MUTANTES
Originalidade e inventividade marcam o Mutantes

Andye Iore, 2002


Mutantes: banda mais importante do rock brasileiro

Apesar de muitas pessoas considerarem Raul Seixas como o grande transgressor do rock nacional, é dos paulistas dos Mutantes a discografia mais original.

Enquanto o baiano Maluco Beleza se inspirava, tanto no visual como no som, nos artistas da Sun Records, coisa que até o próprio Raul fazia questão de deixar claro, os Mutantes não se inspiravam em ninguém.

Mas, sim estavam em sintonia com o que acontecia de mais importante no rock na América e na Inglaterra.

Ao mesmo tempo que os Beatles e o Pink Floyd sacudiam o mundo com a rebeldia e o psicodelismo, o Mutantes era boicotado no Brasil por se diferenciar muito dos bonitinhos da bossa nova e jovem guarda.

A importância dos Mutantes é tanta que o grupo influencia até hoje artistas e bandas internacionais. Nada mais que músicos como o ex-Talking Heads David Byrne, o Beck, membros do Belle & Sebastian, do Stereolab e até do Nirvana demonstraram publicamente sua admiração pela banda brasileira. Isso sem contar os inúmeros grupos novos influenciados pelos Mutantes. Desde o falado Mopho, de Alagoas até os alternativos OAEOZ, de Curitiba.

A origem dos Mutantes vem de duas bandas de colégio. Em 1962, as Teenagers Singers era um grupo vocal, onde se destacava uma menina de cabelos vermelhos. Era uma tal de Rita Lee Jones.

Num festival em 63, a banda das meninas tocou com um grupo que era o contrário. Ou seja, era só instrumental. O Wooden Faces era liderado pelo guitarrista Arnaldo Batista.

Dois anos depois, os grupos acabaram para formar uma nova banda. O Seis nasceu em 1965 cantando em inglês e fazendo propositalemente uma música nada convencional para a época.

Sem pretensão profissional nenhuma, o Seis participava de festivais e programas de televisão, sempre mal recebidos pelo público. Dois fatos impulsionaram o início da carreira de Rita Lee, Arnaldo Batista e seu irmão Sérgio Dias.

Em 66, a banda passava por uma crise e, sem nome, foi se apresentar num programa da tv. O apresentador e músico Ronnie Von batizou a banda de Os Mutantes inspirado num livro que Arnaldo estava lendo.

O outro acontecimento foi em 67, com o encontro com Gilberto Gil. A partir daí, o Mutantes descobriu que também podia fazer música em português e Gil incluiu a guitarra em seu repertório. Era o Tropicalismo que é considerado o mais importante movimento cultural no país depois da Bossa Nova.

Gil e os Mutantes participaram juntos do Festival da Record com a música "Domingo no Parque" e, é claro, receberam vaias da platéia.

Pouco antes de lançar o primeiro disco, o Mutantes participou de outro festival, só que na Rede Globo, com a música "Caminhante Noturno". Apesar de ter sido bem recebida pelos jurados, a banda perdeu para "Sabiá", interpretada por Chico Buarque e Tom Jobim e por "Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores", de Geraldo Vandré, que ficaram em primeiro lugar.

O primeiro disco do Mutantes foi lançado em 68. Batizado de "Os Mutantes", o álbum tinha 11 músicas e é considerado pela crítica musical como o mais importante disco do rock brasileiro.

As músicas mostravam uma grande inventividade melódica e as canções "Panis et Circense", "A Minha Menina" e "Baby", composta por Caetano Veloso, se tornaram clássicas.

Em 69, a banda foi convidada para tocar num festival em Cannes, na França. No mesmo ano, saiu o segundo álbum chamado "Mutantes". Com dez músicas, o disco trazia uma variação musical mais acentuada e mensagens esquisitas.

Se destacaram as músicas "Não Vá Se Perder Por Aí" e "2001", onde a banda revelava toda a sua ironia e criatividade. A música foi composta pelo também inventivo e polêmico Tom Zé em 1966 e ficou engavetada.

Até que Rita Lee colocou suas mãos nela fez com que o Mutantes ficasse em quarto lugar num festival se apresentando com a música que tinha uma letra totalmente nonsense e um instrumental admirável e hilário ao mesmo tempo, misturando psicodelismo e moda de viola.

Só pra ter uma idéia, confira o trecho da letra: "...a cor do sol me compõe, o mar azul me dissolve, a equação me propõe, computador me resolve..." Coisa de louco!

O talento de Rita, Arnaldo e Sérgio não cabia só nos discos. Para divulgar o segundo álbum, a banda preparou um espetáculo teatral repleto de imagens chocantes e muito simbolismo. Assim como no início da carreira, o público não entendeu muito bem o que a banda queria mostrar com tanta esquisitice.

O ano de 1970 foi de transição na carreira do Mutantes. O terceiro disco, "A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado" tinha 11 músicas e apresentava um repertório mais voltado para o rock, fugindo do tropicalismo.

Com toda a repercussão que a banda conseguiu na mídia, a gravadora Polydor planejou lançar a banda no exterior. O Mutantes voltou para a França para fazer shows e gravar novas músicas e versões em inglês de alguns sucessos de seus três discos lançados.

Curiosamente, na volta da banda ao Brasil, a gravadora desistiu de lançar o disco internacional. As músicas gravadas somente foram lançadas em 2000, num cd batizado de "Tecnicolor".

Em 71, o Mutantes teve outra experiência frustrante. O grupo foi convidado para participar de um programa na Rede Globo com os maiores nomes da música brasileira. Mas, de rock só tinha o Mutantes e o relacionamento com os medalhões da MPB não foi muito positivo.

Só mesmo um disco novo para dar mais ânimo à uma banda. O quarto álbum foi lançado ainda em 71 e mostrava um Mutantes com um som mais pesado e variado. "Jardim Elétrico" tinha 11 músicas e marcou o início dos problemas na carreira do grupo.

A banda se envolvia em confusões quando se apresentava em programas de tv e apareciam alguns conflitos de ego entre os músicos, agravados pelo envolvimento de Arnaldo com as drogas.

Para piorar os problemas, o Mutantes era um dos alvos da censura da ditadura militar que policiava as manifestações artísticas mais expressivas no país.

As músicas refletiam o momento passado pelo grupo. Uma salada sonora trazia música latina, saravá, baladas e rock. O talento de composição era comprovado com a melodia e deboche de "Virgínia", enquanto que a melancólica "Benvinda" anunciava o caminho que Arnaldo seguiria em sua carreira solo. Sem contar o refrão pegajoso e inusitado de "It’s Very Nice Pra Xuxu".

Em 72, o Mutantes lançou dois discos. Mas, só um foi creditado à banda. O outro foi dado como sendo um disco solo de Rita Lee. "Mutantes e Seus Cometas no País do Baurets" tinha 11 músicas e foi duramente censurado, com algumas músicas até tendo que ter o nome mudado.

É desse disco o grande sucesso da discografia. "Balada do Louco" chegou a ser regravada por outros artistas brasileiros, entre eles Ney Matogrosso. A letra da canção pode ser considerada como uma auto-biografia de Rita Lee e Arnaldo Batista, os compositores e que chegaram a se casar e a rasgar a certidão de casamento num programa de tv.

Novamente a banda levou sua sonoridade para novos caminhos. Além do rock’n’roll e da habitual ironia, o Mutantes passeava com muita propriedade pelo progressivo.

O tal disco solo de Rita Lee foi chamado de "Hoje é o Primeiro Dia do Resto de Sua Vida". Propositalmente ou não, a gravadora influenciou na separação da banda com o lançamento deste álbum. O disco vendeu pouco, apesar de ser admirado pelos fãs que sabiam que era um disco da banda Mutantes.

Mas, as coisas já não eram mais as mesmas entre os músicos. A gota d’água foi a desclassificação do grupo num festival ainda em 72, quando Arnaldo creditou o fracasso a Rita Lee, expulsando-a em seguida da banda.

Em 1973, o Mutantes gravou seu primeiro disco sem Rita Lee. Com seis músicas, "A e o Z" tinha todo o conceito do progressivo. Músicas longas, solos viajantes, letras surrealistas e, é claro, um espetáculo visual no palco.

A partir daí, a banda deixou pra trás uma carreira original para fazer parte de uma cena da época. O Mutantes se transformou num grupo que seguia a onda do progressivo do Pink Floyd, Genesis e Yes.

O disco era muito inovador para a época e foi um fracasso comercial, o que resultou no fim do contrato com a gravadora. Paralelo a isto, Arnaldo Batista se entregava cada vez mais às drogas e deixou o Mutantes. O que era uma lamentável concidência na história do rock, já que o também gênio Syd Barret havia deixado o Pink Floyd pelo mesmo problema.

Apesar de não contar com seus dois fundadores, o Mutantes seguiu comandado por Sérgio Batista que, na verdade, era o melhor músico entre os três, mas não tinha nem metade do carisma de Rita e Arnaldo.

Depois de muitos testes com músicos, o Mutantes conseguiu lançar seu sétimo disco em 1974, pela gravadora Som Livre. "Tudo Foi Feito Pelo Sol" tinha sete músicas e a mesma fórmula que de "AeoZ". Outro disco progressivo que não foi muito bem de vendas, mas é considerado hoje como um dos melhores discos de rock progressivo feito no Brasil.

Com constantes mudanças na formação, o Mutantes seguiu tocando e, em 1976, um show no Rio de Janeiro foi gravado e virou o disco "Mutantes ao Vivo". No ano seguinte, Sérgio Dias e sua trupe mutante foi tocar na Itália. Mas, após a entrada e saída de tantos músicos, o grupo perdeu a identidade e estava cada vez mais decadente.

Sérgio teve a idéia de trazer Arnaldo de volta em 1978. Mas, o seu irmão estava muito debilitado devido às drogas e não deu certo. Restava somente acabar de uma vez por todas com a banda que, anos mais tarde, seria referência obrigatória no rock moderno.

Em 92, o grupo quase se reuniu em um show de Rita Lee. Mas brigas nos bastidores num clima de "lavando a roupa suja" deixou os fãs a ver navio.

A carreira solo dos três mutantes são completamente diferentes. Rita Lee foi induzida pela gravadora a seguir um caminho mais comercial. Depois de alguns bons discos na década de 70, a Rainha do Rock brasileiro se perdeu nos anos 80.

A partir daí, sua carreira ficou mais calcada em seu nome que em suas músicas. Mas, nem por isso pode-se desprezar uma discografia com mais de 20 discos lançados. Mas, Rita Lee é papo para um programa só para ela.

Depois de anunciar o fim do Mutantes, Sérgio Dias se dedicou à uma carreira internacional e mais voltada para o jazz. Conseguiu lançar seis discos e trabalhou com Eric Burdon, dos Animals, com Phil Manzanera, do Roxy Music, além de tocar em discos de grandes astros da MPB.

Já o gênio incompreendido Arnaldo Batista lançou mais cinco discos depois que saiu do Mutantes e se refugiou num sítio no interior de Minas Gerais. Nos discos "Lóki?", de 1974, e "Singin Alone", de 82, dá pra entender perfeitamente quem dava as cartas no Mutantes.

Mesmo com os efeitos negativos de anos e anos drogado, Arnaldo compôs e tocou músicas que ganharam a admiração da crítica e de outros músicos. Apesar do fracasso comercial, Arnaldo continuou tocando e montando bandas. A que ficou mais conhecida foi a Patrulha do Espaço que chegou a lançar dois discos pelo conceituado selo independente Baratos Afins.

No início dos anos 80, o músico foi internado e tentou um suicídio mal sucedido que o deixou em coma. Em 89, após contato com bandas independentes paulistas, foi homenageado com um disco-tributo, chamado "Sanguinho Novo", onde 13 novas bandas tocavam músicas suas.

Em 2001, o amigo Lobão o convenceu a sair de seu retiro em Juiz de Fora para participar do Festival Abril Pro Rock. A garotada pôde conferir ao vivo uma lenda do rock’n’roll brasileiro.

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