafael Lain (eles queriam um designer funcionário da casa o que de cara já causou celeuma), tumultuar o orçamento do videoclipe, entre outros tormentos (conseguiram inclusive melar uma turnê internacional nossa por pura incompetência). A distribuição também pecou em alguns aspectos. As lojas alternativas tinham dificuldades pois há um número pré estipulado para compra. Um grande magazine pode adquirir uma grande quantidade (de maneira aleatória podia-se encontrar Stoned no Carrefour ou nas Lojas Americanas, minha tia via e adorava). Já uma loja menor... e com todas essas histórias vinham exigir que participássemos de programas de TV e rádio horríveis. Não íamos, é claro. Nossa relação com a Paradoxx terminou com o muro no peito que eu dei no enganador já citado depois que ele me deu um beijo (no rosto) numa festa de lançamento de revista. Descontrole anos 90.

Por que o Mickey Junkies acabou?

Foi uma série de fatores. No decorrer do tempo, as coisas foram ficando um tanto estranhas. O Mix (um dos meus bateristas prediletos e que , por sorte, tinha substituído o Alexandre da formação original) teve de se ausentar. O Alexandre acabou voltando. Foi um período em que paramos um pouquinho para respirar e findadas as relações com a Paradoxx passamos a ensaiar e compor novas canções, mas ,conceitualmente, eu e o Érico já não nos entendíamos. Ele completamente servil à futura esposa e eu o eterno malucão de plantão. Numa ocasião, fomos chamados para tocar em Londrina e ele alegou que teria uma festa de amigo secreto pra ir no final de semana. Fiquei embasbacado. Já que ele tinha um compromisso tão "importante" que falasse então com o organizador do show. Não só ele deixou de avisar o produtor como também forjou um banho seguido de saída quando eu liguei para questionar a atitude. Pediu à irmã que mentisse. Duas semanas depois, nesse climão, fizemos o último show em uma casa bacana aqui em São Paulo. Quem estava lá adorou, a apresentação foi guiada pela tensão, já que eu e o Érico não estávamos nos falando. Depois de percorrer todos os clichês do trinômio Sex, Drugs and Rock'n'roll me vi no mais idiota conflito "vocalista versus guitarrista''. Por essas e outras, resolvi sair da banda para não presenciar a decadência que se avisava. Precisava buscar outras coisas, dar um freio nos excessos e me centrar um pouco. O que não foi fácil, pois eu vivia com muita intensamente aquilo tudo.

O que você anda fazendo atualmente?

Profissionalmente tenho trabalhado como jornalista. Escrevo no Caderno 2, suplemento cultural de O Estado de São Paulo. A boa e velha cultura pop norteia os escritos. Como deleite, tenho estabelecido parcerias com os grupos Mamelo Sound System (assinei e dividi vozes na música Ciência e Volúpia) e Shiva Las Vegas (com eles gravei o CD Prenda na Minha, estive no Musikaos e numa das edições do Abril pro Rock). No começo de agosto participei de um projeto muito legal do Sesc Consolação. Fui convidado a interpretar canções de Leonard Cohen. Selecionei o repertório, escrevi o roteiro com histórias das composições e alguns poemas do Cohen e me apresentei por lá durante duas noites acompanhado por dois violonistas que costumam tocar comigo num outro projeto que já se chamou Between Sky and Flowers. Marcelo Frade (ex-Los Sea Dux e Donkey Ass) e Flávio Telles (ex-The Charts). No ano passado fiz alguns shows como cantor convidado do Thee Butchers' Orquestra. Queremos repetir a dose. Eles são o máximo.

Por que você acha que não se forma uma "cena" independente no Brasil?

Parei de tentar entender a razão. Depois de tanto tempo no 'submundo', o que eu sei é que muitas vezes a independência brasileira teima em andar de braços dados com a precariedade. Prefiro saudar as iniciativas isoladas de produtores independentes como os de Goiânia, de Minas Gerais, do Rio, de São Paulo, entre outros Estados, que passam ao largo desse tipo de pensamento. Trazem bandas internacionais, promovem as da casa, gravam discos, brigam por espaço...

Qual a importância da internet pras bandas independentes?

Tem uma grande importância, ainda que a maioria das pessoas do País não tenham nem geladeira, o que dirá computador com um sistema sonoro decente. Panfletos à parte, a rede oferece possibilidades inimagináveis. Sei de um grupo mineiro, o Unfashion, que se criou na Internet e assinou contrato internacional por conta do número de downloads mundiais. O grande Mundo Livre S/A está saindo da Abril Music para tratar de seus interesses eles próprios. Já está previsto o lançamento do trabalho novo pela rede. Outras pessoas tem feito isso e conquistado bons resultados. As gravadoras têm parte com o coisa ruim, como diriam os antigos.

Andhye Iore, outubro de 2001

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