PIN UPS
ENTREVISTA
Entrevista
com Zé Antônio em outubro de 2000
Andhye Iore - Por
que você acha que o Brasil não tem cena
independente forte já que tem muitas bandas?
Zé Antônio
- Por incrível que pareça, não é culpa das
gravadoras. Acho que é um pouco de imaturidade
por parte das bandas. Não tô generalizando, tem
pessoas superprofissionais, bacanas mas,
infelizmente, tem uma parcela que se preocupa
pouco com a música e mais em uma projeção
pessoal. E acabam falando pouco de música e mais
que fulano falou, fez, veste. Por que MPB dá
certo? Você já viu um show de MPB com
equipamento ruim? Não rola, porque já existe um
respeito em relação aquilo. Dificilmente você
vê alguém falando "... não sei quem falou
isso, fez isso ou aquilo!" ou "Não no
mesmo palco que fulano porque não gosto do
estilo dele!" As pessoas deveriam ser mais
bacanas e se ajudar mais nesta cena. Tem muitas
bandas que eu adoro e, sempre que puder, vou
ajudá-las. E tem bandas que eu não gosto e,
simplesmente, fico quieto. Por que vou prejudicar
estas bandas? A cena é movida a isso.
Infelizmente, existe isso. Quando saio de São
Paulo, vem alguém e fala "Você viu que
fulano falou isso de você?!" Isso não me
interessa, quero saber se a música é boa.
Grande parte da culpa vem daí. Se as pessoas se
preocupassem mais com a música, com a
sonoridade, com a produção de música e aí
você chegaria num lugar e teria um equipamento
bom, seu show divulgado. Mas, não existe isso.
Existe um pensamento equivocado que ser
underground é fazer a coisa mal feita e não é!
Ninguém pode falar que Sonic Youth não é uma
banda underground. Mesmo quando eles foram para a
Geffen. Ser underground, ser alternativo que é a
palavra mais correta, é poder fazer a música do
jeito que você quiser, com os arranjos que você
quiser e tocar do jeito que você quiser. Ter uma
boa produção, uma boa distribuição não tá
acabando com isso. Tem um monte de banda legal
que está sempre numa major lá fora. Sigur Ros,
Teenage Fanclub. Não me venham falar que banda
alternativa são só aquelas desconhecidas do
interior da Finlândia que isso é besteira. É
um pouco de pose das pessoas que falam "Eu
conheço esta banda e você não!". Isso é
besteira!
Você acha que o tamanho do
Brasil dificulta isso?
Acho que não
porque não existiria uma cena nos Estados
Unidos, e lá existe. O que dificulta aqui pra
gente é falta de estrutura. Eu trabalho, se
quiser sair com a minha banda pra tocar no
nordeste de ônibus, eu não posso. Não é que
eu não queira, mas não posso colocar meu
emprego em risco. Se tivesse mais estrutura e
alguém falasse "Vem pra cá que eu pago
passagem de avião...", eu iria. Há um ano
e meio, nós fomos tocar em Curitiba, que é um
lugar que a gente sempre teve público. Nós
fomos e não tinha tanta gente no show. Eu
descobri que tinha dois promotores na cidade que
trabalhavam juntos e eles brigaram. Metade do
público ficou com um e metade com outro. Então,
pra atingir o mesmo público, tinha que fazer
show em duas casas diferentes, com dois
produtores diferentes. Por quê isso, pra quê
isso? Nós fizemos o teste e tocamos pra outro
produtor. Tava cheio, mas com outro público. É
uma besteira isso!
Você é o único membro original
do Pin Ups. Qual é a maldição da banda?
Acho que não tem
maldição não. Acho que nós estamos há muito
tempo. Vamos completar 11 anos e é natural. Se
você pegar, são pouquíssimas bandas que tem
essa idade toda e continuam. Em um ano, os
interesses já mudam e imagine em dez? Nós
tivemos várias formações. As pessoas vão
tendo outros interesses, vão saindo por outros
motivos e eu tô aí. Sempre compus as coisas do
Pin Ups e não senti que o trabalho acabou. Tem
coisas a serem feitas.
Você sente frustração em
relação à banda, que o
Pin Ups deveria ser mais ouvido ou ter mais
espaço?
Não, não sinto
não! Acho que todo músico gostaria que a sua
banda seja muito ouvida, bem distribuída. Dentro
da cena, nós lançarmos o número de discos que
lançamos e fazer tantos shows já é uma grande
coisa. Me sinto feliz com isso. Satisfeito eu
nunca tô. Sempre vou tá querendo muito mais.
Não tô frustrado não. Estou bem consciente. O
que fico triste é o que falei. Pessoas que
desrespeitam não só a minha banda, como outras
bandas. Sou mais frustrado com a cena que com a
minha banda.
De que maneira a internet é
importante para as bandas independentes?
Não tenho me
dedicado tanto à internet por falta de tempo.
Você tem que ter uma certa dedicação pra isso.
A internet facilita bastante, sou totalmente a
favor de colocar músicas em mp3, não tenho
preocupação de direitos autorias.
O que você achou da polêmica
com o Napster?
Acho uma besteira.
Os americanos tem uma postura muito boba, estas
bandas não quererem a Napster. É a mesma
discussão, tipo a tv vai acabar com o cinema.
São duas linguagens diferentes. Se você
disponibilizar mp3 diminuísse a venda de discos,
isto teria acontecido com a fita cassete há um
tempo atrás. Não acontece. Quem gosta de ouvir,
gosta de ter o cd, ver a foto, ir à uma loja e
descobrir uma banda nova. A Napster é um meio a
mais de divulgação. Se o Metallica não quer
ter suas músicas copiadas, não toca em rádio
então. Quando eu uso internet, uso pra conhecer
bandas novas, ouço uma música e se eu gostar,
vou atrás pra comprar o cd. Ou pra coisas
inéditas, coisas ao vivo ou que ainda vão sair.
Acho que estimula as pessoas a ouvirem mais
música. Essa coisa de perder direitos é
besteira.
Vocês foram uma das pioneiras a
cantar em inglês. Como você analisa a
situação das gravadoras não darem espaço às
bandas que cantam em inglês?
Isso não me preocupa
muito. As gravadoras que tem resistência às
bandas que cantam em inglês, são gravadoras que
não lançariam o Grenade ou o Wry. Eu me
preocuparia se os selos alternativos que a gente
trabalha, não lançassem mais bandas cantando em
inglês. Se você vai na Inglaterra, vê bandas
belgas cantando em inglês. A Bjork é islandesa
e canta em inglês. Qual o problema? A gente não
tem preocupação em cantar em inglês pra fazer
sucesso lá fora. É uma opção. Soa melhor,
simplesmente isso. Não tem grandes
questionamentos ou preocupação em levantar
bandeira de cantar em inglês. Tem bandas que
cantam em português e são excelentes. Pra nós,
pra nossa sonoridade o inglês soa melhor.
Gravadora também tem resistência com heavy
metal. Tem um monte de bandas boas no estilo e
não lançam. E lançaram Sepultura porque
fizeram sucesso. Se o Wry estourar nas rádios,
uma gravadora vai querer lançar nem que eles
cantem em qualquer idioma.
O Pin Ups tinha uma certa fama de
ser uma banda chata,
ser exigente pra equipamento em show. Qual é o
conceito disso?
Quando falavam que
a gente era chato quando exigíamos equipamento,
não acho que isso seja ser chato. Pode até
falar, mas já aconteceu de eu chegar num lugar
aqui em São Paulo pra eu tocar e o cara me dar
um amplificador de carro, um Tojo que,
obviamente, na segunda música queimou um canal.
Fomos tocar em outro lugar onde o chão era de
madeira mole, aí as pessoas pulavam e os
amplificadores desligavam da tomada. Tivemos que
parar o show várias vezes por causa disso. Em
outro lugar, tinha um amplificador de 15 watts
pra guitarra, sem PA. Não é que eu seja
antipático. Tem pessoas que vão lá para ver a
banda, estão pagando e tem o direito de ver um
show com som bom. É o mínimo. Podiam falar que
sou chato se eu tivesse pedindo toalha, bebidas
ou camarins. Eu quero que o público possa ouvir
bem a banda, quero mostrar bem o meu trabalho.
Já fui em show de bandas que achei ruim e,
depois, em show com equipamento bom vi que a
banda era boa. Se você quer fazer uma coisa
bonita, você tem que ter volume. Você quer
fazer uma coisa agressiva, tem que ter volume,
punch. Se isso é ser chato... acho que não!
Andhye
Iore
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