NAÇÃO ZUMBI
ENTREVISTA

O Nação Zumbi é um grupo que faz questão de manter suas raízes. Mesmo com o destaque conquistado fora do Brasil pela criativa mistura de ritmos regionais com rock e black music, a banda manteve residência em Recife. E só sai de lá quando entra em turnê ou próximo ao lançamento de algum disco que o grupo passa uma temporada ou no Rio de janeiro ou em São Paulo para promover o álbum. E foi numa dessas passagens por São Paulo que o SUPERS conversou com o baterista Pupilo por telefone, em 9 de outubro de 2002. Depois da agitação, é claro, a banda esfria a cabeça em Recife.

Andye Iore - Vocês levaram dois anos para lançar um disco novo. Foi um tempo normal ou isso contribuiu para que o disco ficasse tão coeso como está?

Pupilo – Foi um tempo normal. A gente vinha de uma turnê. Apesar do "Radio S.Amb.A." ser um disco independente, a gente conseguiu fazer uma turnê legal pelo Brasil, Europa e Estados Unidos. Voltamos para Recife, compomos os temas, trocamos idéias sobre o período na estrada e colocamos em prática o que absorvemos neste tempo de turnê. Foi um trabalho sem pressões.

Como é comum numa banda com 10 anos de estrada, vocês estão melhores como músicos e em estúdio. Quais foram os principais fatores do desenvolvimento do Nação Zumbi?

É sempre a prática. Colocar em prática o que tem absorvido nestes dez anos de estrada, conquistando um respeito mútuo a cada disco e show, aprendendo a superar as dificuldades. A gente veio de um lugar como Recife que passou muito tempo parado e sabemos das dificuldades de conseguir espaço.

A banda mantém alguma coisa do Chico Science ou vocês adquiriram outra identidade após a morte dele?

A gente costuma dizer que estamos dando um segmento natural ao som da banda. Se você parar pra ver do "Da Lama ao Caos" ao "Afrociberdelia" tem uma outra proposta, outra textura, outra concepção de arranjo. Este disco novo não fica atrás disso. As pessoas podem comentar que tem diferença no som e tipo de letra que a gente tá utilizando hoje em dia. Mas, é o natural. Jorge era o principal parceiro de Chico e já escrevia nos outros discos.

Quando vocês começaram, havia uma polêmica das bandas independentes cantarem em inglês. Hoje, vocês são respeitados e tem algumas músicas em inglês. Qual é o conceito de vocês em gravar em inglês?

Nós somos uma banda muito bem resolvida em sonoridade. Então, não temos medo de falar em outra língua. Muito pela questão do impacto que o som da banda causou no público de fora. Ficamos afim de nos fazer entender também. Que as pessoas que assistem ao show não sintam só impacto dos instrumentos, mas como um todo.

E o que você acha dessa polêmica sobre as bandas brasileiras gravarem ou não em inglês?

Existem diferentes cenas. A indústria fonográfica está sempre procurando algo que eles possam transformar em moda. Tem uma galera que mantém uma integridade. Cada um tem que fazer o que gosta e o que se identifica mais. O mercado é que não ajuda muito. Agora, o mercado independente tá mostrando um pouco mais de força porque tá conseguindo chegar mais rápido nas pessoas porque a internet ajudou muito nisso.

Como está o trabalho de vocês no exterior?

A gente tinha em mente uma turnê esse ano. Mas, achamos melhor ir com o buxixo do disco novo. Como a Trama tá entrando na Europa agora, achamos melhor ir com um disco inédito. Até o final do ano, devemos ir para lá fazer a divulgação e, no próximo verão, faremos uma turnê.

Onde que o Nação Zumbi tem um maior destaque?

Na Europa existe uma abertura maior que nos Estados Unidos. Na maioria dos países da Europa, a receptividade é muito parecida.

Ainda rola de levantar uma bandeira pela cena cultural de Recife como foi o lance do mangue beat no início da carreira?

Com certeza! A gente não quer perder nunca este contato. São 10 anos de muita ralação levantando o nome do lugar. Este disco novo que tá saindo por uma gravadora de estrutura melhor, queremos que a cidade tenha uma visibilidade muito maior. Não só a Nação Zumbi, mas a cena de um modo geral. O conceito principal do primeiro manifesto continua muito presente na banda, que é trabalhar em cooperativa.

Vocês acreditam que a internet possa ser um veículo que permita às bandas sobreviverem independentes das gravadoras?

Sem dúvida! Internet veio dar um grito de independência, não só aos selos, mas aos artistas. Hoje em dia você consegue fazer um disco de boa qualidade em casa. A internet serviu para encurtar o tempo que as pessoas levam para conhecer as bandas. Para viabilizar um disco barato, você também consegue divulgar muito rápido e por um preço mínimo que a internet oferece. A gente é completamente a favor disso. Não é à toa que a cidade hoje em dia tem selos, uma cacetada de bandas e pessoas trabalhando em outras áreas. A internet viabilizou outros meios para você divulgar seu trabalho.

Como vocês chegaram à sonoridade no disco novo, que tem as mesmas referências regionais com black music, mas está mais eletrônico?

Foi voltar a trabalhar com pessoas de fora, como o Arto Lindsey. Pegar a opinião das pessoas de fora. Era um disco já concebido, mas abrimos espaço para outras coisas. Buscamos um conjunto, as texturas, os timbres, conseguimos o resultados pelo trabalho em conjunto, pela mixagem de Scott Hard que é um cara de produção há um tempo, tem um trampo versátil. Além de trabalhar com a cena undeground, já trabalhou com a Bjork, com um trio de jazz vanguardista. Isto tudo foi uma soma pro trabalho atingir o resultado que a gente queria.

Quando vocês começaram a se destacar, todas as gravadoras queriam ter bandas de Recife. A moda passou, mas vocês continuaram. Qual foi o motivo para o Nação Zumbi não ter sido só mais uma moda passageira?

É uma despreocupação que a gente sempre teve em relação a mercado, estereótipo e modismo. Sempre prestamos pela liberdade. Nunca abrimos mão. A gente cuida desde o som, da produção, do projeto gráfico. É uma banda que conquistou o respeito.

 

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